A profissão que ninguém tinha

João Bortolotto era, nas palavras de seus amigos, um preguiçoso. Não trabalhava e não estudava. Todos que o conheciam achavam isso estranho e logo lhe perguntavam:

— O que você faz na vida?

— Eu inventei minha própria profissão. Faço aquilo que ninguém faz.

— Tá — respondiam as pessoas, surpresas com sua resposta — Mas e como você consegue dinheiro para se sustentar?

— Acho que isso não importa. O que importa é que vivo e vivo bem.

*

A maior paixão de João Bortolotto era escrever e ele conseguia um bom dinheiro com isso. João vendia muito, seus livros eram muito bem recebidos, mas não era famoso porque publicava com pseudônimos.

Um escritor admirado escreve muito, ainda mais se tem vários nomes para zelar, mas João era diferente. Ele escrevia pouco. As vezes escrevia uma palavra que cria ser o suficiente e só voltava a escrever horas depois.

Seus leitores se incomodavam com isso e frequentemente lhe escreviam cartas, implorando para escrever mais e dando dicas de como ser mais produtivo. João ignorava. Para ele, o que valia não era escrever muito, mas escrever textos profundamente belos.

*

Após anos vivendo como ninguém vivera, escrevendo verdadeiras obras de arte sem receber crédito algum, João Bortolotto morreu em 3 de fevereiro de 1715, aos 85 anos.

As poucas pessoas que conheceram João, o consideravam fora do comum e inspirador, mas não conseguiam entender sua vida. Ele desdenhava do modo como as pessoas viviam e dizia que o certo era cada um inventar seu próprio caminho.

Depois de sua morte, as pessoas questionavam, estupefatas: como João Bortolotto conseguia ser tão feliz sem fazer nada de relevante, sem nunca ter contribuído com algo? Morreu solitário e mal entendido.

Mas isso nunca importou para João e nem para o mundo. Ele não se preocupava em aparecer, mas através de sua arte transformou o mundo, inspirou pessoas e criou beleza.

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