Heresias mal redigidas

Quem tem Deus na cabeça é um ateu. ~Zinzendorf

A constituição do sujeito

O ser humano não possui uma identidade imutável. Ele não “é”, mas constantemente torna-se. O ser humano é um constante devir. O ego, portanto, não existe em si mesmo, mas é resultado de narrativas que contamos a nós mesmos.

Essencial no processo de constituição do sujeito, é a figura do outro. É diante do outro que me torno quem eu sou.

O eu não é uma substância. O sujeito acontece: ele é e existe em atos, e ele se forma e se revela em eventos, e se dá conta de si por se auto-reconhecer em atos. O sujeito se forma e se revela na relação de alteridade. O sujeito é constituído como evento, ele acontece na trama que se estabelece em relação com outros seres humanos (mãe, família, grupos humanos) e como resposta a eventos: o ‘eu’ provém das respostas a outro/a. ~Rui de Souza Josgrilberg

Como a religião acontece

A questão não é o que nós acreditamos, [Grace] Jantzen insiste, mas o que desejamos para nós mesmos e aos outros, e como agimos no mundo. ~Jeff Gundy

A religião nunca aparece pura, mas é sempre mediada. O cristianismo puro não existe. Ele sempre aparece em diálogo com culturas e visões de mundo.

A espiritualidade não é marcada por sistemas teológicos, mas por poesias, contos, canções e rituais. Ela propicia o encontro profundo entre o eu e o Tu. Aqui, novamente, a importância da alteridade para a formação do sujeito.

Aquilo que costumeiramente chamávamos de conversão nada mais era que uma ação política. Do ponto de vista religioso, quem passa a participar de uma determinada comunidade, centrada num respectivo ritual, não se converte àquela religião, mas passa a apropriar-se daquela tradição como linguagem para seu desenvolvimento espiritual e social. Posso estar continuamente me tornando cristão, mas nunca serei, essencialmente, um cristão, porque a identidade humana não é sólida, mas fluída.

Espiritualidade é resistência. Quando o ser humano se desenvolve espiritualmente, ele se recusa à redução da vida ao mercado, por estar aberto ao maravilhamento/encantamento.

Possibilidades heréticas

Se o mundo, e Deus, são maiores e mais selvagens e mais estranhos do que podemos imaginar, o que nos faz pensar que podemos vinculá-los com proposições e sistemas de crença? ~Jeff Gundy

Considerando a constituição do sujeito e o modo como a religião acontece, deixo algumas possibilidades de reforma da religião.

  1. Abandonar a ideia de membresia e afiliação: A espiritualidade é processo, não pode ser reduzida à submissão a uma instituição. A pertença à instituição atrapalha o desenvolvimento humano, visto seu vazio essencial.
  2. Desapegar da ortodoxia e da ortopraxia: Doutrinas devem ser entendidas como respostas a determinadas perguntas feitas em determinado contexto. A ortodoxia não precisa ser descartada, ela é importante. Porém, doutrinas não são fins em si mesmos, elas não encapsulam o divino, mas apontam para ele. O moralismo mais atrapalha do que ajuda o desenvolvimento ético.
  3. Dar novos sentidos a palavras velhas e usar palavras novas para falar de sentidos antigos: Criar novas histórias e possibilitar a experiência religiosa a partir, mas indo além, da linguagem tradicional.

Processos de ‘ser’ e de ‘tornar-se’ espiritual e religioso  superam as categorias religiosas clássicas de ‘acreditar’, ‘pertencer’ e se ‘comportar’ para os ‘não-religiosos’. Novos modos de rede, de filiação cosmopolita tendem a caracterizar a forma que os ‘não-religiosos’ se reúnem através de suas vidas espirituais. E, a partir disso, novas histórias de experiência espiritual e religiosa que, tanto se baseiam quanto vão além da linguagem religiosa tradicional estão começando a surgir. ~Elizabeth Drescher

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