Ivy marãey

Adão e Eva estavam sentados no jardim, à beira da árvore, enquanto comiam. Viam à sua volta as primeiras flores da vida. Elas surgiam em meio ao lixo, vencendo-o com sua beleza. Maravilhados, deixaram sua refeição de lado e colocaram-se a contemplar as flores em reverente silêncio.

O ano era 2130 depois de Cristo, de acordo com nosso calendário. Para eles, era o centésimo ano após o colapso.

O jovem casal era a primeira geração após o catastrófico evento. As histórias do colapso, cada uma mais assombrosa que a outra, lhes foram passadas pelos seus avós e pais.

Segundo o que lhes fora contado, a humanidade havia chegado a um ponto terrível de maldade. Gaia estava sendo torturada dia e noite enquanto a humanidade se escravizava. Os sinais da destruição sempre foram claros, mas igualmente ignorados. Os poucos profetas, que não se dobraram ao pés do consumo, eram chamados de loucos e alarmistas.

Após os mares terem se tornado intocáveis, o óleo sagrado do deus Capital ter extinguido, e os espíritos das profundezas terem abandonado a Terra, todo o modo de vida se degenerou. O dinheiro daqueles que eram bilionários não valia mais nada. Estes foram os primeiros a morrer.

Subitamente, como uma tempestade após um dia de sol, a violência física tomou conta do mundo. Os poucos que não perderam a vida, morriam lentamente de desespero.

Não era a toa. Tudo que dava sentido às pessoas tinha se desintegrado. A loucura, o estado de exceção, se tornou a regra. Como viveriam as pessoas após a morte de seu deus? Seu objetivo máximo, o paraíso do status e SUVs, fora eliminado do campo de possibilidades. A imaginação da humanidade-escrava era estreita, não tinha capacidade de inventar um novo modo de vida. A violência, dos símbolos ao corpo, foi a única resposta possível.

O mundo era autorregido pelo Capital. Nem governos, nem empresas, dominavam. O Capital era fonte e ápice de toda a existência. E, de repente, o Capital abandonou o mundo direto para a terra dos deuses mortos.

Agora, cem anos depois, só restavam as ruínas e o lixo. Muitos animais foram extintos e apenas uma pequena parte da humanidade sobreviveu.

***

Após um longo tempo de procrastinação, observando as flores e se alimentando, Adão e Eva se colocaram de pé. Haviam passado seis meses naquele local e decidiram que era hora de mudar. Cada um guardou suas coisas em uma mochila, colocou-a nas costas e partiu em direção ao sul, fugindo do fortíssimo inverno que estava para chegar.

Já era tarde. O sol estava se pondo, amarelando todo o horizonte. O lixo acinzentado ganhava cor com o pouco da graça que restava no mundo.

Sentado naquilo que um dia fora uma privada, estava um homem velho, de barba e cabelo bem aparados e sem roupa nenhuma, além de um shorts rasgado.

O casal, ao vê-lo, se preparou para ouvir alguma reação. Porém, o velho não se mexeu. Parecia que eles poderiam passar por ele, fingindo não o ver, que ele não se importaria.

— Ei! — Eva chamou.

O velho virou o rosto, encarando-os.

— Tudo bem? — ela continuou.

— O que acha? — respondeu, bruscamente.

— Você não parece tão mal — interveio Adão — Está com o cabelo e a barba bem feitos.

— E de que adianta isso? Vivi até esta hoje naquela mansão — disse, apontando o dedo — mas fui assaltado. Apanhei e fui expulso de lá.

Adão e Eva chegaram mais perto dele. Sentaram-se à sua volta para escutar o relato.

— Antes de tudo, meu nome é Sebastião. Eu vivia na mansão que era dos meus avós com minha companheira. Ela fazia tudo para mim, mas estava doente fazia tempo, não sabíamos de quê. Morreu semana passada. Fiquei na casa, sofrendo sem ela. Como podem ver pela minha barriga e pela minha barba, consigui subsistir bem. Até ser assaltado hoje. Agora não há mais nada para fazer na vida. Não tenho minha casa, nem minha mulher…

Assim que ele acabou de falar, Eva fitou-o compassivamente. Seu silêncio fez Sebastião se sentir acolhido.

— Eu e meu marido, Adão, estamos indo para o sul. Construiremos uma bela vila, plantaremos uma grande horta e passaremos o dia a contemplar a beleza escondida pela destruição. Se quiser, pode vir conosco.

— Mas e a minha casa? Preciso recuperá-la.

— Não se preocupe — Adão falou. Em nossa vila, haverá lugar para todos.

O velho ainda estava apegado ao passado, mas diante da impossibilidade de recuperar a velha casa, decidiu seguir com o casal.

***

Era noite. O vento assobiava frio. Os três — o casal e o velho — tentavam dormir numa caverna.

