A Ceia e a Trindade

Quando eu era mais novo, visitei com meus pais a casa de uns familiares no Paraná. Nós não tínhamos muito contato, mas a mesa farta logo nos fez amigos. Pelo que me lembro passamos apenas um dia lá.

Mesmo que o tempo que passamos tenha sido curto, o ato de comermos juntos e comermos tão bem, marcou minha memória.

Vincent Van Gogh - Die Kartoffelesser

A comida une as pessoas de maneira profunda. Não é a toa que a palavra “comunhão” quer dizer “comer junto”.

Jesus não educava seus seguidores por meio de discursos, distante e com retórica apurada. Ele comia junto com as pessoas, ensinando-as pela convivência.

Otto Dix - From Das Evangelium nach Matthaeus (Kaethe Vogt Verlag, Berlin: 1960)

A igreja, atenta à ideia de um Deus feito carne, não copiou o culto judaico, focado na prédica, mas centrou-o no partir do pão.

Ser cristão é mais do que assinar embaixo de um conjunto de crenças, é tomar parte na mesa de Cristo, que acolhe todas as pessoas.

A mesa de Jesus convida a humanidade, mostrando seu verdadeiro sentido de ser. Não existimos para possuir bens materiais, mas para viver em relação com o divino e com o outro.

A Eucaristia expressa, em gestos e sabores, que o pão e o vinho deste mundo — o apego às riquezas, ao status — são transitórios e não podem ser o alvo de nossa vida. Apenas o pão vivo descido do céu merece nossa devoção.

Para achegar-se à Mesa de Cristo é necessário, como fez o negociante que vendeu tudo que tinha para adquirir uma bela pérola, abandonar tudo aquilo que a sociedade valoriza e encontrar refúgio no Eterno sem-valor.

Na mesa, Jesus nos revela que Deus não é absolutista, Deus não está voltado sobre si mesmo. Deus é “em si relacional” (nas palavras de Leonardo Boff), é a alteridade que possibilita a nossa existência.

Só conhecemos a Deus na abertura ao Outro, no diálogo e na relação com os outros seres humanos e com o cosmos.

Andrey Rublev

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