Nu e Cru

O interesse por tudo que é nu e cru vem de longa data, está escrito em nossas peles. Por isso, meu nome não é sem razão. Como dizia a abandonada página Sobre, Furoa significa chão.

Contra a gravidade, força de Urano, e a favor de Gaia, o ser humano é feito de barro. E como aquilo que o anima é o fôlego que vem do céu, seu corpo ama a terra.

Prova disso é que mesmo Deus, cansado das abstrações celestiais, quis se fazer criança e lambuzar-se de lama. Urano e Gaia puderam novamente fazer amor.

Assim somos nós. Animados pelo vento somos levados a abraçar a terra. Ser leve é abandonar os voos metafísicos. Leve é viver no chão.

Como nos ensinam as árvores, que deixam cair suas folhas, a única constante é a inconstância de tudo que existe.

Preparem-se que vem tempestade por aí.

Espetáculo e Vazio

Toda a vida das sociedades em que reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo que anteriormente era vivido deslocou-se em representação.

(Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo)

O mundo resume-se em aparências. Percebemos as coisas não como elas são em si mesmas, mas como elas aparecem a nós. Interpretamos a realidade através de nossos sentidos e através das narrativas que dão sentido à vida.

Talvez a maior fonte de sofrimento humano esteja na incapacidade de perceber que tudo é transitório, impermanente.

Talvez o apego às aparências seja a fonte da incapacidade que temos de dialogar. Ninguém compreende ninguém, tudo é contemplado passivamente, como se a vida fosse um cinema. Prova disso é este blog. Escrevo as mesmas coisas das mais variadas formas e ninguém entende. Como diz o The Last Psychiatrist, se você está lendo isto, esta mensagem é para você.

Todos os fenômenos são vazios.

(Sutra Coração da Sabedoria)

Sobre o pressuposto básico de que a realidade é diferente de como ela se apresenta a nós, surgiu aquilo que Guy Debord chamou de Sociedade do Espetáculo. O espetáculo, em nosso tempo, tomou o lugar de Deus. Ele está em todo canto, sabe de tudo que acontece e é capaz de qualquer coisa.

Essa tran­si­ção estru­tu­ral para uma soci­e­dade do espe­tá­culo envolve a trans­for­ma­ção em mer­ca­do­ria de setores pre­vi­a­mente não-colonizados da vida social, e a extensão do controle buro­crá­tico aos domínios do lazer, do desejo e da vida coti­di­ana.

(Douglas Kellner: Media Culture and the Triumph of the Spec­ta­cle)

Toda a nossa vida é perdida em busca de aparências. Não nos preocupamos em viver bem, o que quer que isso signifique, mas em viver de um modo que todos os nossos conviventes aprovem.
Por isso é que somos tão produtivos. Transformamos o tempo, e com isso toda a nossa existência, em mercadoria.

Perdeu-se a capacidade de maravilhamento, de ficar à toa. Nós não conseguimos mais enxergar aquilo que nossos velhos símbolos apontavam. Somos seres irreligiosos, no pior sentido possível.

Para tentar suprir isso, o espetáculo tratou de desenvolver uma pseudo-espiritualidade. O que pode ser encontrado tanto nas igrejas tradicionais quanto nas neopentecostais e até em versões importadas do budismo.

E mesmo para quem foge a esses grupos, a lógica do espetáculo ainda é inescapável. Somos tentados a buscar a aparência de alguém calmo, fala mansa e sorridente. Embora essas sejam coisas boas, não há atalhos na espiritualidade. Não adianta querer imitar a aparência de santidade, é preciso ter a mesma disciplina que os santos. Por isso o apóstolo Paulo escreveu: “ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me valerá.” Preocupamo-nos mais com como os outros nos veem do que de fato em orar e retirar-nos em solitude.

Tudo que pode ser visto é profano.

A vontade tem a mesma deficiência que a Lei — só consegue lidar com a aparência. É incapaz de gerar a transformação de que o espírito necessita.

(Richard Foster)

O caminho largo é cheio de regras

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Prédica para o Quinto Domingo Após a Epifania

13 Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens.
14 Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte;
15 nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa.
16 Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.
17 Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir.
18 Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra.
19 Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus.
20 Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.

