O pesadelo do monge

Sou um monge. Não porque afilhado à gloriosa Ordem de São Bento, mas por ignorar a revolução do vulgar.

Minha vocação foi revelada na madrugada do dia 24 de março do ano 700. Veio a mim, em sonho, um anjo do Senhor. Ele apresentou, guiando-me por uma enorme sala, uma mesa farta, com todo tipo de carnes, iguarias e sobremesas; um cofre, do tamanho de uma cidade, cheio de barras de ouro; uma cama confortável, para dormir por toda a eternidade; brigas, para eu participar; espelhos, para me vangloriar; nobres pessoas para invejar; e inúmeras prostitutas.

O anjo me disse:

— Vai, lança-te sobre os prazeres e aproveita teu sonho.

Acatei sua ordem e, pelo que pareceram dias, aproveitei de cada um dos pecados.

Porém, após tê-los provados todos, e enquanto me encaminhava a contar as barras de ouro, senti um profundo vazio. Percebi que nada daquilo me satisfazia. Acontecido isso, eu acordei.

Certo de que os prazeres não eram a fonte da felicidade, dediquei-me à vida contemplativa. Enquanto monge, destaquei-me pela erudição. Conhecia detalhadamente a obra dos filósofos pagãos, dos santos padres da igreja e as disputas de meu tempo.

Minha fama, devido à devoção e inteligência, espalhou-se por toda a Europa. Contudo, o vazio na minha alma permanecia.

Então que tive outro sonho. Apareceu a mim um demônio. Este convidou-me às virtudes do jejum, da pobreza, do trabalho, da longanimidade, da humildade e da castidade.

Aceitei o convite do diabo e vivi, em sonho, todas aquelas virtudes por um longo tempo, melhor ainda do que fazia em vida. Enquanto trabalhava, porém, percebi que nada daquilo me satisfazia.

Acontecido isso, acordei assustado. O que fazer se nem o vício nem a virtude me davam felicidade?

No mesmo dia conversei com o abade. Ele disse que eu estava numa crise de fé, deu-me uma licença e me aconselhou a visitar minha terra.

Ao caminhar em direção ao interior do país, vi a vida comum dos campesinos. Encantei-me com sua simplicidade e então tudo ficou claro. O vício e a virtude são dois nomes para a mesma coisa e nada poderá preencher o vazio humano porque tudo é efêmero.

Até mesmo Deus, como nós o conhecemos, é transitório, porque Deus é sempre uma interpretação humana e as palavras, como pedras ricocheteando na água, sempre perdem seu sentido.

Anúncios