Para além do humano

Um posicionamento filosófico, poético e político

Nós, seres humanos ocidentais e capitalistas, só sabemos pensar em nós mesmos. Tudo que fazemos é apenas para o nosso benefício. Em uma palavra, somos antropocêntricos. E esse ponto de vista invade todas as áreas do indivíduo e da sociedade. Construímos uma economia que só leva em conta os desejos da humanidade — de uma pequena elite humana, devo acrescentar –; uma religião que tem como alvo salvar seres humanos; e nos pensamos o suprassumo de toda a natureza, superiores às árvores e aos animais.

É claro que só podemos enxergar o mundo através de nossos olhos humanos. Nós não temos acesso à realidade em si, vemos tudo mediado pela nossa subjetividade (linguagem, cultura, religião, traumas, etc.). Mas fomos longe de mais.

Prova disso é que estamos destruindo o planeta. Em nosso ideal antropocêntrico, criamos o capitalismo, a forja universal que invadiu cada centímetro deste planeta e além. Graças a esse sistema econômico, levamos a Terra a uma nova época geológica: o antropoceno, uma era na qual as mudanças do planeta são geradas pela atividade humana; um feito inédito, mas não menos lamentável. Essas mudanças fazem do planeta uma casa cada vez menos acolhedora.

Foto de S. Zuther, retirado de phys.org

Sejamos mais humildes, desumanizemos o conhecimento e reconheçamos que somos apenas parte de um universo infinito.

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O poeta estadunidense Robinson Jeffers, ciente desse problema, cunhou o termo “inhumanism”. Ele acreditava que a humanidade estava tão centrada em si que perdera de vista a beleza do mundo.

Abstratos demais, sábios demais,

É tempo, para nós, de beijar novamente a terra,

É tempo de deixar que chovam desde o céu as folhas,

De deixar a rica vida correr para as raízes novamente. (Retorno)

Isso me lembra da incrível sabedoria dos índios yanomamis, que dizem que nós, ocidentais, somos tão autocentrados que não conseguimos sonhar com algo que não seja nós mesmos. Esse mesmo povo fala de uma doença chamada “xawara”, a epidemia do metal que destrói as pessoas e o mundo.

Jeffers afirmava que o ser humano é parte da natureza, não um intruso ou um dominador, e que a humanidade seria mais feliz se devotasse menos atenção e paixão a si mesma e mais para a natureza não-humana.

Nós construímos nossa identidade no diálogo com as outras pessoas, com as ferramentas que criamos e com a própria natureza. É nessa relação de abertura e respeito que nos tornamos humanos. Uma pessoa que não se abre a outras é fascista, uma pessoa que não cria nem se deixa (re)criar pelos instrumentos que faz não pode viver em sociedade e uma pessoa que não se entrega à natureza é suicida.

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Precisamos pensar novas possibilidades de se relacionar com a natureza e de viver em sociedade. Podemos começar isso nutrindo a contemplação da natureza. Silenciar-se diante das maravilhas do mundo, sem tentar explicá-lo, isto é, sem submetê-lo à nossa vontade, parece-me ser um ótimo começo.

Sound of Bamboos in the Skew Wind and Heavy Shower, 2006

Também é necessário repensar o modo como nos relacionamos com a realidade e o modo como construímos o conhecimento. É claro que não dá para sair de nossa perspectiva, mas podemos e devemos considerar em nossas investigações o lugar no qual estamos. O pluralismo ontológico — uma linha filosófica da qual pretendo falar em breve — pode ser uma boa forma de levar isso à frente, pois ele nos abre à riqueza da experiência humana e não-humana e garante um modo de vida antitotalitário.

Por fim, precisamos repensar o modo como nos organizamos para viver junto, pois isso tem consequências inevitáveis no planeta. É necessário abrir mão do capitalismo, pois ele é inerentemente destruidor da natureza e da própria humanidade, desejando crescimento infinito e beneficiando apenas uma minoria.

Ouso dizer que no século 21 o capitalismo irá morrer. Se a humanidade morrerá junto será escolha nossa. Temos que decidir entre o capitalismo e vida. Não dá para escolher os dois. Escolhamos a vida, construindo uma política que garanta os direitos de todos os seres humanos, e deixe espaço para as outras formas de vida.

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