Sensibilidade

José era um homem comum. Toda sua vida se resumia a trabalhar e jamais se sentira maravilhado diante da existência. Era um homem religioso, ainda em busca de Deus. A religião era o único refúgio para sua vida despida de sentido.

Por causa de seu trabalho, José havia viajado para um lugar remoto. Sua hospedagem era em uma calma pousada em meio a árvores e flores. Logo ao chegar, preocupado com o que aconteceria nas próximas reuniões, deixou sua mala num canto e sentou-se numa misteriosa sala vazia.

Depois de anos buscando encontrar-se com Deus, já perdera a esperança de ter uma experiência religiosa. Deus lhe parecia distante e com voz inaudível. Viver lhe parecia intolerável. Cansado, sentou-se no chão sem se preocupar com o tempo.

No vazio da sala, José percebeu-se envolvido por um vento. E nesse momento, descobriu os mistérios do universo. Sentiu em sua alma a profundidade da existência. Percebeu, enfim, a beleza divina.

Após momentos de silêncio, diante de tão grande maravilha, José viu um gato branco na janela da sala. Sorriu para ele. Nunca gostara de gatos, mas aquele lhe parecia estranhamente belo.

***

Num outro ponto do universo, Maria ousava ser uma pessoa interessante. Recusara o desejo de seus pais de ser advogada e decidiu ser pintora. Porém, ela ainda não havia desenvolvido a sensibilidade para as coisas belas. Seus quadros não tocavam ninguém e por isso vendiam muito pouco. Ela vivia sustentada pela irmã, que não tinha uma situação financeira estável.

Maria estava diante de uma tela vazia, buscando inspiração para pintar. Frustrada, jogou-se numa cadeira e pôs-se a olhar pela janela. Viu passar pela esquina um gato preto. Ele a olhou e Maria sentiu a textura da vida. Em êxtase, pintou no ar todos os quadros possíveis. E com sua alma, abraçou o infinito.

***

Algum tempo depois, numa encruzilhada de uma cidade qualquer, José e Maria se trombaram. Pediram desculpas tímidas, mas ao se olharem nos olhos, sentiram como se se conhecessem desde sempre.

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