Possibilidades

Às duas horas da manhã era seu momento de dormir.

Tomou sua droga. Pensava no dia de amanhã, se o trânsito estaria tão ruim quanto hoje, nas cobranças dos chefes — horror semelhante à fratura exposta.

Dormir, mesmo com o aumento da dosagem da droga, parecia tão possível quanto uma formiga com o peso de um elefante.

Às cinco horas o smartphone tocou. Lembrava-se dos seus avôs. Cheiro quente de café e bolo de fubá. Mas não sabia se fora um sonho — “será que eu realmente dormi?” — ou sua imaginação.

Desligou o alarme e o ventilador, sorriu friamente para o gato e tomou um banho gelado. Colocou a comida no micro-ondas, ligou a cafeteira expresso e a televisão.

Ele precisava de alguma esperança para transformar sua vida. Mas o horror espetacular de um noticiário o entreteve e apazigou por mais algumas horas.

Cinco minutos antes de sair de casa, cansou-se e desligou a TV. Sentiu-se bem e desconfortável ao mesmo tempo. Por cinco minutos imaginou como seria sua vida, sem os sapatos apertando o pé, sem buzinas apertando sua cabeça e sem chefes socando seu estômago. Seria isso possível?

O trânsito hoje estava pior do que ontem (é sempre assim), mas ele não se importava. Entretia-se mastigando um mundo de possibilidades. Ele redescobrira a imaginação. Era criança novamente e para uma criança, tudo é possível.

Anúncios