O eterno navegante

Profile of Ernest Hemingway aboard the Pilar.  Photograph in the Ernest Hemingway Collection of the John F. Kennedy Presidential Library and Museum, Boston.

O que relato aqui é fruto de uma curiosidade iniciada há cinquenta anos. Na época, eu era um jovem faroleiro, numa região solitária e gélida da Argentina.

Acontecia que, aproximadamente de dez em dez anos, um estranho e antigo barco aproximava-se do farol. Era de madeira, movido a vapor e nunca via alma alguma sobre ele.

Sentia-me sempre atraído por aquele navio. O tédio da vida de um faroleiro e a vida desmistificada do local tiravam-me o ânimo.

Foi na terceira vez que vi o barco que não pude me conter. Movido por alguma força, que não sei dizer qual, decidi pegar o pequeno barco à disposição do farol e partir em direção ao desconhecido navio.

O mar estava cheio de furor. Inundou o bote. Por várias vezes considerei a possibilidade de morrer e de estar louco. Apesar disso, consegui me aproximar do objeto de minha curiosidade. Vi, lá em cima, um velho que, sem acenar nem demonstrar emoção, jogou-me uma escada. Meus ossos tremiam.

Subi as escadas e agradeci a ajuda do velho. Minha mente não tinha palavras para descrever o que meu coração sentia. Até que fui desperto pelo velho:

— Desculpe a pergunta, meu jovem — disse, com voz aveludada — mas o que te trouxe até aqui?

— Sinceramente, não sei. Fui estranhamente atraído até aqui.

— Curioso. Ninguém pisa neste barco além de mim há muitos anos.

— Eu devo ser alguém especial, então.

— Talvez, mas não se exalte. Todo mundo acredita ter uma missão.

Sem saber como reagir, fiz a pergunta óbvia:

— Quem é você? E por que passa a cada dez anos por aqui?

— Meu nome é Ernesto, conhecido por aí como “eterno navegante”. Pelo apelido, pode deduzir o que faço. Passei a vida inteira, desde os vinte anos, neste barco.

— É um estilo de vida curioso.

— Sem dúvida.

— Por que você decidiu viver assim?

— Quando adolescente, eu era muito ambicioso. Vivia em muito luxo e luxúria. Porém, não demorou para perceber que todo gozo é breve. A vida é demasiadamente grande para segurá-la.

Suas palavras ressoavam forte em meu peito. O velho navegante me apresentava um mundo totalmente diferente.

— Um dos meus irmãos se tornou monge — disse eu — Talvez por motivos semelhantes. Por que você não se tornou um?

— A vida monástica é admirável, mas eu buscava a leveza de não ter lugar. Não queria um chão sólido para me apoiar, mas a incerteza do mar.

— Você encontrou o que buscava?

O navegante trouxe alguns pães e duas garrafas de cerveja e disse:

— Ninguém encontra o que busca. Entreguei-me ao desconhecido e isso basta.

Depois dessa conversa, voltei sobre águas tranquilas até a costa. Vivi muitos anos no farol, maravilhado com a mesmice plural do universo. O eterno navegante não passou mais por lá. Talvez ele tenha ido morar eternamente com o desconhecido.

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