Quaresma

Tudo caminha para um mesmo lugar:

tudo vem do pó

e tudo volta ao pó.

Quem sabe se o alento humano sobe para o alto e se o alento do animal desce para baixo, para a terra?

Observo que não há felicidade para o ser humano a não ser alegrar-se com suas obras: essa é a sua porção; pois quem lhe mostrará o que vai acontecer depois dele? (Eclesiastes 3)

A vida, com o perdão de dizer-lhes o óbvio, é extremamente plural. QuaresmeiraEm certos momentos, alegramo-nos profundamente com a beleza escondida no cotidiano. Em outros, ficamos aterrorizados ao olhar nosso sofrimento e nossas reais intenções nos olhos.

Nem só de alegria vive o ser humano, mas também de tristeza.

A insatisfação com a feiura da vida, embora muitas vezes ignorada na correria das cidades, é fundamental para a instauração da justiça. A tristeza é sinal de que o universo pode ser mais belo.

Estamos agora na Quaresma, um tempo de ascetismo, isto é, de disciplinas que tornam nosso corpo mais forte, mais apto a ver o mundo como ele pode ser: o Reino de Deus.

Na abstenção do conforto da comida (jejum) e das palavras (oração), relembramos que o vazio que sentimos não pode ser saciado. Nada pode satisfazer nosso desejo pelo infinito.

A Quaresma, esse tempo triste e desconfortável, nos permite abrir espaço para aquilo que não cabe em nossas vãs palavras. Ela nos prepara para a ressurreição, um jeito leve de levar a vida, sabendo que a vida não é um vestibular e não tem resposta certa.

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