A morte subterrânea

A morte está na minha cara. A respiração dela me asfixia. Estamos no subsolo de meu prédio. A porta ao lado se abre, aparece uma fresta de luz. Não deixamos de nos encarar.

Chegamos aqui era de manhã. Agora, já é noite. Passamos o dia inteiro assim, um olhando a face do outro sem dizer palavra.

Eu estava indo ao trabalho quando a encontrei me esperando na frente do carro. Desde então, não abri a boca. Não precisava perguntar quem era. Quando se encontra a morte, não há dúvidas de quem ela seja.

Sinceramente, não faz muita diferença tê-la encontrado aqui. A vida se tornou sem graça. Trabalho, assisto TV, finjo me divertir com livros bobos e saio com pessoas que pensam como eu fingindo que discutimos.

Talvez ela esteja comigo o tempo todo. Só a percebi agora. Mas que ruptura acontecera na minha vida para que eu a enxergasse?

Nada. A insalubridade da existência chegou à rotação máxima. A vida se torna insuportável depois de tanto tempo vivendo sem existir. A única coisa que ainda tem sentido é a morte.

Sou como todos os outros. Não sou um ser extraordinário.

Pela primeira vez, olho para o lado. A vizinha está na frente do seu carro, encarando a própria morte.

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