Razão versus Experiência

Desde muito tempo, a humanidade percebeu que seus sentidos poderiam enganar, ou seja, não podemos confiar neles para tudo. Disso resultou uma depreciação da experiência e valorização da razão. Isso foi muito forte até o século passado.

Porém, outro problema apareceu: a razão só existe a partir da experiência e só se concretiza na experiência. Por isso, precisamos desconfiar não só de nossos sentidos, mas também de nossa razão.

Daqui surge uma “multiepistemologia”: a experiência, a razão, a emoção, o corpo, a ciência e a espiritualidade são todas formas válidas de conhecimento, embora nunca contendo a totalidade do mundo e sempre passíveis de erro.

Mas retornemos à questão da razão e da experiência. Creio que a desconfiança da experiência e a valorização da razão decorrem de um erro básico: dicotomizar razão e experiência. Explico-me.

1. Toda experiência envolve a razão. Enquanto experienciamos algo, a razão está presente, independentemente de sua forma de atuação. A mística nos ajuda a perceber isso. Teresa d’Ávila, por exemplo, diz sobre suas experiências religiosas: “O entendimento não discorre, a meu parecer, mas não se perde. Mas, como digo, não opera, antes fica como espantado com o muito que entende.” (Livro da Vida, 10)

2. Todo raciocínio envolve a experiência. Isso se dá pelo fato de que não podemos raciocinar nos abstraindo de nossa experiência de vida, isto é, de nosso passado, de nosso conhecimento, etc. Além disso, a razão envolve a experiência porque acontece dentro dos limites da vida vivida (perdoem-me o pleonasmo), daquilo que experienciamos enquanto raciocinamos. Não há razão fora da experiência, racionalizar é experienciar.

Para finalizar, pensemos numa dialética. A tese é a experiência religiosa, digamos. Esta experiência será racionalizada e gerará sua antítese: a razão dogmática. Disso resultará uma nova forma de experiência religiosa, como síntese. E assim ao infinito.

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