~Mateus 5,13-20

O Evangelho de Mateus, diferentemente de Marcos, que é centrado na paixão de Cristo, concentra-se no ministério de Jesus. A comunidade mateana compilou no seu evangelho cinco grandes discursos de Jesus, apresentando o seu ensino como fundamento ecumênico da Igreja.

Um de seus temas essenciais, portanto, é o senhorio de Cristo. Dada a centralidade de seus ensinamentos, o papel de cada discípula e discípulo é submeter-se exclusivamente a ele. Por negarem o senhorio do imperador, substituindo a afirmação “César é Senhor” por “Jesus é Senhor”, as/os cristãs/ãos primitivas/os foram consideradas/os uma ameaça ao Império Romano.

Dentro de um cristianismo que deixou de ler o Evangelho, reduzindo a importância do Filho de Deus à sua morte e ressurreição, esquecendo-se de sua vida e ministério, e dentro de um cristianismo que se submeteu aos poderes deste mundo, ler o Evangelho de Mateus é um ato radical, de voltar às raízes de um cristianismo ético, vivenciado aqui e agora, e que demanda de nós a rejeição de todo poder constituído, afirmando que apenas Jesus Cristo é o Senhor.

*

Voltando a nossa atenção ao texto lido, apresenta-se diante de nós a seguinte questão: o que Jesus quis dizer quando afirmou que ele não veio revogar a Lei, mas para cumpri-la?

Essa pergunta fica ainda mais complicada quando olhamos para o versículo 20, em que Jesus afirma que a nossa justiça deve “exceder em muito a dos escribas e fariseus” para participarmos da Nova Realidade que ele está inaugurando.

Os escribas e fariseus eram famosos na época de Jesus por serem exímios cumpridores ipsis litteris da Lei, aqueles que mais conheciam a Lei e que mais fiel e rigidamente a cumpriam. Por isso viviam a condenar o povo, que não era capaz, dado o fardo pesado imposto pelos fariseus, de viver no mesmo nível de obediência que eles. E por isso também as sucessivas tentativas de silenciar Jesus quando o pegam relativizando a Lei, fazendo uma interpretação diferente.

O que Jesus está apresentando, portanto, é uma mudança de ponto de vista: não basta obedecer a Lei, fazer por fazer, não adianta lermos muito ou orarmos muito se isso não provocar mudança interior. É preciso ler e orar diferentemente, como forma de abrirmo-nos à presença divina. E é mais importante salvar uma vida do que obedecer às Escrituras.

Jesus, ao longo de todo o Sermão da Montanha, em que ele por vezes desdiz a Lei – “ouvistes o que foi dito, eu porém vos digo” – a radicaliza. Cumprir toda a Lei tem a ver com integridade, com dispor todo nosso ser a vive-la e, para isso, não basta apenas uma lista de regras do que podemos ou não fazer, é preciso seguir o Espírito da Lei, ou seja, ir aonde ela aponta.

E quando olhamos para a Bíblia – que não é um manual, um conjunto de regras, como os fariseus criam, mas uma coleção de poesias, histórias e críticas à sociedade vigente – percebemos que Lei foi criada com a intenção de instigar o povo ao amor, à justiça, à libertação das/os oprimidas/os e à liberdade.

Cumprir toda a lei, em resumo, é estar em comunhão com o Espírito que a inspirou e vivenciar, no cotidiano, o cuidar da terra, da gente sofrida e lutar por sua libertação.

*

É tentador reduzir a fé e a ética a uma lista de proibições. Há em toda a existência humana uma tensão entre regras (a Lei) e a liberdade. Esta abre portas, caminhos novos, de descobrimento de nós mesmos, de Deus e do mundo, mas é exigente: somos obrigados/as a assumir a responsabilidade pelo que fazemos e deixamos de fazer. As regras, por outro lado, são confortantes, fáceis e nos fazem acreditar que, se as obedecermos, seremos recompensados/as.

Contudo, Jesus nega completamente a ideia de que Deus recompensa a obediência e mostra-nos que “uma ética de conduta regida por proibições é limitada e infantilizante” (BRABO, 2015). O mestre de Nazaré nos convida a ir além da mesquinharia do medo da punição e do desejo da recompensa e abraçar a vida tal como ela é, em liberdade e com maturidade.

Como afirma a Epístola aos Colossenses, as regras do tipo “não faça isso”, “não toque naquilo”, apenas possuem “aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade”.

