Para falar sobre Deus

Existem coisas inomináveis, coisas que não cabem em palavras. O amor, o maravilhamento diante do mundo e Deus, são exemplos de experiências que transbordam qualquer conceito. Porém, o ser humano é um ser racional (ele interpreta aquilo que vive) e social (ele precisa comunicar aquilo que vive).

Para racionalizar e comunicar a experiência do transcendente, de algo que vai além de si, o ser humano cria símbolos, ritos e doutrinas. Estes são transitórios, porque as palavras e os gestos com o tempo perdem seu sentido. Os símbolos, ritos e doutrinas apenas apontam para o transcendente, mas não podem contê-lo.

Não é raro ver pessoas utilizando “Deus” para manterem-se no poder. Identificam seu estilo de vida, seu poder e sua doutrina com a lei divina. Contudo, a história é incapaz de segurar tão grande poder dentro de si e, por isso, nenhum projeto pode ser confundido inexoravelmente com a vontade divina.

É preciso reconhecer que nossa ideia de Deus é apenas uma ideia, não é Deus mesmo. Por isso, também é necessário que continuamente questionemos nosso conceito de Deus, acolhendo sempre uma definição mais abrangente. A incerteza e a humildade devem marcar o discurso religioso.

A concepção cristã de Deus

Jesus Christ, The Good Sheperd (3rd Century(

Jesus Cristo, O Bom Pastor (século 3 d.C.)

A interpretação cristã do transcendente, que pessoalmente vivo, subverte noções comuns sobre o sagrado e nos conduz a questionar continuamente nossas ideias sobre Deus.

Para nós, cristãos, Deus não é um déspota, não é controlador nem autoritário. Nossa imagem, isto é, nossa interpretação de Deus não é a de um monarca, mas de um homem pobre, nascido na favela do mundo. Para nós, Deus não é forte nem impõe sua justiça ao mundo; o amor de Deus excede o seu juízo.

Quando a câmara dos deputados se referia incessantemente a Deus neste dia 17 de abril, ela não se referia ao Deus revelado em Jesus Cristo, mas ao deus Dinheiro. Não é a toa que a simplicidade de Jesus Cristo confundiu os religiosos-políticos de seu tempo.

Em tempos tenebrosos, onde as relações são mediadas pela violência, precisamos relembrar que Deus não está preocupado em assinar decretos e manter a humanidade em ordem, mas no meio dos pobres, pegando crianças no colo, abraçando prostitutas e estrangeiros.

Em Jesus Cristo, nós encontramos um ser humano totalmente aberto a Deus e Deus totalmente aberto à humanidade. Deus não está lá no céu, longe de nós e impassível, mas mistura-se com a nossa história, Deus está aqui embaixo, soprando em nosso meio.

Convido-vos todos, em tempos de manipulação do Sagrado, a calarem-se diante do mistério divino, a abraçarem o silêncio, que nos ensina que Deus é muito maior que todas as nossas convicções.

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