Sacrifício

Acima de Campinas era, com profunda calmaria e naturalidade, a cidade de Jaguariúna. As praças eram numerosas e as pessoas eram calmas, como um oásis interiorano no meio da loucura da cidade grande.

Foi lá que Pessoa saiu, numa manhã ventosa e nublada, em direção ao escritório do Doutor Ronaldo. O Doutor era o advogado mais eficaz e bem remunerado da cidade. Era tão procurado que normalmente um cliente aguardava um ano para que pudesse se encontrar com ele. Porém, ao caso de Pessoa fora aberta uma exceção.

O homem baixo, magro e barbudo entrou no escritório vestindo roupas tão simples que as paredes luxuosas se escandalizaram.

Sentado numa bela poltrona à sua frente estava Doutor Ronaldo, gordo, de barba bem feita e com um belíssimo terno. O contraste entre as duas pessoas era como um ying-yang.

— Bom dia, senhor Pessoa — disse o advogado com ar sério e interrogador. Vim ansiosamente para o escritório hoje. Estou bastante curioso com o seu caso.

— Bom dia, Ronaldo — o simples som do nome, sem as honras esperadas, soava áspero; apesar disso, a face de Pessoa era acolhedora — De fato, trata-se de um caso muito simples. Preciso que você prove que eu sou culpado.

A ideia não fora compreendida por Doutor Ronaldo. Porém, sentiu-se atraído pelo caso e pediu a Pessoa que lhe contasse o ocorrido.

*

— Certo homem desejava aquilo que todo mundo diz ser desejável. Para satisfazer seus desejos, decidiu furtar a casa de uma pessoa rica. Na fuga, porém, a guarda percebeu algo estranho e começou a persegui-lo com cavalos. Vendo que não conseguiria ir longe, decidiu entrar na minha casa. Ele estava fora de controle. Me chantageou e me ameaçou.

Pessoa fez uma pausa para que Ronaldo pudesse assimilar bem a história. Com um assentimento do advogado, continuou:

— A angústia nos olhos daquele homem tocou-me profundamente. Como eu não tinha nada a perder, decidi que não iria denunciá-lo. Disse a ele que eu sairia de casa, o deixaria lá e me apresentaria à polícia confessando o crime. É claro que o homem não me entendeu. Eu o visitei depois. Ficou apreensivo ao me ver, pensou que eu estava com a polícia. Disse que estava sozinho e pedi que ele ficasse na casa até tudo se resolvesse. O criminoso perguntou por que eu estava fazendo aquilo. Disse-lhe que estava fazendo isso para que ele se libertasse do veneno que o estava matando: o desejo. Assim fui embora e vim para cá.

O advogado sentia-se num estranho sonho. Como era possível que alguém queira ser culpado, ainda mais de um crime que não cometeu? Pessoa era tolo ou santo. Ou os dois. Impulsionado por algo que posteriormente Doutor Ronaldo chamaria de Deus, aceitou o caso de Pessoa.

— Você já foi à polícia confessar o crime? — perguntou o advogado.

— Já. Eles não acreditaram, pois tenho fama de homem simples, que não sai da igreja. Por isso vim pedir a sua ajuda.

Doutor Ronaldo pensou por um momento. Por fim, categorizou:

— A juíza estará no tribunal amanhã às onze. Esteja lá e leve um dos bens roubados com você.

Eles apertaram as mãos e cada um foi para seu canto. Naquela noite, enquanto o criminoso dormia na cama de Pessoa, refletindo no acontecido, este dormia no mato.

*

Às onze horas do outro dia, Pessoa entrou no tribunal enquanto tudo era preparado para um julgamento. Ao que foi recebido com um berro:

— Aí está, ilustres senhores, o bandido que assaltou nosso companheiro.

Era a voz do Doutor Ronaldo. Todos os rostos se voltaram para Pessoa.

— Tens alguma prova disso, Doutor? — perguntou a juíza.

— Eu o vi saindo da casa do Doutor Riobaldo correndo, há dois dias.

A juíza deu ordem de revistá-lo e encontrou em seu bolso um belíssimo anel de ouro.

Vendo Pessoa de perto, Doutor Riobaldo exclamou:

— Esse é meu anel! Prendam esse homem!

Ao que a juíza assentiu e mandou Pessoa à delegacia.

Enquanto Pessoa era levado pela polícia, uma multidão começou a segui-lo, tentando entender como um santo convertera-se em bandido.

Percebendo o tumulto do lado de fora, o criminoso olhou pela janela. Pessoa olhou-o com atenção. Naqueles olhos, o homem viu um amor que nunca sentira.

Durante a madrugada, o homem pegou todos os bens roubados e colocou-os num saco. Tomou também o cordão de oração de Pessoa e vestiu-o no pescoço. Deixou os bens roubados na igreja e partiu para Minas Gerais orando com o cordão.

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