A mensagem de Jesus aos fariseus de seu tempo e aos fariseus presentes em nossas igrejas hoje é o desarmante reconhecimento de que o caminho largo é cheio de regras e o caminho estreito é a liberdade.

*

Quando aceitamos o convite de seguir Jesus, nos dispusemos a viver uma justiça que excede em muito a dos fariseus, a vivermos como o Filho de Deus, que é, nas palavras de São Paulo, o Novo Adão, aquele que veio restaurar a plena humanidade, nos comprometemos a sermos pessoas maduras e livres como Jesus.

Jesus nos convida a superarmos a religiosidade do medo, da proibição e da regra e descobrirmos a sua espiritualidade leve. Só assim, sendo seres humanos maduros e livres, seremos sal e luz. O mundo precisa de pessoas livres como Jesus, para lhe temperar e iluminar.

Para sermos de fato sal e luz precisamos da contemplação, dos momentos de solitude e silêncio, para nos esvaziarmos de nossos desejos, pensamentos e preocupações e sermos preenchidos/as por Cristo. Através da contemplação, portanto, exploramos as “profundezas de Deus” (1 Co 2,10) e somos levados/as a transformar o mundo com tamanha revelação.

Porém, a vida cristã não é apenas vida contemplativa, é também vida ativa. Iluminados/as pelo amor que é Deus, somos conduzidos/as a denunciarmos as transgressões de nossa sociedade, soltarmos as ligaduras da impiedade, as ataduras da servidão, deixarmos livres os oprimidos, despedaçarmos todo jugo, repartirmos o pão com o faminto, recolhermos em casa os pobres desabrigados, cobrirmos o nu e não nos escondermos do nosso semelhante (Is 58,6-7).

Assim, vivendo como contemplativos/as e ativistas, seguindo o Espírito Libertador na labuta diária pela felicidade humana e da terra, seremos, enfim, sal da terra e luz do mundo.

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Teologia e Mística: Elementos da teologia de Santo Atanásio

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Se tem algo que me encanta na teologia, não são as aulas de anatomia divina, as convicções metafísicas ou o conforto de um deus-funcionário-a-meu-serviço.

O que me faz deslumbrar nesse eterno curso é justamente o fato de tocar — mesmo que muitos ditos teólogos não percebam — a linha mais sensível do ser gente humana. E nisso, os teólogos antigos dão de dez a zero nos atuais. Como disse um deles, Evágrio do Ponto, teólogo é quem ora.

Isso não quer dizer que teólogo é aquela pessoa que mantém crenças supersticiosas, mas que é aquele que as critica justamente por buscar contato profundo com o Real. Teólogos são místicos.

Comecei a ler as entrelinhas (a mística nunca está nas linhas, está sempre além) dos teólogos antigos com mais seriedade através das letras de Santo Atanásio de Alexandria.

No início de seu livro A Encarnação do Verbo, o Pai da Igreja defende, contra a mentalidade grega dominante, que Deus não apenas organizara o que já existia, mas criara o mundo do nada. A nós, pessoas totalmente desconhecidas do mistério, isso parece sem sentido. Contudo, Atanásio reconhecia que Deus é Criador porque ele encontrava seu Ser no mundo. A própria realidade está sustentada em Deus, que é seu fundamento ontológico. Como dirá Paul Tillich quase dois milênios depois, Deus é o chão da existência.

Atanásio relembra continuamente uma afirmação das Escrituras Cristãs: o mundo foi criado por meio do Verbo. Traduzindo, poderíamos dizer que em tudo há a impressão digital, a assinatura de Cristo, porque por meio dele tudo foi criado. O mundo foi criado através do amor incondicional, do dom-de-si e do serviço e manifesta essas características em tudo que existe.

A teologia mística (com o perdão do pleonasmo), convida-nos a abraçar a realidade, a percebê-la com todos os sentidos, para além das elucubrações loucas que o ocidente nos ensinou.

