O gesto de dançar

Gesto, segundo o filósofo Giorgo Agamben, é um meio sem fim. Ou seja, o gesto não aponta para nada fora de si, ele torna ele mesmo visível. O gesto é a manifestação daquilo que não pode ser dito na linguagem.

Dançar, portanto, é um gesto e, como tal, é um absurdo. É algo sem sentido, sem metas. Porém, o absurdo é extremamente necessário em nossos dias.

Passamos o tempo todo preocupados em cumprir os nossos deveres e em produzir cada vez mais. Contudo, a vida é mais que tempo cronológico, é também tempo imensurável — kairós — que enche a vida de sentido.

É preciso reaprender a dançar, a sermos simples e leves, despreocupados dos nossos deveres e abraçar com força total o momento presente. Tempus fugit.

O ato de dançar, além de celebrar o inútil, nos leva de volta à dimensão irracional e misteriosa da vida. Nem tudo cabe em palavras. A vida não pode ser engaiolada na razão. Dançar é, antes de tudo, uma ação mística.

O Rubem Alves contava a história de uma menina que vivia saudosa e chorosa pelo pássaro encantado. Não aguentando mais a saudade, ela o prendeu numa gaiola de prata. Mas lá o pássaro murchou, seus olhos se entristeceram e suas cores se apagaram. A menina entendeu que é melhor a saudade encantada à tristeza presente. Ela então abriu a porta da gaiola e o pássaro voou para a saudade crescer.

Talvez devêssemos abrir a porta de nossa razão e deixar a vida fluir, enchendo a existência de uma beleza encantadora.

Nietzsche disse que só podia acreditar num Deus que soubesse dançar. Para Deus ser Deus é preciso que Deus se liberte do peso da gravidade, viva em movimento. Assim devemos ser também, desincomodados com a existência, livres para desafiar a gravidade que nos é imposta.

Viver, ao contrário do que pretendem certos religiosos, é ser corpo. O corpo não é um objeto, é antes o que possibilita a existência dos objetos. Ele é o único ponto de vista possível sobre tudo que existe. O corpo não pode ser reduzido a um conceito, não pode ser analisado anatomicamente. Ele é mais e está em fluxo constante nos convidando a ser mais.

O corpo, Deus e a vida são ótimos dançarinos. Infelizmente desaprendemos a capacidade de dançar. Vivemos presos ao chão, sem capacidade de imaginar, ir além dos passos secos e ser livres.

***

Quando a vida te invade,
com intensidade incapaz
de caber em palavras.

Deus se faz carne
para dançar conosco.
A vida transcende
em sua própria imanência.

Tudo que precisamos está aqui,
nada do que precisamos está aqui.

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