Adoração como disciplina espiritual

St. Mary’s parish in Greenville, SC

Intróito

No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as orlas do seu manto enchiam o templo.
Ao seu redor havia serafins; cada um tinha seis asas; com duas cobria o rosto, e com duas cobria os pés e com duas voava.
E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos; a terra toda está cheia da sua glória.
E as bases dos limiares moveram-se à voz do que clamava, e a casa se enchia de fumaça.
Então disse eu: Ai de mim! pois estou perdido; porque sou homem de lábios impuros, e habito no meio dum povo de impuros lábios; e os meus olhos viram o rei, o Senhor dos exércitos!
Então voou para mim um dos serafins, trazendo na mão uma brasa viva, que tirara do altar com uma tenaz;
e com a brasa tocou-me a boca, e disse: Eis que isto tocou os teus lábios; e a tua iniquidade foi tirada, e perdoado o teu pecado.
Depois disto ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem irá por nós? Então disse eu: Eis-me aqui, envia-me a mim.

Em Isaías 6,1-8, observamos com clareza o movimento da adoração. Em resposta à presença divina, Deus é adorado, ou seja, Isaías reconhece quem Deus é. Em consequência de estar diante de Deus, o profeta é levado a confessar os seus pecados. Certo do perdão, ele louva a Deus, isto é, reconhece com gratidão o que Deus tem feito, ouve sua palavra e é enviado a proclamar seus altos feitos.James Chapel at Union

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O que é?

A adoração, portanto, é o reconhecimento da presença divina que nos cerca e nos preenche. É também, com isso, “a reação humana à iniciativa divina” (Richard Foster, A Celebração da Disciplina). Ao percebermos quem Deus é de verdade, nós inevitavelmente o adoramos.

Embora alguns rituais tenham sido usados para a opressão, a adoração é libertadora.

A liturgia pode ser usada para formação positiva ou negativa. Ela pode aborrecer o coração, fazer façanhas com a imaginação e nos fazer contentes com o modo como as coisas estão, ou, pior, levar-nos a fazer coisas terríveis a corpos humanos em nome de Deus, como os cristãos têm sido conhecidos continuamente por fazer.

Ou a liturgia pode lentamente reconstruir-nos de dentro para fora, libertar-nos do que nos une e nos levar a uma vida libertadora que desmonta a opressão e os sistemas prejudiciais neste mundo. ~C. Wess Daniels

Ao levar-nos ao encontro do divino, a adoração leva-nos também ao encontro de nós mesmos. Como consequência da adoração, somos transformados. “Nossa inconstância torna-se aparente assim que enxergarmos a fidelidade de Deus. Entender sua graça é entender nossa culpa.” (Richard Foster)

Vemos então que a adoração é uma disciplina espiritual, porque é uma forma “de agir e de viver que nos põe diante de Deus para que possa nos transformar.” (ibid.)

Não é possível manipular a adoração. Ela requer abertura ao Espírito e isso não pode ser gerado nem outorgado por ninguém. Como afirma Richard Foster, “podemos usar todas as técnicas e métodos adequados, podemos ter a melhor liturgia possível, mas não adoramos o Senhor enquanto o Espírito não tocar o espírito.”

A adoração, apesar de acontecer também individualmente, é uma disciplina comunitária. O culto cristão, segundo Nelson Klipp, é “o encontro celebrativo entre Deus e o seu povo”. É importante salientar as distinções entre o culto no ambiente pentecostal, que é “individual: quem cultua fecha os olhos, ergue os braços e não se importa com o que está acontecendo ao seu lado na igreja” (Fernando Cezar Marques); o culto neopentecostal, onde o culto é prestado a si mesmo ou para o líder e para conseguir uma bênção; e o culto teocêntrico:

Uma […] das funções da liturgia é garantir a participação consciente de todos/as e o aspecto comunitário da celebração. Sem liturgia […] corremos o risco de transformar o culto em show, em programa de auditório, em tempo de expressões de egoísmo e individualismo e até, Deus nos livre disso, em oportunidade para cultuarmos a nós mesmos. (ibid.)

Apesar dos excessos racionalistas de um lado — reduzindo o culto ao cérebro — e emocionalistas de outro — reduzindo o culto às sensações –, “a adoração é essencialmente corporal.” (Richard Foster) O culto, como afirmam Luiz Carlos Ramos e Jaci Maraschin, deve ser não só racional nem emocional, mas ambos.

O culto, como se tem descrito tradicionalmente, é “culmen et fons” da missão. Ele é sua fonte porque, confrontadas/os pela palavra de Deus, somos conduzidas/os à vivência e anúncio do Reino de Deus — um novo mundo possível. E é o seu ponto culminante porque, como resultado de sermos agraciadas/os com a salvação, adoramos alegremente a Deus.

Por fim, considerando o que a adoração faz, concluímos que a adoração é subversiva. Ela rompe o ideal de produtividade, sai, como fala Abraham Joshua Heschel sobre o sábado, do mundo da criação para a criação do mundo. C. Wess Daniels observa:

João nos mostra que há duas religiões: uma religião do império e uma religião do cordeiro que foi imolado. Ambos têm suas respectivas liturgias. Ambos formam e narram o que a vida é em sentido último, porém uma é condenadora enquanto a outra está enraizada na libertação. Essas duas liturgias estão em conflito sobre as vidas humanas.

[…] O culto cristão é destinado a ser uma contra-narrativa da liturgia do império.