Cobertos/as com a poeira de um novo mundo

The First Two Disciples - John 1:35-42

Prédica para o Segundo Domingo Após a Epifania

 

No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! É este a favor de quem eu disse: após mim vem um varão que tem a primazia, porque já existia antes de mim. Eu mesmo não o conhecia, mas, a fim de que ele fosse manifestado a Israel, vim, por isso, batizando com água.
E João testemunhou, dizendo: Vi o Espírito descer do céu como pomba e pousar sobre ele. Eu não o conhecia; aquele, porém, que me enviou a batizar com água me disse: Aquele sobre quem vires descer e pousar o Espírito, esse é o que batiza com o Espírito Santo. Pois eu, de fato, vi e tenho testificado que ele é o Filho de Deus.
No dia seguinte, estava João outra vez na companhia de dois dos seus discípulos e, vendo Jesus passar, disse: Eis o Cordeiro de Deus!
Os dois discípulos, ouvindo-o dizer isto, seguiram Jesus. E Jesus, voltando-se e vendo que o seguiam, disse-lhes: Que buscais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde assistes?
Respondeu-lhes: Vinde e vede. Foram, pois, e viram onde Jesus estava morando; e ficaram com ele aquele dia, sendo mais ou menos a hora décima.
Era André, o irmão de Simão Pedro, um dos dois que tinham ouvido o testemunho de João e seguido Jesus. Ele achou primeiro o seu próprio irmão, Simão, a quem disse: Achamos o Messias (que quer dizer Cristo), e o levou a Jesus. Olhando Jesus para ele, disse: Tu és Simão, o filho de João; tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro).
João 1,29-42

*

Intróito

O Evangelho de João é o mais tardio que temos em nossas Bíblias e, por isso, reflete uma teologia mais desenvolvida. Diferentemente dos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), nesse evangelho, a narrativa e o simbolismo se misturam.

Isso pode ser percebido com clareza na primeira parte de nosso texto (v. 29-34). Nele, vemos o evangelista utilizando símbolos do Antigo Testamento para revelar ao/à leitor/a quem é Jesus de Nazaré.

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Testemunho

Para entendermos quem é Jesus, precisamos primeiramente entender quem somos nós. Temos que lembrar a história da humanidade.

Os textos bíblicos referentes à criação não nos informam sobre um passado distante, mas têm como objetivo descrever quem somos nós. Quando olhamos para Adão e Eva não vemos os primeiros seres humanos, porque sabemos que não foi assim que surgiu a humanidade. O texto nos revela algo mais profundo, que ciência nenhuma pode desvendar: por que Deus nos criou e quem somos nós.

Fomos criados/as para viver em comunhão com Deus e em harmonia com a criação. Contudo, sabemos que não é assim que vivemos. Por quê? Porque o ser humano se alienou daquilo lhe é mais fundamental, está separado de Deus e de si mesmo. Esse fato fundamental das nossas vidas é o que a teologia cristã deu o nome de “pecado” e significa o não reconhecimento da nossa finitude.

Reparem que a palavra “pecado”, no testemunho de João Batista, aparece no singular. O pecado, embora se manifeste em nossos desejos, ações e omissões, é mais do que isso: é parte de nossa natureza. Pecado é mais do que ação, é estado. Por isso, Santo Agostinho irá chamar essa realidade de pecado original (diferente de inicial).

Por vezes temos medo de falar sobre o pecado, somos receosos, achamos que isso só atrapalha. Porém, é impossível não nos vermos imersos nessa situação negativa à qual o pecado aponta.

Mas graças a Deus a história não acaba aí. Veio o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (v. 29).

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O cordeiro é um símbolo que nos lembra a história do sacrifício de Isaque (Gênesis 22,2.6-9), em que Abraão vê-se solicitado por Deus a sacrificar seu filho amado, prometido por Deus.

Nas religiões da época, o sacrifício de crianças era algo comum. Predominava nessa época a ideia de que a religião é uma troca: sacrifico algo para receber algo de Deus. Ao interromper Abraão, vemos um Deus que não demanda sacrifícios, mas misericórdia.

Espiritualidade saudável não é uma relação de troca com Deus, mas intimidade, comunhão e graça. Deus não necessita de nada nosso, mas doa a si mesmo para restaurar a Criação.

A expressão “Cordeiro de Deus” nos remete também à história do Êxodo. Na primeira Páscoa, o sangue do cordeiro, passado nos umbrais da casa, e a refeição comunitária foram sinais de libertação. Para nós, cristãos e cristãs, Cristo é o Cordeiro Pascal, que doa sua vida para libertar-nos da opressão do pecado, tanto no nível vertical — possibilitando-nos a comunhão com Deus — quanto no nível horizontal — permitindo-nos a superação do pecado social: a injustiça, a violência, a desigualdade.

