Como ler a Bíblia?

Existe em nossos dias muitas (más) interpretações da Bíblia, cheias de relativismo, interpretando o texto bíblico do jeito que for mais proveitoso para aquele que está lendo, e muito literalismo, lendo o texto sempre ao pé da letra e impondo a cosmovisão e os preconceitos do leitor sobre o texto.

Portanto, é necessário questionarmos: qual o sentido da Bíblia? Abordaremos essa questão a partir das origens da Bíblia e de como vivenciá-la corretamente.

Valentin de Boulogne - Paul Writing His Epistles

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A tarefa que temos pela frente

Antes de tudo, precisamos entender de que se trata a tarefa hermenêutica, isto é, como acontece a interpretação.

É comum lermos um texto, desconsiderando a linguagem e o contexto e acreditar que aquilo que entendemos é a única interpretação possível e correta.

Há um lema que diz “A Bíblia interpreta a própria Bíblia”. Esse é considerado por muitos um princípio fundamental da interpretação bíblica. Porém, ele contém um sério erro: esquece-se da presença do leitor, confundindo sua interpretação com o texto em si. Acontece que não existe texto sem leitor, ou seja, não há interpretação que não seja maculada pelos preconceitos (linguísticos, culturais) daquele que lê.

Hugo N. Santos, pastor metodista argentino, observa:

A Bíblia deve ser entendida a partir do contexto em que foi escrita. A mensagem bíblica está inserida em condições sociais, econômicas e políticas distintas das nossas. Quando falamos do contexto cristão, referimo-nos à situação da Palestina de 2.000 mil anos atrás. Devemos buscar as grandes verdades, os grandes princípios, o grande Espírito de Deus que atuou naquelas circunstâncias e relacioná-los às nossas circunstâncias de hoje. Por isso, quem pretende enfocar os problemas urgentes da atualidade corre sempre o risco de decepcionar aquele que espera soluções finais para todos os problemas éticos. De fato, há problemáticas que hoje enfrentamos que não estão contempladas na Bíblia do mesmo modo como as conhecemos atualmente. Mas a própria Bíblia reconhece a complexidade da vida humana e, por isso, não pretende oferecer soluções fáceis, feitas de forma antecipada.

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As Escrituras Sagradas diante do espelho

Diferentemente da visão supersticiosa que muitos de nós temos com a Bíblia, as Escrituras Sagradas não caíram do céu. Elas passaram por um longo processo até chegarem a nós tal como estão.

Muitos dos textos que hoje encontramos na Bíblia surgiram da tradição oral. Eram contados e cantados. Com o passar do tempo, com o intuito de preservá-los, as histórias e canções do povo foram escriturados. Os escritos foram então compilados (aqui aconteceram várias alterações no texto) e por fim canonizados. O processo de canonização, que merece de todos aqueles que apreciam a Bíblia um estudo a parte, foi relativamente recente e fruto da organização dogmática da igreja. Ou seja, a Igreja veio antes da Bíblia.

Olhemos para o Cântico de Miriã, localizado no livro do Êxodo, como exemplo. Este é o texto mais antigo da Bíblia, redigido em hebraico arcaico. Foi usado primordialmente em festividades camponesas, após os combates. Depois, essa tradição foi escrita, compilada no Pentateuco e por fim canonizada. Isso mostra, aliás, que, ao contrário da crença comum, o Pentateuco (a Torá) não foi escrito por Moisés. E notem: o texto mais antigo da Bíblia tem uma mulher como personagem principal.

Outro exemplo: os próprios evangelhos não são relatos de testemunhas oculares, mas compilações de várias fontes, da tradição oral e até de textos mais antigos, como a exegese bíblica tem provado e o próprio Lucas afirma no começo de seu evangelho.

A Bíblia revela a busca humana pelo Sagrado e, por isso, apresenta várias ideias sobre Deus. A Bíblia é plural, não é unívoca. Um exemplo disso é o fato de termos quatro evangelhos na Bíblia, apresentando por vezes contradições. Muitos se chocam ao saber que a Bíblia tem contradições ou buscam provar, sem sucesso, que não existem contradições na Bíblia. Porém, as contradições são essenciais à espiritualidade e ao discurso teológico. Gustaf Aulén, bispo luterano sueco e importante teólogo do século passado escreveu:

Quando a teologia tem a pretensão de falar a respeito de Deus em termos adequados, isso mostra que a interpretação da fé tornou-se metafísica e o Deus da fé transformou-se em um “objeto” entre outros. A teologia que se atenha à função de compreender e interpretar a fé deve perceber cabalmente que todas as suas expressões são de natureza simbólica.

