Oyunchimeg

Este relato é uma continuação de IVY MARÃEY

O menino estava sentado diante da árvore fazia algum tempo. Ele estranhava algo que parecia fluir nela, uma intensidade de vida jamais vista.

Num ímpeto de coragem, sentiu que deveriam conversar:

— Oi.

E a árvore respondeu:

— Olá.

— Não sabia que as árvores falavam.

— Nós, árvores, há muito tempo conversávamos com vocês, humanos.

— Como assim? Vocês pararam de falar com a gente?

— Na verdade foram vocês que esqueceram de nós. Os seres humanos se tornaram perversos, trocaram a amizade pelo poder.

— E foi isso que matou Mãe Terra? — disse o menino, em um misto de afirmação e pergunta.

— Sim. Enquanto a amizade sempre cura, o poder sempre destrói — a árvore fez uma longa pausa, que não incomodou o menino — Vocês falavam muito de um homem chamado Sidarta Gautama. Conhece?

— Não.

— Então me parece que ele finalmente está feliz — sorriu, como só as árvores sabem sorrir. Era uma pessoa fora do comum. Porém, como todo santo, foi mal compreendido. Gautama vivia em profunda comunhão com Deus e com a natureza e sua vida era ensinar as pessoas a viverem essa comunhão. Mas como diz um adágio de vocês, o sábio aponta para a lua, o tolo olha o dedo. Gautama apontava para o mundo, seus seguidores olharam para ele e destruíam o mundo.

Os dois ficaram minutos em silêncio, curtindo um a presença do outro. Até que o menino perguntou:

— Por que a vida é tão entediante?

— Porque vocês fazem coisas de mais. Vocês perderam a capacidade de se aquietar. Estão tão preocupados em produzir mais e mais que esqueceram do mais importante.

— O que é o mais importante?

— Fazer o que estamos fazendo agora. Simplesmente existir, contente com o que é.

— Sem complicar… — disse o menino para si mesmo.

***

— Oyunchimeg! — chamou uma voz.

— É meu pai — disse o menino para a árvore — Terei que ir, caminhar para o sul.

A árvore assentiu silenciosamente. Oyunchimeg acrescentou:

— Foi bom ter conversado contigo. Vou lembrar sempre do nosso encontro.

— Estarei sempre com você — respondeu a árvore.

Oyunchimeg levantou-se do chão. Espreguiçou-se e foi correndo em direção ao pai.

— Já está tudo preparado para partirmos. Eu busquei água e Bat-Erdene separou comida. Junte seu saco de dormir, encha sua garrafa de água e coloque um pouco de comida na bolsa. Sairemos em breve.

Ambos assentiram. Ao se encontrarem os olhos, ambos sorriram, felizes por ter um ao outro.

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