Filosofia do corpo

Suponho que este valor em caminhar, no meu caso, é equivalente ao que os outros conseguem indo à igreja e orando. (Henry David Thoreau)

O único modo plausível de se pensar o mundo é a partir da nossa experiência. A vida deve ser a medida do pensamento, e não o pensamento a medida da vida, como diz a máxima da não-filosofia. Para isso, nada melhor e mais relevante do que pensar o lugar do corpo na filosofia.

Merleau-Ponty ensinava que o corpo próprio

só é compreendido na existência, na relação com os outros corpos e […] recusa o tratamento reflexivo, científico, filosófico, que pretende transformá-lo numa ideia, num conceito, posto que novos sentidos surgem na movimentação dos corpos.
[…] O corpo próprio não é ou não pode ser compreendido como um objeto entre os outros posto que o corpo próprio é a ‘possibilidade’ da existência dos objetos. (Wesley Adriano Martins Dourado)

O corpo, ponto de partida de tudo, não pode ser mensurado, só pode ser vivido em intensidade.

Isso é semelhante à ideia de Deleuze e Guatarri de corpo com órgãos e corpo sem órgãos. O corpo com órgãos é aquele que é medido pela sua utilidade e produtividade, tendo seus desejos canalizados pela finalidade e produção. O corpo sem órgãos, ao contrário, é inimigo da instrumentalização, busca intensidade, o mundo flui e lhe afeta, é conjunto de sensações.

O poeta Rainer Maria Rilke ilustra esse pensamento:

Eu não sou um daqueles que negligenciam o corpo, a fim de fazer dele uma oferta sacrificial para a alma, uma vez que minha alma não gostaria de ser servida de tal forma. Todas as subidas da minha mente começam no meu sangue, razão pela qual eu precedo o meu trabalho, com uma maneira pura e simples de vida que é livre de substâncias irritantes e estimulantes, como com um prelúdio introdutório, de modo que eu não possa ser enganado sobre a verdadeira alegria espiritual que consiste em uma concórdia, feliz e, como se transfigurado, com toda a Natureza.

É preciso, talvez mais do que nunca, abandonar o conhecimento cartesiano, limitado à racionalidade teórica. Precisamos, como Thoreau, sair do conhecimento dos fatos para a “simpatia com a Inteligência”, nos tornando “filhos da névoa”.

A sociedade moderna talvez não esteja em crise porque não pensou corretamente a vida, mas porque não vivificou o pensamento. Pensar a partir do corpo, tendo a vida como medida do pensamento, pode nos possibilitar um novo mundo, além das categorizações e divisões que assombram a humanidade.

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