A cidade dos descalços

Ao extremo norte de São Paulo havia um lugar que tive o privilégio de conhecer. Ele era conhecido como “a cidade dos descalços”. Nessa cidade, como o nome nos diz, a existência de sapatos era desconhecida. Até ouviram algumas histórias aterrorizantes sobre pessoas que viviam com os pés apertados e presos, porém nunca descobriram se essa lenda era verdadeira.

O transversal Paulo Brabo, natural de lá, descreveu o lugar:

Na cidade dos descalços tudo foi projetado para o deleite de pés e de olhos humanos: as distâncias entre um lugar e outro, a largura das vias, a oferta de lojas e serviços, a gentil curvatura das ruas, a perspectiva dos arcos, o abrigo das colunatas, a disposição de praças e igrejas e monumentos. Tudo pode ser percorrido a pé e para ser percorrido a pé foi concebido; tudo que leva o nome de humano divide sem competição o mesmo espaço vital: comerciantes e residências, artesãos e serviços públicos, mercados e igrejas, escolas e museus, restaurantes e fontes de água. Praticamente não há lugar para estacionar porque, naturalmente, ninguém previu e ninguém deveria ter de prever um espaço que não seja para gente.

Uma das coisas que mais admirei naquele local foi seu modo de vida. As pessoas não perdiam tempo com ideias desnecessárias e não tentavam jamais dissecar o divino. Tinham uma fé pé no chão, encarnada e empoeirada. Com os pés descalços, desenvolviam um profundo relacionamento com a terra e a respeitavam sobremaneira.

Na cidade dos descalços, tudo era espiritual. As pessoas não viviam a trabalhar pois criam que o ser humano e a natureza são manifestações divinas e que trabalhar demais era desfigurar a imagem de Deus. À semelhança dos pés livres, não havia bancos na cidade. As pessoas sentavam-se no chão e passavam horas a prosear debaixo de uma árvore, sem se preocupar com o tempo.

Embora a impressão gerada tenha sido forte, não me lembro de mais nada. Desde que conheci a cidade dos descalços, vivo preso à saudade, com desejo de rever aquilo que só existe nos sonhos, se preparando para invadir a terra.

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