Todos os vocábulos usados pela fé para designar os atributos de Deus são figuras extraídas da vida pessoal. O “amor” ou “ira” de Deus, o conceito de Deus como “Pai” ou como “Juiz”, todas essas expressões são figuras de linguagem humanas. A fé entende que essas palavras são instrumentos imperfeitos, que só podem falar daquilo que diz respeito a Deus como quem tateia e que a realidade é algo muito mais amplo do que sugerem as palavras. (A Fé Cristã)

Um outro exemplo da pluralidade da Bíblia são as narrativas da criação em Gênesis. Temos uma primeira narrativa em Gênesis 1,1-2,4a, que é uma poesia litúrgica de fonte sacerdotal. É um texto sistematizado que participava do contexto de culto. A segunda narrativa da criação, encontrada em Gênesis 2,4b-25 é uma prosa narrativa, de fonte javista. É um texto mais simples, citando aspectos mais concretos da vida (o casamento, as terras próximas, usando verbos que indicam práticas agrícolas), o que nos leva a crer que tinha como contexto à vida concreta do povo judeu e era transmitido oralmente.

Caravaggio - Santo Agostinho

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A Palavra na Vida

A partir das considerações feitas sobre as origens da Bíblia, percebemos que ela não pretende dar respostas prontas aos problemas humanos. A Bíblia, ao contrário do discurso fundamentalista, não é um conjunto de regras, um algoritmo que nos diz exatamente o que fazer e o que não fazer (veja Colossenses 2,20-23). Somos seres humanos e, portanto, paradoxalmente condenados à liberdade.

A mensagem de Jesus deixa claro que ninguém pode descrever um conjunto de regras, uma moral universalmente válida. E é por isso que Cristo apresenta o amor como fundamento ético. Para Jesus, o amor está acima de toda lei e o reinado de Deus acontece onde a lei é suplantada pelo amor.

A Bíblia tão pouco é o centro da fé cristã. Nós somos seguidoras/es de Jesus Cristo porque é nele que nos encontramos com Deus. Quando deslocamos Cristo do centro, substituindo-o pela Bíblia, perdemos a essência da fé e caímos em idolatria (substituindo o sentido pelo significado).

Paul Tillich descreve com clareza:

Quanto mais a fé se transforma em idolatria, menos ela consegue superar a separação de sujeito e objeto. Pois esta é a diferença entre a fé verdadeira e a falsa: Na fé verdadeira a preocupação incondicional é o estar tomado pelo que é verdadeiramente incondicional; a fé idólatra em contraste, eleva coisas passageiras e finitas à categoria de incondicionais. (Dinâmica da Fé)

Como afirma 2 Timóteo 3, a Bíblia deve ser útil, ou seja, ela não têm um fim em si mesmo, mas deve nos conduzir à semelhança de Cristo. A Bíblia é testemunha de Jesus, é o meio pelo qual o conhecemos e o fundamento da nossa doutrina.

Dentro do pensamento judaico e da lógica do Antigo Testamento, a Palavra de Deus não é algo estático, mas é dinâmica e transformadora. A Bíblia exige e pressupõe encontro. Ela mesma é o resultado do encontro de mulheres e homens com Deus. Por isso, o texto bíblico só é transformador na relação, mediada pelo Espírito Santo, com o/a leitor/a. Nessa relação, como afirma Karl Barth, acontece a Palavra de Deus — que, como diz a própria Bíblia, vai além desta.

A Bíblia não é uma afirmação de fé, não é base para debates racionalistas, mas, por ser Palavra de Deus, deve ser vivida. Ela surgiu no cotidiano do povo para guiar a nossa caminhada, para que, através de suas narrativas e poesias, possamos viver plenos de sentido, em abertura total a Deus e ao mundo.

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