Fé cristã e igualdade de gênero

Feminismo, para muitos cristãos, Carl_Heinrich_Bloch_-_Woman_at_the_Wellé um palavrão. Associam a essa palavra os piores sentidos possíveis, sem questionar seu real significado.

Ao mesmo tempo, os cristãos mantêm o já tradicional ensinamento da igreja de que homens e mulheres têm seus papéis delimitados e que o homem é o chefe da casa.

Porém, será que isso é realmente o ensino de Jesus ou é influência de um mundo opressor dentro da igreja? Como Jesus enxergava a mulher e como ele concebia o relacionamento amoroso?

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Jesus viveu numa sociedade e numa religião machistas, ou seja, onde só o homem podia exercer a liderança e os serviços religiosos. Porém, Jesus era totalmente contrário à desvalorização da mulher que acontecia em seu mundo.

Isso pode ser visto com clareza no relato de Marta e Maria. Esta assenta-se aos pés de Jesus, colocando-se na posição de discípula, algo reservado aos homens. Marta censura Maria por sua atitude, porém Jesus a elogia. Ou seja, Jesus reconhece, contra uma religião que reservava o privilégio do discipulado aos homens, que as mulheres têm os mesmos direitos.

Jesus, ao longo de toda a sua vida, reconhece que as mulheres também são pessoas que merecem ser ouvidas e ter os mesmos direitos e responsabilidades. Se lermos os evangelhos com atenção perceberemos que as atitudes de Jesus com as mulheres atraíram o ódio das classes dominantes e também o estranhamento por parte de seus próprios seguidores.

Chama a atenção o fato de que, numa cultura onde as mulheres não tinham nenhuma autoridade religiosa ou legal como porta-vozes, Jesus ter escolhido aparecer primeiro a elas após sua ressurreição, reprovando a noção comum de que apenas os homens são dignos de serem ouvidos.

A atitude de Jesus de reconhecer o valor da mulher foi tão profunda que levou o apóstolo Paulo a afirmar que em Cristo não há homem nem mulher. Frase incrivelmente esquecida pelas igrejas.

Vale lembrar que é totalmente estranho ao cristianismo a ideia de superioridade e hierarquia. Quem é cristão não impõe sua vontade sobre os outros; quem é cristão serve.

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Mas o homem não é a cabeça da mulher?¹

Porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo. (Efésios 5,23)

Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo. (1 Coríntios 11,3)

Normalmente se apela para a ideia de que o homem é a cabeça da mulher. Porém, considerando o contexto e o significado da palavra no idioma original, veremos que os textos de Efésios 5,23 e 1 Coríntios 11,3 não afirmam que o homem tem autoridade sobre a mulher.

Devido ao nosso preconceito linguístico, pensamos que “cabeça” significa “liderança”. Porém, a Bíblia em nenhum lugar afirma que o homem deve liderar a mulher. “Cabeça”, no grego, é uma metáfora cujo sentido varia de acordo com o contexto.

Em cinco passagens do Novo Testamento, Jesus é citado como cabeça da igreja. Em Colossenses 1,18, isso significa que Jesus é a fonte da vida após a morte. Em Colossenses 2,18-19, que Jesus ajuda a igreja a se desenvolver. Em Efésios 5,23.25, que Jesus a salva, ama e doa a si mesmo por ela. Em Efésios 1,20-23, que Jesus providencia o crescimento da igreja. Em Efésios 4,15-16, que Jesus a equipa para o crescimento através do amor.

Ou seja, Jesus é a cabeça pois dá vida abundante, ajuda no desenvolvimento, salva, ama e doa a si mesmo. Em nenhuma dessas passagens, fala-se de autoridade, liderança ou tomada de decisões.

Portanto, dizer que o marido é a “cabeça” da esposa só pode significar que ele deve abrir mão de si mesmo por ela, sacrificar-se por ela e ajudá-la em seu desenvolvimento. Algo que em uma sociedade machista com certeza soou muito subversivo.

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E o caso de 1 Timóteo 2,12?²

E não permito que a mulher ensine, nem exerça a autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio. (1 Timóteo 2,12)

Embora nossas traduções coloquem a palavra “autoridade” nesse texto, a palavra grega — authentein — significa “uso ilegítimo de autoridade”.

Esse sentido fica ainda mais claro ao constatarmos que o verbo authentein só é encontrado uma vez nas escrituras. E que, para se referir à autoridade, o apóstolo Paulo usava regularmente a palavra exousia.

1 Timóteo é uma carta pessoal escrita para um jovem pastor, instruindo-o sobre como lidar com as heresias propagadas em Éfeso. Esses ensinamentos eram comumente transmitidos por mulheres, e é possível que a carta tenha em mente uma mulher específica.

Um dos mitos e genealogias circulando em Éfeso era a ideia de que Eva fora criada antes de Adão e era superior a ele.

Além disso, é inconsistente afirmar que as normas de vestimenta em 1 Timóteo 2,9 são culturalmente relativas, mas que a restrição às mulheres é universal. Toda interpretação deve ser consistente com o resto da passagem em questão e toda a Bíblia deve ser interpretada a partir de Jesus Cristo.

Fica claro, portanto, que o texto de 1 Timóteo 2,12 não restringe o papel das mulheres na liderança da igreja, mas se referia a um problema específico.

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A Bíblia está cheia de exemplos que promovem a igualdade da mulher. Para citar apenas mais um, o relacionamento é comparado a um jugo. São dois bois puxando um arado. Caso o jugo seja desigual, o arado sairá do curso.

Se você me perguntar se sou feminista, direi que acho que rótulos mais atrapalham do que ajudam. Mas sim, por amor a Jesus, sou feminista.

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¹ 5 Myths of Male Leadership
² Defusing 1 Timothy 2:12 Bomb; 5 Reasons Stop Using 1 Timothy 2:12 Against Women
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