*

Outro elemento importante no texto para entendermos quem é e o que Jesus faz é a pomba, que sinaliza a descida do Espírito Santo. Isso nos faz lembrar de lá no comecinho das nossas Bíblias, onde lemos que “o Espírito de Deus pairava sobre as águas”.

Os antigos rabinos comentavam que o Espírito chocava o mundo, possibilitando o surgimento da vida. Assim como em Jesu acontece um Novo Êxodo, dá-se uma Nova Criação.

Como diziam os Pais da Igreja, “Deus se fez homem [sic] para que o homem se fizesse Deus.” Através de Jesus Cristo, tornamo-nos, como afirma a Segunda Epístola de São Pedro (1,4), “participantes da natureza divina”.

Fomos criados/as para viver em comunhão com Deus, separados/as dele pelo pecado, mas reconciliados/as através da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Graças à ação salvífica de Deus, podemos novamente desfrutar a beleza da vida.

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Seguimento

Depois de nos mostrar, através de vários símbolos do Antigo Testamento, o evangelho nos apresenta o chamamento dos primeiros discípulos.

Agora o texto nos mostra o que devemos fazer para participar da Nova Criação que surge em Jesus Cristo, para participar do Reino de Deus. O evangelho nos mostra como voltar à nossa essência, à nossa real identidade: através da imitação, do seguimento íntimo de Cristo.

A vida cristã não se resume a uma decisão, a participar de certos rituais, a acreditar em determinadas coisas. Jesus não é nossa passagem para um paraíso de felicidade sem fim. Ele é o caminho que precisamos seguir, para viver em comunhão com Deus e em harmonia com a Criação.

Para sermos quem fomos criados/as para ser, precisamos viver e ver a vida tal como Jesus. Temos que exercitarmo-nos nas mesmas disciplinas que ele: no silêncio, na solitude, no serviço misericordioso aos/às excluídos/as.

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Poeira

Os antigos rabinos tinham um ditado para os discípulos: “cubram-se com a poeira dos pés de seu mestre.” Tudo o que um discípulo desejava era viver como seu mestre, andando sempre o mais próximo dele.

Que cada um e cada uma de nós seja coberto com a poeira dos pés de Jesus.

Entre o cotidiano e a utopia

Um ensaio sobre espiritualidade e política

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O descontentamento com a vida é hoje algo generalizado. As cidades insanas e os trabalhos enclausurados em escritórios sem sentido angustiam a maioria de nós, levando-nos à depressão e a outras doenças.

Como chegamos a uma situação tão deplorável, de destruição do planeta, de estilos de vida baseados no consumo e de trabalhos enlouquecedores? Como encontrar sentido, tranquilidade e harmonia em nossas vidas? Essas questões, centrais a nosso tempo, assim como a pobreza que assola a milhões, são problemas ao mesmo tempo políticos e espirituais.

Não é possível sair da crise ética — referente ao nosso estilo de vida — e econômica — referente à nossa forma de produzir os itens necessários à vida — que vivenciamos sem o redescobrimento da política como a busca pelo bem comum ou o fim último do ser humano — como em Aristóteles — e da espiritualidade, isto é, a capacidade de introspecção, de viver em harmonia com a Verdade mais profunda.

Acontece, porém, que temos uma degeneração da política, tornada em fisiologismo e busca de autopromoção (o que, por definição, é uma antipolítica, visto que política é a busca pelo bem comum); e da espiritualidade, transformada em individualismo e autoajuda (mais uma vez, uma contradição, dado que espiritualidade é a superação do ego em favor do Outro).

Como podemos, então, descobrir o real significado, na prática, de política e espiritualidade?

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Antes de tudo, porém, reconheçamos que política e espiritualidade formam apenas uma distinção didática da vida, que quando saudavelmente experimentada, é indivisa. Não é possível ser político sem ser espiritual e vice-versa. A luta constante pela justiça (política) brota de um desejo profundo, escondido em todo ser humano (espiritualidade).

Isso, é claro, não exclui pessoas irreligiosas da categoria do bem viver e da política, porque é possível ser espiritual sem ser religioso.

Se a indistinguibilidade prática de política e espiritualidade exclui religiosos apolíticos é uma questão mais complicada. Ser apolítico é uma posição política porque tudo é política, tudo envolve um jogo de forças. Porém, ser apolítico, no sentido de não se importar com este mundo, num ascetismo barato, é uma postura anti-espiritual, porque a espiritualidade não é a negação do mundo, mas a comunhão com o Transcendente para melhor viver no mundo.

