Como viver bem?

Não é difícil perceber que vivemos mal. Temos um estilo de vida autodestrutivo e não conseguimos enxergar a beleza da vida.

Por que isso acontece? O que nos perturba? Talvez esses problemas podem ser resumidos no fato de que não sabemos como viver.

Trilhe seu próprio caminho

Antes de falar qualquer coisa, é preciso lembrar que aquilo que funciona para mim, pode não funcionar para você. Isso acontece porque cada um tem sua bagagem de emoções, experiências e conhecimentos.

O que escrevo aqui é uma tentativa de apontar caminhos e ideias que me fizeram viver melhor. Se isso funcionará ou não, só você poderá dizer. Todo modo de ser e pensar é válido, desde que se seja e se pense.

A condição humana

Viver bem inclui entender nossa condição. Vivemos em um planeta minúsculo, num pequeno ponto do universo, resultado de uma explosão ocorrida há 13 bilhões de anos. Ou seja, somos nada diante da imensidão do universo.

Nascemos em uma determinada sociedade e somos moldados por ela, através da linguagem e da cultura. Não conseguimos viver sozinhos.

Nossa identidade está em constante mudança, num processo infindável de autoatualização, de se recriar e de repensar nosso lugar no mundo. Estamos sempre em movimento.

A condição humana é complexa. Mais do que indivíduos, somos parte de uma sociedade e de um ecossistema. Todos esses aspectos estão interligados, de forma que nossa personalidade existe apenas no constante diálogo com outras pessoas, com a sociedade e com o cosmos.

A morte como doadora de sentido

Uma dica ótima para se aprender a viver bem é relembrar constantemente que iremos morrer.

Pensar sobre nossa iminente morte, isto é, sobre nossa finitude e impermanência, pode nos ajudar a encontrar o sentido de nossas vidas.

Meditando sobre a morte, somos obrigados a fazer aquela pergunta perturbadora: o que temos feito com nossas vidas? Estamos preocupados em ganhar dinheiro para comprar coisas que logo deixarão de existir ou aproveitar a beleza simples da vida?

Receita: medite diariamente sobre a morte. Lembre-se que você, tudo e todos que você ama um dia se extinguirão.

Não se satisfaça, busque o inefável

O ser humano tem um desejo pelo infinito, um buraco em si que não pode ser preenchido por nada. Essa insatisfação é algo positivo, é a base de todo nosso desenvolvimento e das melhores experiências da vida. O infinito é nosso combustível. O problema é tentar preencher esse buraco com algo, seja religião, objetos ou pessoas.

Muita gente busca respostas para seus problemas e constantemente se decepcionam. Pensam que serão felizes quando conseguirem determinado emprego, ter um relacionamento com determinada pessoa, comprar determinado objeto ou responder determinada questão. Porém, não há respostas, não há nada que irá nos satisfazer plenamente. É preciso aceitar e abraçar esse fato. Quando passamos a fazer isso, a vida se torna muito melhor.

Nós, seres humanos, que existimos hoje e logo seremos nada, não temos capacidade de apreender o infinito. Podemos até ser tocados por ele, mas não somos capazes de contê-lo ou explicá-lo. A arte, os poemas, os símbolos religiosos, a meditação e o silêncio apontam para o infinito, mas não podem contê-lo ou mostrá-lo a você.

Existem coisas que não cabem na pequena razão humana e que, por isso, não podem ser traduzidas em palavras. Por isso, para viver bem abra-se ao inefável: silencie-se, contemple e descanse. O resultado é surpreendente. O mundo se torna mágico e a alegria, constante.

Epicuro e a felicidade

O principal trabalho do filósofo grego Epicuro era descobrir como ser feliz.

Pensando e experimentando diversas coisas, Epicuro afirmou que, para sermos felizes, não precisamos de relacionamentos românticos, de status profissional ou de luxo. Na verdade, Epicuro descobriu que essas coisas mais nos atrapalham do que ajudam.

O filósofo grego concluiu que o que precisamos é de calma e tranquilidade. Para isso, devemos viver junto de nossos amigos; não trabalhar para os outros, mas fazer aquilo que nos agrada (mesmo que isso signifique ganhar menos); e usar nosso tempo refletindo em questões importantes.

