Conversa com a morte

Memória póstuma de Antonin Furoa

Na cadeira preta do meu escritório está sentada a morte. Felizmente, ela já não me aterroriza mais. Acostumei-me com sua presença.

Em sua voz calma e convicta, a morte me chama.

Confesso que nunca levei minha inexistência a sério. O que aconteceria se eu morresse agora? O problema é olhar para trás e ver que eu sequer vivi. Um presente tão grande, desperdiçado.

E ainda perceber que fui um hipócrita. Onde estava a pessoa que se pensava livre e verdadeiramente viva? Vivi até agora acreditando no reverso da verdade. Cria ser diferente, mas era igual a todos.

Ah! Meu narcisismo e mítica superioridade…

Na minha juventude, eu não me contentava com aquilo que os outros diziam que deveria ser feito. E me julgava incrivelmente superior por isso. Tentei então ser intelectual e, como tal, era um ignorante metido a sábio.

Insatisfeito também com a vida acadêmica, migrei para as artes. Mas o desejo de ser reconhecido sugava minha vida. Quis fazer arte do tipo que tudo mundo faz e não faz sentido para ninguém.

Diante da morte meus erros já não importam. Sou livre para aceitar o absurdo. Diante do nada, reconheço que tudo que eu faço é zero. Logo morrerei, logo o universo morrerá, logo o tempo acabará e tudo que irá restar será o vazio.

Por um tempo fui tolo, agora nem sou.

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