“Conversatio Morum”, traduzida normalmente por “conversação dos costumes”, expressão tradicional da igreja descreve bem o que a adoração faz em nós e no mundo. Em um de seus sentidos, como diz Richard Foster, no livro Oração: o refúgio da alma, ela “significa morrer para o status quo, morrer para as coisas tais como elas sempre têm sido.”

Brethren Life and Thought

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Como?

Para adorar, algumas posturas são necessárias.

Em primeiro lugar, é preciso priorizar momentos de adoração sobre o serviço. É claro que aquilo que John Wesley chamava de atos de piedade e obras de misericórdia são complementares e não podem existir sozinhos. Contudo, nossas ações devem ser espelho de nosso relacionamento com Deus. Não há fé sem oração, afinal “lex orandi lex credendi”, a lei da oração é a lei da fé.

Complicando a situação, vivemos em um tempo de correria, todos temos a agenda sempre cheia. Por isso, talvez, estejamos tão despojados de sentido e genuína alegria. O lema do monasticismo beneditino, “ora et labora”, deve nos inspirar a uma vida com ritmo, em tempos de muito labora e pouco ora.

É necessário praticar a presença de Deus. Irmão Lourenço, monge medieval, exercitou-se constantemente na prática presença de Deus, a ponto de viver em oração mesmo no serviço da cozinha, algo que antes ele desgostava. Santo Agostinho dizia que Deus está mais perto de nós do que nós mesmos. É sobre essa certeza que pratica-se a presença de Deus.

Cultivar sempre uma “expectativa sagrada”, olhar sempre o mundo com olhos novos e saber que Deus está em toda parte. Uma forma de fazer isso e que com certeza enriquecerá nossa experiência de culto é chegar sempre mais cedo na igreja, orar em preparação para a celebração e ouvir meditativamente o prelúdio. Para adorar é necessária boa disposição, abertura e dependência do Espírito.

Reconhecer a dimensão comunitária do culto, não o entendendo, como vimos acima, como algo individual e egocêntrico, é essencial para uma vida de celebração. Enquanto estivermos preocupados apenas com nossas próprias emoções, saúde, etc., não estaremos centrados em Cristo.

Viver diversas formas de adoração, como participar de grupos de oração, círculos bíblicos e grupos de discipulado, ou seja, participar de diversas experiências de adoração, enriquecerá nossa vivência diária de adoração e também a adoração comunitária.

Acolher as distrações que acontecem durante o culto com gratidão, além de não dar voz a frustrações e ira, pode nos ensinar muitas coisas. Semelhantemente, perseverar em adorar mesmo quando nossos corações estão frios é essencial para o desenvolvimento de nossa espiritualidade.

É necessário também, para adorar verdadeiramente, que mudemos nossas atitudes e perspectivas. Somente assim, demonstraremos real entrega a Deus e vivência missionária. Afinal, “adorar é mudar.” (Richard Foster)

Apesar da ênfase atual em “grupos de louvores” e pregações espetaculares, é preciso reconhecer que a técnica não é suficiente para conduzir à adoração. Esta, como vimos, não pode ser manipulada, mas é fruto da abertura genuína à presença sagrada.

Todavia, não podemos afirmar que a liturgia seja desnecessária ou sem importância. A forma deve conduzir à adoração e, portanto, deve ser teocêntrica. Como vimos, o culto é um encontro celebrativo entre Deus e a humanidade. A liturgia, segundo Nelson Klipp, é o que acontece nesse encontro. Em tempos de cultos espetaculares, em que o altar foi substituído pelo palco e a cruz pela guitarra, a reflexão sobre a liturgia é urgente.

Um elemento essencial para a espiritualidade e adoração cristã é a observação do ano litúrgico, que é a celebração cíclica da vida de Jesus. Desta forma, centramos nossas vidas e ações em Cristo, vendo-nos participantes da história divina. O ano litúrgico nada mais é do que as disciplinas espirituais distribuídas num calendário.

Como centro da adoração cristã está a celebração da Eucaristia. Embora ela tenha caído em desuso, sendo celebrado com pouca frequência, no Novo Testamento e na igreja primitiva ele sempre foi elemento constitutivo do culto cristão. Podemos perceber que o Novo Testamento nunca afirma que as pessoas iam à igreja para ouvir a pregação, mas sempre para o partir do pão.

The Practice Tribe (Willow Creek Community Church) 1

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Rumo à prática

Poderíamos falar sobre outros aspectos da adoração e da caminhada espiritual. É possível analisar a adoração como processo pedagógico, arte e como política. Contudo, mais do que falar sobre, a adoração precisa ser vivenciada.

A adoração, como escreveu Richard Foster, “não é recomendada aos tímidos nem aos acomodados. Requer que estejamos abertos para a vida intrépida do Espírito.”

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referências e notas

Este texto surgiu como um resumo do capítulo “A Disciplina da Adoração” do livro “A Celebração da Disciplina”, de Richard Foster. Por isso, devo grande parte das ideias e práticas listadas aqui a ele.

DANIELS, C. Wess. Brother’s K, Liturgy and Broken People.

FOSTER, Richard. Oração: o refúgio da alma.

GRUN, Anselm; REEPEN, Michael. O ano litúrgico como ritmo para uma vida plena de sentido.

HESCHEL, Abraham Joshua. O Schabat: Seu Significado para o Homem Moderno.

IRMÃO LOURENÇO. A Prática da Presença de Deus.

MARASCHIN, Jaci. A Beleza da Santidade: ensaios de liturgia.

MARQUES, Fernando Cezar. Liturgia: precisamos mesmo disso?

RAMOS, Luiz Carlos. Em espírito e em verdade: curso prático de liturgia.

SÃO BENTO DE NÚRSIA. Regra de São Bento.

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