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Não sou cristão. Sou humano e isso basta.

É verdade que a maior inspiração da minha vida — mas não a única! — vem da tradição cristã.

Sou constantemente seduzido pela persuasão de Jesus. Contudo, acho injusto, irreal e violento que alguém identifique-se cristão, muçulmano, ateu, etc.

Acho injusto porque nenhuma tradição humana é suficiente para dar sentido e ajudar a questionar nossas vidas. É injusto aprisionar-se em um grupo quando há tanta coisa boa além dele.

Identificar-se com uma tradição é irreal porque nenhuma religião aparece pura, mas sempre mediada por outras tradições. A identidade humana não é sólida e imutável, mas está em fluxo constante. Além de sermos metamorfoses ambulantes, nossa identidade é construída na relação com os outros. Sozinhos, nada somos, não existimos. Tudo é transitório, inclusive nós mesmos.

Afiliar-se única e exclusivamente a uma tradição significa violentar os outros agrupamentos humanos. Crer que apenas a tradição cristã, por exemplo, detém a verdade significa negar a igualdade da humanidade dos muçulmanos, hindus e xintoístas.

É chegada a hora de ir além de definições abstratas, de recortes que reduzem a experiência da vida, e viver concretamente aquilo que se é, para além das palavras.

Tu és grande, Senhor;
sobre os humildes pões teus olhos,
e olhas de longe os que se põem no alto;
só estás junto dos de coração contrito,
não te revelas aos orgulhosos,
mesmo que, com curiosidade, com perícia,
ponham-se a contar todas as estrelas do céu,
e cada grão de areia do profundo oceano;
tracem a medida do espaço sideral
e explorem as estradas das estrelas.

(Santo Agostinho)

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