O teólogo e suas tulipas

Spring-flowers-red-tulips-garden-grass_1280x1024Durante uma pesquisa sobre a história do calvinismo no Brasil, percebi algo totalmente ignorado pela mídia e pela academia: o fim da igreja batista nestas terras.

Primeiro achei que eu tinha entendido algo errado, deixado, talvez, alguma informação passar despercebida. Fui a fundo, procurar meu erro e descobri que a igreja batista, de fato, terminara sua história em 1935.

Com a curiosidade inerente a todo protestante, folheei anais, atravessei labirinticamente bibliotecas que herdavam textos que, um dia, encheram os seminários batistas.

Nas pesquisas dos alunos desses seminários, percebi que um pastor chamado Jorge Varpa — aparentemente sem nenhum outro mérito acadêmico — enchia os títulos de numerosas pesquisas de mestrado e doutoramento. Vi esse mesmo nome citado nas atas da Convenção Batista Brasileira como o último pastor ativo da instituição.

Pesquisei registros da igreja em busca de sua última residência. Descobri-a e fui imediatamente para lá, na esperança de encontrá-lo vivo. O que transcrevo aqui foi uma entrevista negada, que fiz questão de esconder até mesmo de minha esposa até a data da morte de Jorge.

***

As paredes da casa eram todas de madeira. Havia um jardim na frente, enfeitado com tulipas, pinheiros e macieiras. A cerca era baixa. Mesmo um idoso, como deveria ser Jorge, se ainda vivesse, poderia saltá-la, o que não seria necessário, já que a porteira estava destrancada.

Abri-a sem medo e bati na porta da casa. Ouvi uma voz gasta pela idade, mas plena de espírito:

— Entre.

Jorge, já com alta idade, sentava-se numa poltrona, descalço, relendo algum trecho da Divina Comédia. Pôs o livro e os óculos na mesa ao seu lado e apontou para o sofá na sua frente.

Tudo isso me deixou desconcertado.

— O senhor não se incomoda de abrir sua casa assim, para gente desconhecida? — perguntei.

O velho olhava-me nos olhos e respondeu:

— De fato, as pessoas hoje têm medo umas das outras — e depois de um momento de silêncio, ofereceu: — Aceita um chimarrão?

Assenti e fiquei a observá-lo preparando o intróito de nossa conversa.

Assim que dei a primeira puxada, queimei a língua. Estava desacostumado àquele ritual que apenas vivenciara na infância. O velho riu.

— O que te motivou a entrar aqui, jovem?

— Uma pesquisa — respondi, acostumando-me à água quente — Vem muita gente desconhecida aqui?

— As vezes. Fale mais sobre sua pesquisa. Embora eu goste de estudar, não piso em uma universidade há muito tempo.

— E nem em uma igreja — acrescentei, provocante.

Jorge percebeu, desconcertado, de que se tratava a pesquisa. Mas sua postura aberta continuou a mesma.

— É verdade. Não entro em uma igreja faz muito tempo. Creio que até mais do que a minha última visita à universidade.

— Creio ter descoberto algo inédito — com a intrepidez e a pressa de um jovem jornalista — A igreja batista, com sua solene teologia reformada, afundou-se no mar do esquecimento. E creio que o senhor foi o elemento central dessa conspirata.

Após uma gargalhada gentil, Jorge falou:

— Seu erro, jovem, está em acreditar que houve conspiração.

Eu me constrangi, ao ver minha arrogância pega em flagrante.

— O que aconteceu, então?

— Durante o seminário, eu era um estudante promissor. Compreendia perfeitamente a doutrina batista e a teologia reformada. Meus professores estavam certos de que eu continuaria meus estudos e me dedicaria ao ensino da sã doutrina. Porém, durante meu último ano, eu reli arduamente os evangelhos, em busca do Jesus que eu não encontrava nos livros de teologia. Descobri-o totalmente despreocupado de cargos eclesiásticos e de teologias elaboradas. Jesus era um homem, acima de tudo, amigo e camarada. Andava com o povo, contava histórias, abraçava, chorava, comia junto e vivia sempre encantado com o mundo. Decidi que queria ser mais como o Jesus dos pés empoeirados do que com os engravatados do seminário. Assim, rejeitei a proposta de fazer um mestrado e fui pastorear uma igreja no interior.

— E como isso culminou no fim de sua denominação?

— Foi tudo muito natural. Tentei viver como Jesus nas comunidades que pastoreei. Minha paixão era contagiante e levou muita gente a ter um brilho nos olhos que as lideranças da igreja jamais vira. Assim, consegui um certo reconhecimento institucional. Estudantes de teologia começaram a fazer trabalhos sobre minha vida. Mas isso não durou muito. Logo viram que eu também era superficial e que aquilo a que eles deveriam se apegar não era meu estilo de vida, mas a divina abertura de Jesus ao outro. Muitos desses alunos, desistiram da carreira pastoral e se tornaram os jardineiros, músicos e poetas mais fascinantes que já pude conhecer. Com o tempo, as pessoas foram se tornando cada vez mais seduzidas por Jesus e esvaziando os bancos das igrejas.
Eu estava sem fôlego. Bebia o chimarrão, encantado pela mensagem que entrava aos poucos em meu coração.

— Então — disse, buscando palavras para ver se eu havia entendido — quando Jesus falava de comunidade, ele estava se referindo a algo espontâneo e amistoso como uma roda de chimarrão.

— Sim. Jesus queria ver um novo mundo, isto é, um novo modelo de relacionamento, embasado no amor e na simplicidade (com o perdão da redundância).

Quando mencionei que precisava ir embora (essa foi a última vez que me peguei com a agenda cheia), Jorge se levantou, presenteou-me com uma cuia, uma bomba e um pouco erva-mate e me deu um longo abraço. Depois disso, abandonei a pesquisa e voltei para casa.

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