Voltando à questão de como pensar a prática político-espiritual em nossa América Latina no nosso século, creio que os três elementos apresentados por Julio de Santa Ana, ao falar do convite feito pela Sabedoria divina à resistir a opressão, podem nos ajudar. Esses três elementos são: metanoia, enlace orgânico e intercâmbio.

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O primeiro passo é desenvolver uma nova consciência ética, ou seja, a metanoia. Essa palavra grega, utilizada para designar conversão no Novo Testamento, significa literalmente uma expansão de consciência. O primeiro passo para viver integralmente, reconhecendo o entrelaçamento entre política e espiritualidade, é romper com o antigo estilo de vida, de reprodução mimética do estilo de vida baseado no consumo.

Deve-se, paradoxalmente, romper com o individualismo de nossa sociedade, reconhecendo que o Outro é digno dos mesmos direitos que eu, ao descobrir-se um ser humano único, desenvolvendo autenticidade, sendo quem se é, em vez de ser quem dizem que deve ser.

Em segundo lugar, deve-se viver no que Julio de Santa Ana chama de comunidade de partilha (enlace orgânico), ou seja, comunidades de resistência à dominação física e psicológica a que estamos sujeitos. Não é possível resistir sozinho. Andar sozinho só é possível no “sonho americano” (sic) e mesmo assim, não passa de uma falsa individualidade, já que por mais que o estilo de vida capitalista apenas proponha o individualismo, todos os seus súditos soam e aparentam iguais.

Por fim, e de central importância, é preciso criar redes com outras comunidades (intercâmbio). Como aponta Emanuel Lévinas, todo ser humano tem o desejo pelo infinito (espiritualidade), que se realiza, embora nunca totalmente, na abertura ao Outro (política). É necessário romper a lógica capitalista da relação Eu-Isso (relação com objeto) e redescobrir o outro como Tu (como sujeito), como nos ensina Martin Buber.

Para que um grupo não se fetichize, não se totalize, e continue alimentando sua espiritualidade, ou seja, seu desejo pelo infinito, ele precisa constantemente abrir-se àqueles que estão do lado de fora. Por isso, toda religião, quando fecha-se sobre si mesma, sem dialogar com as outras, condena sua mística ao esquecimento, ao passado.

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Redescobrindo-se um estilo de vida mais profundo, ciente de sua própria dignidade como ser humano, em contato com o Sagrado, e da necessidade do Outro para o bem viver, reconheceremos que política e espiritualidade andam sempre de mãos dadas e que qualquer separação diminui a vitalidade de cada um e cada uma de nós.

O novo falando dentro da gente

Prédica para o Ano Novo

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Eclesiastes 3,1-13

1 Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu:
2 há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou;
3 tempo de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar;
4 tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria;
5 tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar;
6 tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora;
7 tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar;
8 tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz.
9 Que proveito tem o trabalhador naquilo com que se afadiga?
10 Vi o trabalho que Deus impôs aos filhos dos homens, para com ele os afligir.
11 Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim.
12 Sei que nada há melhor para o homem do que regozijar-se e levar vida regalada;
13 e também que é dom de Deus que possa o homem comer, beber e desfrutar o bem de todo o seu trabalho.

*

Resoluções de ano novo

Um ano começa. Estamos diante de uma tela em branco prestes a ser pintada como desejarmos. É comum, nessa época, estabelecermos metas para o novo ano, para o que faremos e compraremos. Contudo, a maioria desses objetivos e hábitos que nos comprometemos a buscar são logo abandonados.

Por que nossas resoluções não dão certo? Talvez porque estejamos olhando para nossa vida de uma maneira negativa. Buscamos, acima de tudo, ter e ser mais. Queremos sempre mais, um cargo mais alto, um carro mais novo, uma casa maior, etc. Estamos entulhados pela perniciosa lógica do crescimento infinito. Com isso, acabamos por postergar a nossa felicidade. “Serei feliz assim que…”, pensamos.

Poderíamos criticar toda a ideia de resoluções de ano novo como uma superstição. Como se a mudança de ano magicamente pudesse nos fazer pessoas melhores. Porém, o ano novo é um bom tempo para desintoxicar, repensar a nossa vida, deixar o que é supérfluo para trás e redescobrir o essencial.

