A política e a oração em Habacuque

Prédica para o 20º Domingo após Pentecostes

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Sentença revelada ao profeta Habacuque.

Até quando, SENHOR, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! E não salvarás?

Por que me mostras a iniquidade e me fazes ver a opressão? Pois a destruição e a violência estão diante de mim; há contendas, e o litígio se suscita.

Por esta causa, a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta, porque o perverso cerca o justo, a justiça é torcida.

Pôr-me-ei na minha torre de vigia, colocar-me-ei sobre a fortaleza e vigiarei para ver o que Deus me dirá e que resposta eu terei à minha queixa.

O SENHOR me respondeu e disse: Escreve a visão, grava-a sobre tábuas, para que a possa ler até quem passa correndo.

Porque a visão ainda está para cumprir-se no tempo determinado, mas se apressa para o fim e não falhará; se tardar, espera-o, porque, certamente, virá, não tardará.

Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fidelidade.

~Habacuque 1,1-4; 2,1-4

A situação

O livro de Habacuque começa com a queixa do profeta diante de uma calamidade pública: a derrota da justiça e a opressão sofrida. Essa primeira queixa bem (1,2-4) que poderia ser nossa. Nela, Habacuque corajosamente “enuncia nossas tentativas confusas de encontrar sentido nas coisas [e] expressa nossa decepção com Deus.” (Eugene Peterson)

Deus responde dizendo que os caldeus — os babilônios — foram enviados por ele. Que este flagelo fora suscitado por ele, para castigar o povo. E convida Habacuque a olhar para fora de seu circulo, ou seja, para ver além do que estava acostumado, expandir sua consciência (μετάνοια).

O profeta novamente ora, apresenta sua queixa a Deus. É como se ele dissesse: “Eu sei o que fazer, eu sei como consertar o mundo”, mas o problema é que Deus não sabe. Mas depois,

Ele espera e ouve. É na esperança e no ouvir dele — que depois se transformam em sua oração — que ele percebe estar habitando o grande mundo da soberania de Deus. Só aí é que, a certa altura, ele descobre que a vida de fé em Deus, a vida da confiança permanente em Deus, é a vida plena, a única verdadeira. (Eugene Peterson)

Pela segunda vez, Deus responde a Habacuque com uma visão e nela é dita a famosa frase, recapitulada por Paulo em Romanos 1,17 e posteriormente por Martinho Lutero na Reforma Protestante: “o justo viverá pela sua fé.”

O livro apresenta então maldições aos povos violentos e injustos — no caso, os caldeus — e termina com uma grande oração.

Habacuque foi escrito num período difícil da vida do povo judeu. Estava começando o exílio na Babilônia. O povo estava desesperado e agoniado. O livro do profeta tinha como objetivo dar esperança e força para esse povo cativo.

Observações políticas

A situação trágica na qual Habacuque e seu povo se encontravam aconteceu após o reinado forte de Josias, que havia feito uma reforma política e religiosa e expandido o território. O povo de Judá cria-se invulnerável, mas a morte do rei Josias e a subsequente dominação babilônica demonstraram a falência desse projeto de invulnerabilidade.

O profeta, em suas queixas, deixa transparecer sua teologia da invulnerabilidade. Porém, com a visão de Deus, Habacuque aprende a confiar. “O justo viverá por sua fidelidade.” É preciso saber que justo no texto bíblico não é o que faz as coisas certas ou deixa de fazer as coisas erradas. Ser justo tem a ver com relacionamento, justo é aquele que depende de Deus. Assim, o texto nos convida a assumir nossa vulnerabilidade com esperança.

Habacuque nos dá duas imagens de como a vida pela fé se assemelha. A primeira é aquela em que o justo vive agora na certeza da visão, da promessa recebida. É viver certo de que, apesar dos pesares do cotidiano, do triunfo dos corruptos sobre os justos, o Reino de Deus está chegando. Com a esperança, com os olhos fitos num mundo de paz, onde as armas tornaram-se arados (Joel 3), e de convivência fraterna, vivemos hoje.

A segunda imagem da vida pela fé é aquela em que o justo vive contente, mesmo onde as figueiras não deem o seu fruto. Onde a vida está centrada em Deus e não nas circunstâncias. A vida necessariamente nos trará momentos áridos, mas há a certeza de que Deus está sempre conosco.

Este texto tem muito a dizer sobre política. Primeiro pela denúncia feita contra a opressão, a violência, a distorção da justiça, às riquezas, ao consumo insaciável, ao lucro em cima das dívidas dos outros, aos corruptos, aos poderes que constroem as cidades em cima do sangue, à luxúria e à idolatria.

Especialmente hoje, domingo de eleição, devemos nos questionar quando nosso governo e as grandes corporações têm contribuído com a miséria da maioria do povo e até mesmo quando a igreja tem corroborado com isso e feito de tudo para ignorar as reais implicações do evangelho.

Será que os grandes poderes deste mundo não tem oprimido o povo, violentado os mais fracos, distorcido seus direitos fundamentais? Será que as riquezas de alguns poucos não são construídas em cima da pobreza de muitos? Será que o consumismo e a lógica da produção incessante não tem destruído a criação divina?

