Variações sobre um retiro

Escuta

A mente é distraída por natureza, mas o barulho da vida moderna acentua demasiadamente isso. É quase impossível viver uma vida sã no meio da cidade. Vida plena só pode ser adquirida com silêncio e recolhimento, com meditação e contemplação, com um conhecimento profundo e sincero de si mesmo e de Deus.

Nossas reais intenções e desejos se escondem sobre camadas narrativas que criamos para não entrar em crise. Não temos coragem de olhar nós mesmos nos olhos. O silêncio confronta.

Deus não é encontrado em espetáculos barulhentos encenados nas igrejas, mas na brisa suave, no silêncio.

O caminho da maturidade é o caminho da superação de si mesmo, do esvaziamento das próprias vontades e autoentrega a Deus.

Ódio

No mundo em que vivemos, a maioria das relações são mediadas pela violência. O outro é coisificado, existe apenas para satisfazer as minhas vontades. Perde-se assim a dimensão ética da vida. Perde-se assim a própria vida, pois viver é ser ético.

Apesar do ódio reinante, a crucificação de Jesus nos dá esperança: o ódio jamais vence o amor.

O Poder sempre perseguiu e perseguirá aqueles que vivem pelo amor e pela paz. Por não conformar-se à lógica violenta de seu mundo, Jesus foi crucificado. Mas ele não cedeu, não tornou-se malvado ao ser atingido pelo mal. Apenas desta forma, o amor foi capaz de vencer o ódio.

Obediência

Entregar-se à Eterna Beleza requer humildade e obediência. Não se pode obedecer a Deus porque somos obrigados, nem por medo de algum castigo. Aqueles que querem seguir a Cristo devem guardar sua palavra, ou seja, obedecer amorosamente, como um apaixonado abre mão de suas próprias vontades em favor da pessoa amada. Nosso amor por Jesus manifesta-se na medida em que estamos dispostos a nos sacrificar por ele.

Talvez a melhor forma de vivenciar o amor é estando silenciosamente com a pessoa amada. O silêncio demonstra amor, afirma convicto que aquela relação não existe para o próprio bem, mas por amor ao outro.

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