Sebastião, com dor nas costas pela ausência de cama, levantou-se e pôs-se a observar lá fora.

Nessa época, as estrelas já haviam caído do céu. Tudo o que ele avistava era negritude. A noite e a cegueira eram a mesma coisa.

O velho, olhando em volta, viu uma pequena luz. Com medo, chamou o casal.

Os dois se levantaram e, intrépidos, sinalizaram com luz para o longíquo viajante.

— Vocês estão loucos? — questionou Sebastião.

— Que mal pode um solitário cometer? — respondeu Adão.

Após esperarem por cerca de meia hora, um jovem de barba aparada e cabelo raspado pôde ser visto com clareza.

Ele se aproximava num misto de felicidade e incerteza quando um barulho os interrompeu. Algum animal grande vinha correndo em sua direção.

— Venha para a caverna, rápido! — gritou Eva.

— Ele vai nos matar.

— Será melhor enfrentá-lo de dentro da caverna do que ao ar livre de noite — acrescentou o velho.

Os quatro entraram na caverna. Afobado, o jovem perguntou:

— E agora?

— Agora a gente espera — respondeu Adão, tranquilo.

— Vocês não vão matá-lo?

— Por quê? Ele só quer sobreviver, como a gente.

Enquanto Adão e o jovem preparavam uma refeição, conversavam sobre quem ele era e o que ele buscava.

O jovem, chamado Américo, era um professor de história numa das poucas cidades que restavam no mundo. A cidade fora destruída por um grupo de sobreviventes nômades em busca de comida. Ele escapara e andava sem rumo desde então.

— E o que vocês pretendem fazer? — perguntou Américo.

Eva sentou-se no chão, tocou-o com as mãos abertas e fechou os olhos, sentindo com profundidade a textura da terra. Depois de um tempo, disse:

— É isto que queremos. Comunhão com o chão de onde brotamos.

***

Andaram por um tempo, que de acordo com Sebastião, parecia indeterminado, tão longo quanto a previsão de um dia ter novamente conforto. Ele já não falava muito, como era seu costume. Ficava a olhar o horizonte, imaginando quando esse pesadelo haveria de acabar.

Avistaram, ao longe, uma casa de madeira, que parecia ter apenas um cômodo. Uma fumaça saía de sua chaminé e uma mulher, com um facão na mão, havia os avistado primeiro.

— Viemos em paz — gritou Américo.

A mulher sorriu e logo apareceu ao seu lado um homem. Os dois deram as mãos.

— Desculpe se os assustei — disse a mulher — Meu nome é Sara e esse é meu marido, João. O facão não é uma arma, mas uma ferramenta, para cultivar a horta.

— Que bom que pensam assim — disse Adão — Não consertaremos este mundo cometendo os mesmos erros.

— É verdade — disse João, olhando para baixo — A centralização, o poder, o desejo de riqueza, as guerras, destruíram nosso planeta.

— Porém, não sabemos o que fazer — disse a Sara — Estamos perdidos.

Adão e Eva contaram-lhes suas intenções de ir para o sul e organizar uma vila, onde ninguém teria poder sobre o outro, todos estejam conectados com a terra e vivam pacificamente.

— Isso tudo é ótimo. Podemos ir com vocês?

— Claro. Podemos partir pela manhã.

Eles se serviram de uma salada, tomaram um chá e dormiram no chão da pequena cabana.

***

No outro dia, tomaram café observando, reverentemente, o nascer do sol, colocaram tudo em suas mochilas e partiram em direção à futura vila.

Pouco após fazerem a segunda pausa do dia, Américo notou que Sebastião agia estranhamente.

— Algo errado?

— Não. É só que acho esse plano de vocês muito idealista, não acho que irá funcionar.

— Por que não irá dar certo? — perguntou o homem.

— Precisamos de um governo, de gente nos guiando, nos dizendo o que fazer e o que acreditar — falou, num misto de grito e choro — Sem isso, jamais alcançaremos o conforto que nossos antepassados tinham.

— Esse conforto é realmente desejável?

Sebastião jogou-se no chão e tampou o rosto.

— Venha — disse Adão — juntos conseguiremos viver bem.

O velho fez sinal para que fossem embora. O grupo tentou convencê-lo a levantar, mas em vão.

— Se eu sentir que não estou bem, irei atrás de vocês.

Enquanto os jovens sonhadores rumavam ao sul, o velho Sebastião andava em direção à cabana do casal.

Não demorou muito para que o grupo encontrasse um lago próximo à floresta.

Pararam por ali e começaram, aos poucos a construir a primeira cabana da vila. Nessa primeira casa, fizeram muita comida, organizaram sementes e armazenaram as ferramentas básicas para a nova vida. Oravam todo dia e comiam sempre juntos.

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