Mas o texto vai além: ele nos ensina que a sociedade não pode ser construída sobre a invulnerabilidade. Não se pode viver bem em comunidade quando cremo-nos invulneráveis. Precisamos aceitar nossa impotência.

Certa vez, depois de uma discussão sobre quem se assentaria com Cristo em seu reino, Jesus disse:

Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.

Durante muitos séculos, a Igreja cedeu à tentação do poder. Ela, diferentemente do ensino de Jesus e dos apóstolos, tomou controle da sociedade e impôs sobre o povo a sua vontade. Contudo, a situação foi catastrófica e a Igreja, consequentemente, afastou-se do Evangelho. Essa tentação se repete em nossos dias. Precisamos ter coragem de acreditar em Jesus e obedecer os seus mandamentos. Nosso dever não é controlar e impor o Evangelho sobre o mundo — se fizermos isso, deixaremos inevitavelmente de proclamar o Evangelho — mas viver uma política da vulnerabilidade.

A grande questão para aqueles e aquelas que se comprometem com o caminho de Jesus de Nazaré não é quem deve tomar controle da sociedade. Nossa esperança não está em uma nação cristã ou em um governo de esquerda, mas que o cordeiro imolado, o Deus crucificado, é o sentido da história. Nosso dever não é impor o Reino de Deus, de cima para baixo, mas, de baixo para cima, através do serviço, demonstrar sinais do Reino.

O que fazer, então, diante da situação de injustiça que vivemos? O silêncio de Habacuque no início do segundo capítulo pode nos guiar. O primeiro ato de resistência, tanto no sentido de ordem quanto de importância, é o abandono do ativismo. Ativismo incessante nos embrutece com a violência e corrupção que encontramos na política. É preciso, primeiro, aquietar-se, nutrir a alma com esperança e contentamento. Só a partir das visões de um novo mundo, vindas do nosso silêncio, é possível confrontar os poderes deste mundo.

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Observações sobre a oração

A política do justo, daquele que vive pela fé, portanto, está intimamente ligada à oração. E esta talvez seja a maior lição do livro de Habacuque.

Nós lemos neste livro duas queixas feitas pelo profeta a Deus. Ele verbaliza o que muitas vezes não temos coragem de fazer. Muitas vezes não apresentamos nossas queixas a Deus porque temos medo de sermos mal educados. Contudo, Deus jamais se ofende com nossa oração. Orar é abrir as nossas mãos e entregar nosso ódio, amargura e sofrimento a Deus. Orar é derramar o coração diante de Deus e só assim, como diz o salmista no Salmo 62, poderemos repousar nossa alma em Deus.

Habacuque, após a primeira resposta de Deus, ficou indignado. “Como assim Deus, o Senhor vai fazer as coisas desse jeito?” Muitas vezes somos e oramos assim. Achamos que Deus não está fazendo as coisas do jeito certo e dizemos a ele como ele deveria agir. Porém, o profeta espera a resposta de Deus e nos ensina que orar é nos submeter à vontade de Deus. Orar é aprender a desejar, é alinhar nossa mente e nosso coração à mente e ao coração de Deus.

Por fim, aprendemos com Habacuque que a oração não pode estar separada do silêncio. Após orar e apresentar sua queixa a Deus, Habacuque sobe à torre de vigia e espera, silencia-se. O silêncio revela e comunica aquilo que a linguagem não consegue conter. No silêncio, descobrimos quem nós realmente somos, mortificamos o mundo em nós e entramos em comunhão com Deus. O silêncio, portanto, é a forma mais pura de oração.

Convite à oração

Durante esta semana que se inicia, separe um dia para orar, para entregar tudo a Deus, para falar tudo que você tiver para falar. Entregue seus medos e suas raivas a Deus. Submeta-se à vontade de Deus. Peça o que tiver que pedir, mas peça a Deus que ele te ensine a desejar o que o coração dele deseja. Por fim, depois de tiver falado tudo que tiver para falar, fique alguns momentos em silêncio. Aprenda a curtir Deus sem falar nada.

Referências bibliográficas

Allen, Amy. The Politics of Perseverance — Habakkuk 1:1-4; 2:1-4; Luke 17:5-10.

Gonçalves, Humberto Maiztegui. Habacuque 1.1-4; 2.1-4. Portal Luteranos (Auxílio Homilético).

Kivitz, Ed René. O maior segredo da oração. Prédica na Igreja Batista de Água Branca, no dia 27 de Maio de 2013.

Nouwen, Henri. Oração: o que é e como se faz. São Paulo: Loyola, 2010.

Jacobson, Karl. Commentary on Habakkuk 1:1-4, 2:1-4. Working Preacher (Preach This Week).

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Von Rad, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2006.

Yoder, John Howard. A Política de Jesus. São Leopoldo: Sinodal, 1988.

Willis, Amy Merrill. The Politics of the Divine Warrior — Habakkuk 1:1-4; 2:2-4; 3:17-19.

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