A morte subterrânea 2

Nota: caso você não tenha lido a primeira morte subterrânea, clique aqui.

Diante da situação social, econômica e política do mundo, parece-me haver uma ansiedade que atinge a todos indiscriminadamente. A preocupação com o futuro da economia e da sociedade nos abala profundamente e tudo aquilo que nos dava suporte foi destruído.

Por isso, ouso dizer que a marca principal de nosso tempo é a angústia. Nos sentimos sufocados pelo capitalismo e a modernidade nos atormenta. Mais do que isso, a angústia é um medo que não sabe o que teme. Sentimo-nos esganados, mas não sabemos exatamente por quê.

Parece que vivemos uma constante morte. Tudo se tornou morte e tudo nos mata. É óbvio que a morte sempre foi onipresente. Freud já deixou isso claro ao tratar da pulsão de morte. Mas a modernidade é o acelerador da humanidade. Ao colocar a produção e a vida num passo acelerado, ela inevitavelmente também acelera a morte.

O trabalho, a mais banal das ações humanas, é instrumento de morte, pois só existe através da desvalorização e da desumanização do trabalhador. Este não tem condições para se exteriorizar, é escravo do capitalismo (cf. Enrique Dussel). E não se expor ao mundo é sinônimo de morte (cf. Emmanuel Lévinas e Martin Buber). O capitalismo busca amenizar a situação através de pseudo-exteriorizações, mas elas não eliminam o problema. Conforme Karl Marx, o trabalho é a causa e a consequência da angústia moderna.

Paul Ricouer, em Finitude e Culpabilidade, afirma que há uma desproporção e contradição entre o infinito da vontade e o finito da inteligência — uma situação de miséria patética. Não é essa a condição humana, mas levada à rotação máxima pelo capitalismo? Isto é, o capitalismo promete ter inteligência infinita para suprir desejos infinitos. O irônico é que a civilização é a repressão dos instintos humanos, como mostrou Freud em O mal-estar na civilização. O capitalismo promete o contrário do que cumpre.

A saída provavelmente é o reconhecimento da impermanência humana: somos nada, não podemos conter o infinito.

Diante da angústia onipresente, me questiono: o que o futuro nos guarda? Ou além: será que há um futuro à frente? Talvez a morte esteja na nossa cara, somos asfixiados por ela, mas resistimos, queremos enterrá-la. O problema é que é impossível fazê-la parar.

Talvez tudo esteja prestes a explodir, mas será que isso não é algo a ser comemorado? Não é o nosso fim algo a ser abraçado com gozo? Mesmo que a morte que se esconde no subterrâneo da consciência e da sociedade seja vencida hoje, um dia ela voltará e não será possível vencê-la.

Nesse contexto embriagado de mal-estar, renascem o fascismo, o fundamentalismo e o reacionarismo. A incerteza é grande. O Sol não é suficiente para iluminar a existência humana. As pessoas demandam certezas.

O problema aparece quando a necessidade de objetivos nos levam a abandonar a dúvida, o bem mais precioso que a modernidade nos deu. Não devemos criar um passado idealizado nem sacralizar um grupo — o erro dos reacionários e dos fascistas, respectivamente. É preciso achar uma solução nova e que inclua a todas e todos.

Não faço a menor ideia de como sair do labirinto em que estamos nem de como enfrentar o minotauro que nos aguarda. Porém, é possível questionar: quais certezas podemos ter, isto é, como construir vida no mundo atual? E como manter a sanidade apesar das incertezas?

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