Perigos na caminhada espiritual

Otto Dix - Entry Jerusalem

Vemos atualmente muitas pessoas interessadas numa vivência espiritual mais aprofundada. Os cursos de meditação, os grupos de orientação e oração contemplativa têm felizmente se multiplicado.

Isso é positivo e sinal de esperança em tempos tão tenebrosos. Porém, o caminho da espiritualidade tem alguns buracos na pista que atrapalham e as vezes impedem de vez o nosso progresso. É sobre alguns desses perigos que conversaremos neste texto.

Desistir diante das primeiras dificuldades

Qualquer um que desejar trilhar o caminho da espiritualidade logo constatará que ele não é tão plano e tranquilo como podia parecer.

A primeira tentação, ao ver um buraco na pista — não sentir nada, não perceber a resposta de sua oração, ver-se irado ou estressado, [acrescente sua frustração aqui] — é desistir da estrada, voltar e tomar outro caminho.

Como todos os mestres da vida espiritual — com o perdão do pleonasmo — e toda pessoa já bem vivida — não só em idade — pode assegurar, caminhos que parecem muito perfeitos sempre terminam em penhascos.

Ao ver-se em dificuldade, persista, olhe para as dificuldades como sinal de progresso e da ação purificadora que está acontecendo na sua vida.

Gula espiritual

Ao me deparar com a profundidade de vida encontrada na tradição cristã, com os tantos livros sobre espiritualidade e as várias práticas espirituais, cometi o pecado da “gula espiritual”. Queria ler todos os livros, dominar todos os estágios da vida espiritual e ter todas as experiências possíveis.

Estava sedento e ao encontrar o rio, em vez de beber aos poucos, joguei-me na água e quase morri afogado.

O caminho da espiritualidade deve ser trilhado devagar. Saboreie cada livro, cada momento com profundidade. Afinal, o objetivo — se é que se pode dizer assim — das disciplinas espirituais nada mais é do que viver totalmente presente no momento presente.

Não tente pular etapas. Seja humilde e paciente. Comece com passos pequenos e singelos. Não precisa comprar todos os livros do mundo e lê-los com pressa. Antes de comprar um livro de oração, experimente orar os Salmos. Antes de tentar práticas mais avançadas de oração, experimente abrir seu coração diante de Deus.

Como diz o ditado, devagar se vai mais longe.

Caminhar sozinho

Todas as tradições religiosas do mundo afirmam a importância da comunidade, dos (con)[in]spiradores na vida espiritual. Sozinhos, conseguimos dar alguns passos, mas só é possível ir adiante com a ajuda de gente inspirada pelo mesmo Sopro que a gente.

Quando caminhamos sozinhos, logo desistimos nos momentos de desolação. Contudo, quando temos uma comunidade, amigos que são mais próximos que irmãos, conseguimos forças para continuar. As vezes não entendemos o que estamos passando, mas alguém da comunidade, ou nosso mentor na vida espiritual vai nos ajudar a compreender o que acontece ou simplesmente estará conosco em silêncio.

A comunidade nos mostra nossas falhas, nossas possibilidades e nos corrige. Quem caminha sozinho tem sempre a tentação de crer-se superior e, por estar num ponto de vista viciado, não consegue enxergar seus erros.

Que possamos caminhar juntos e juntas, resistindo às dificuldades e com paciência, inspirados pelo passado e com os olhos na utopia.

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