*

Um caminho alternativo

Como podemos, então, pensar a nossa vida de uma maneira mais saudável? Como fazer esse detox da alma? O livro de Eclesiastes nos apresenta um caminho alternativo.

Segundo Eugene Peterson, pastor e escritor estadunidense,

Eclesiastes faz uma limpeza geral na nossa alma, removendo a espiritualidade ‘habitual’ — aí, sim, estamos prontos para a visitação de Deus, revelada em Jesus Cristo. Eclesiastes é um livro que lembra João Batista. Funciona não como uma refeição, mas como um banho. Não é alimento; é limpeza. É arrependimento. É expiação. Lemos Eclesiastes para nos lavar e ficar limpos da ilusão, das opiniões, das ideias idólatras e dos sentimentos que causam revolta. Consiste na exposição e rejeição da expectativa arrogante e equivocada de que podemos viver nossa vida por nós mesmos.

No primeiro versículo do nosso texto, o Coélet — o homem da assembleia — afirma que “há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu.” Essas duas palavras, “momento” e “tempo”, embora algumas traduções apresentem apenas a palavra “tempo”, são diferentes no original. Quando elas foram levadas para o grego, foram traduzidas como “kairós” e “chronos”, respectivamente — palavras que talvez vocês já conheçam. Enquanto o tempo, o chronos, é o tempo no sentido cronológico, que repete-se ritmicamente e incessantemente; o kairós é o tempo num sentido qualitativo, é o tempo certo em que algo acontece.

O capítulo 3 de Eclesiastes, portanto, começa afirmando a necessidade de vivermos plenamente presentes no momento presente.

Tiago 4,13-14 traz esse tema ao afirmar:

E agora, vós os que dizeis: ‘Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, passaremos ali um ano, negociando e obtendo bons lucros.’ E, no entanto, não sabeis nem mesmo o que será da vossa vida amanhã! Com efeito, não passais de vapor que se vê por alguns instantes e depois logo se desfaz.

Esses versículos de Tiago têm muito em comum com o livro de Eclesiastes. A afirmação central do Coélet é justamente que tudo é vapor — vocês provavelmente conhecem a afirmação “tudo é vaidade”, encontrada no princípio deste livro; porém, essa palavra comumente traduzida como “vaidade”, “havel” no hebraico, significa vapor —, efêmero, transitório e, portanto, precisamos viver com atenção plena ao momento presente.

Os romanos costumavam dizer “memento mori”, ou seja, “lembre-se que irá morrer”. Apesar dessa afirmação ser estranha para nós hoje, ela contém uma sabedoria fundamental. É a partir da ciência da fragilidade da vida, do fato de que em breve estaremos mortos, que podemos relativizar nossa vida, eliminar tudo que nos faz infelizes — como, por exemplo, vivermos direcionados não pelo nosso desejo mais profundo, mas seguindo as aspirações de nossa sociedade — e focarmos no que é realmente importante.

Essa é a mensagem fundamental de Eclesiastes e que é também essencial para refletirmos neste novo ano: viver totalmente presentes no momento presente, certos de que tudo é vapor.

Para vivermos essa verdade, é necessário redescobrirmos as virtudes da simplicidade e da gratuidade.

Nos versículos 12 e 13, o Coélet diz:

E compreendi que não há felicidade para ele [o ser humano] a não ser no prazer e no bem-estar durante sua vida. E, que o homem coma e beba, desfrutando do produto de todo o seu trabalho, é dom de Deus.

Ou seja, para vivermos um ano novo abençoado, é preciso não o esforço para desenvolver novos hábitos — por mais que sejam importantes — mas novos olhos: aceitar a gratuidade da vida e viver com simplicidade, contentando-nos e satisfazendo-nos com as pequenas tarefas e maravilhas do dia a dia. É preciso, como disse o Rubem Alves, nascermos de novo a cada momento, sermos crianças, sempre encantados com o que se apresenta à nossa frente.

*

Carlos Drummond de Andrade, em seu famoso poema “Receita de Ano Novo”, escreveu:

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

O meu desejo é que eu e você possamos dar ouvido ao Novo falando dentro da gente e que assim, 2017 se revele um ano cheio de surpresas e pleno da presença daquele que é Mistério e não cansa de nos encantar.