Três tipos de cristãos

Escuta, ó filho, Monastero di BoseO evento Jesus Cristo, como escrevi há um ano, revela uma verdade escondida em nosso mundo: a transitoriedade de tudo e, portanto, a ineficácia de toda religião (o que se aplica, obviamente, ao cristianismo).

Como define Alain Badiou, evento é “a criação de novas possibilidades”. Porém, como reagimos à revelação dessa verdade, ao advento de um novo modo de existência, o reinado de Deus?

Badiou descreve três possibilidades de sujeito ao encarar o evento: o reacionário, o obscurantista e o fiel. Apliquemos então esses três sujeitos à fé cristã, descrevendo três tipos de cristãos.

Em primeiro lugar, há o cristão reacionário. Este rejeita a existência da verdade revelada no evento Jesus, porque ela ameaça a estabilidade de seu modo de vida. Ele crê que é possível ser cristão, sem gerar nenhuma mudança fundamental no mundo, sem confrontar o status quo. O cristão reacionário é o discurso institucional e presente nas mídias, defensor da “moral e dos bons costumes”, da “família”, etc.

O cristão obscurantista, “reduz ao silêncio aquilo que afirma o evento”. Ele não enxerga o reinado de Deus aqui e agora e como o evento Jesus confronta radicalmente nosso estilo de vida e nossa religião dogmática, mas preocupa-se apenas com o pós-morte.

Por fim, o cristão fiel percebe o advento da verdade e trabalha para a expor, revela o novo jeito de ser-no-mundo possibilitado pela cruz e é obediente ao Espírito e não à letra.

Se você, leitor/a, participa da reação ao evento Jesus, reflita sobre como Jesus confrontava as instituições, moralismos e biblicismos de seu tempo. Se você participa da reação obscurantista, perceba que Jesus nunca se preocupou com a vida após a morte, mas sempre com a vida antes da morte — aliás, como Karl Barth falava, a concepção de vida após a morte da maioria dos cristãos parece-se mais com a Valhala do que com a fé neotestamentária.

De uma maneira ou de outra, todos nós fomos influenciados por uma leitura reacionária e obscurantista da fé cristã. Isso é uma prática e discurso social, que vai além dos indivíduos. Persistamos no caminho de Jesus de Nazaré, removendo as nossas ilusões e expondo a efemeridade de toda religião.

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