Epicuro criou uma comunidade na qual esses princípios eram praticados e deu tão certo, que esse tipo de comunidade se espalhou rapidamente pelo Mediterrâneo.

Viva além da utilidade

O filósofo Gilles Deleuze e o psicanalista Félix Guattari afirmaram que, no capitalismo, nosso corpo foi transformado em máquina que trabalha para a produção capitalista e que nossos desejos foram canalizados para aquilo que o capitalismo crê ser útil.

Contrapondo-se a isso, eles afirmaram que devemos ser “corpo sem órgãos”, isto é, ir além da utilidade. Quando fazemos isso, o corpo busca intensidade, se torna um conjunto de sensações, o mundo flui e lhe afeta. Corpo sem órgãos não é um conceito dogmaticamente definido, antes é uma prática de rebeldia contra a instrumentalização do corpo.

Isso nos ensina a ir além da racionalização e maquinização de tudo, aceitando o absurdo, a assimetria de nossos pensamentos e as nossas dúvidas.

Como viver junto?

Não basta apenas pensar sobre o que é a nossa vida como indivíduos. Nós só existimos como seres humanos enquanto nos relacionamos com o mundo e com outros seres humanos. Portanto, além de saber como viver, precisamos questionar: como viver junto?

Em vez de descrever esse tema minunciosamente, farei apenas alguns breves apontamentos. Creio que muito do que descrevi acima deve ser aplicado à vida em sociedade.

Mais do que tudo, precisamos reconhecer nossa finitude, sabendo que não somos detentores da Verdade Última, mas seres que só são humanos enquanto abrem-se para o Desconhecido.

As duas palavras mais importantes para se viver bem junto são alteridade e empatia. Precisamos reconhecer o outro como ser humano tão valioso como nós, e nos abrir a ele, aprendendo e quebrando preconceitos. Como disse a Marcia Tiburi, “aquele que não reconhece a alteridade está morto”. Enquanto nos fecharmos em nós mesmos, o preconceito e a maldade continuarão reinando.

Para viver bem e viver junto é preciso ir além de nós mesmos, sair do narcisismo da “nossa” vida e dos “nossos” problemas. Ao reconhecermos que o outro é um ser tão importante e profundo quanto nós mesmos, vemos que nossos problemas não são os únicos do mundo e, provavelmente, são até pequenos perto dos sofrimentos dos outros.

Edgar Morin, em seu livro A Cabeça Bem-Feita, nos ajuda a pensar isso ao dizer que

Todo indivíduo, mesmo o mais confinado na mais banal das vidas, constitui, em si mesmo, um cosmo. […] A compreensão humana nos chega quando sentimos e concebemos os humanos como sujeitos; ela nos torna abertos a seus sofrimentos e suas alegrias. Permite-nos reconhecer no outro os mecanismos egocêntricos de autojustificação, que estão em nós.

Para desenvolver empatia, além de aprender a ouvir o outro, a arte pode nos ajudar muito. Edgar Morin continua:

Nessa vida comum, percebemos os outros apenas de forma exterior, ao passo que na tela e nas páginas do livro eles nos surgem em todas as suas dimensões, subjetivas e objetivas.

[…] Podemos compreender daí que não se deve reduzir um ser à mínima parcela de si mesmo, nem à parcela ruim de seu passado. Enquanto na vida comum apressamo-nos em qualificar de criminoso aquele que cometeu um crime, reduzindo todos os outros aspectos de sua vida e de sua pessoa a esse único traço, descobrimos, em seus múltiplos aspectos, os reis gangsters de Shakespeare e os gangsters reis dos films noirs. Podemos ver como um criminoso pode transformar-se, redimir-se, como Jean Valgean e Raskolnikov. O que sente repugnância pelo vagabundo que encontra na rua simpatiza de todo o coração com o vagabundo Carlitos, no cinema. Enquanto, na vida quotidiana, somos quase indiferentes às misérias físicas e morais, sentimos a comiseração, a piedade e a bondade, ao 1er um romance ou ver um filme.

Enfim, podemos aprender as maiores lições da vida: a compaixão pelo sofrimento de todos os humilhados e a verdadeira compreensão.

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