O custo do discipulado

Prédica para o 16º Domingo após Pentecostes

Dietrich Bonhoeffer

Grandes multidões o acompanhavam, e ele, voltando-se, lhes disse:
Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. E qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo. Pois qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para a concluir?
Para não suceder que, tendo lançado os alicerces e não a podendo acabar, todos os que a virem zombem dele, dizendo: Este homem começou a construir e não pôde acabar.
Ou qual é o rei que, indo para combater outro rei, não se assenta primeiro para calcular se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil?
Caso contrário, estando o outro ainda longe, envia-lhe uma embaixada, pedindo condições de paz.
Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo.
~Lucas 14,25-33

Se prestarmos atenção ao nosso redor, veremos que as pessoas falam de Deus, Bíblia, Jesus e Igreja o tempo todo. Nós vivemos num país cristão e onde muita gente afirma ter se “convertido”. Porém, a situação de nosso país vai de mal a pior. A corrupção, a violência, a intolerância e muitos outros problemas têm se multiplicado.

Diante disso, sou levado a questionar: por que existem tantos cristãos e tão pouca transformação no mundo? E por que nós, cristãos, vivemos tão diferentemente de Jesus?

Essas questões não são só de nosso tempo e local. Elas podem ser encontradas, por exemplo, no pensamento de Santo Agostinho de Hipona, São Bento de Nursia, Martinho Lutero, etc. John Wesley, fundador do movimento metodista, reconheceu esse problema: “Havia um ditado comum entre os membros da Igreja primitiva: ‘A alma e o corpo formam um homem; o espírito e a disciplina formam um cristão’; queria dizer que ninguém pode ser um verdadeiro cristão sem a ajuda da disciplina cristã. No entanto, se for assim, não é de estranhar que encontremos tão poucos cristãos, pois onde está a disciplina cristã?”

Quando olhamos para o século passado, que presenciou um dos horrores mais recentes da humanidade, o holocausto, e lembramos que a Alemanha era e é um país cristão, berço da reforma protestante, devemos questionar: onde estava a igreja durante o nazismo?

Investigando esse problema, chegaremos à triste conclusão de que a igreja não estava apenas silente — o que já seria horrível — mas apoiou o regime nazista. A relação da igreja alemã com o nazismo demonstra um problema que ainda não resolvemos e assombra o Brasil: como a igreja deve se relacionar com o Estado.

Felizmente, nem todos os cristãos apoiaram o nazismo. Houve várias exceções. A mais notável delas foi Dietrich Bonhoeffer, um pastor luterano, martirizado duas semanas antes do exército estadunidense ter liberado o campo de concentração onde estava.

Bonhoeffer debruçou-se sobre o mesmo problema. Diante do sofrimento de tantos judeus, da opressão perpetuada pelo governo, ele questionou o que aconteceu com o evangelho.

A igreja, no tempo dele, assim como no nosso, transformou o evangelho em algo inofensivo. Em algo que não confronta as estruturas pecaminosas, isto é, injustas e opressoras, do mundo. Diferentemente de nosso tempo, a igreja primitiva era vista como uma ameaça à ordem vigente e o próprio Cristo foi morto como um terrorista, um criminoso político.

A questão, essencial para aqueles/as que querem seguir a Jesus, é: como a igreja domesticou o evangelho e como recuperar a radicalidade da mensagem de Jesus?

Bonhoeffer, para entender esse problema, cunhou o termo “graça barata”. Segundo ele, a igreja utilizou sua doutrina principal para eximir-se dos compromissos que o seguimento de Jesus acarreta. Ele escreveu: “Graça barata é a pregação do perdão sem requerer arrependimento, batismo sem disciplina eclesiástica, Comunhão sem confissão, absolvição sem confissão pessoal. Graça barata é graça sem discipulado, graça sem a cruz, graça sem Jesus Cristo, vivo e encarnado.”

O Paulo Brabo descrevendo a mesma realidade, disse: “Anos de prática capacitaram-nos a racionalizar cuidadosamente o que Jesus disse e fez, até o ponto em que o que ele disse e fez não represente qualquer interferência na nossa pretensão de sermos seguidores dele.”

Com a ideia de “graça barata”, de graça sem discipulado, em mente, voltemos ao texto de hoje. O que estava acontecendo nesse trecho do evangelho de Lucas?

Na narrativa de Lucas, Jesus está viajando a Jerusalém e é apresentado pelo evangelista como exemplo concreto de como devemos agir. Grandes multidões estão seguindo, empolgadas com Jesus. E é interessante que Lucas insere esse texto logo após a parábola do banquete, onde as pessoas que estão nas ruas são obrigadas a entrar e participar do grande jantar.

Apesar de muitos de nós querermos as igrejas lotadas e fazermos de tudo para trazer gente para os cultos, Jesus adverte severamente as multidões. Quem quiser seguir a Jesus deve agir como ele: desapego total de sua família, de seus bens e de si mesmo. O discipulado exige responsabilidade e decisão, não é um “algo a mais” na nossa vida, uma “melhoradinha”. Seguir a Jesus requer uma transformação radical. O texto que lemos nos convida à solitude, convoca-nos ao isolamento e fixar nossos olhos apenas em Cristo (Bonhoeffer).

Os chamados dos discípulos nos evangelhos são bastante interessantes e estão relacionados ao nosso texto do evangelho. Neles, Jesus está de passagem, vê alguém, chama a pessoa e ela imediatamente deixa tudo e o segue. Bonhoeffer, comentando essa fórmula neotestamentária, diz que não há definição para o discipulado, é apenas o seguimento de Jesus. E o discípulo abandona tudo não por ter presenciado algum milagre ou ouvido algum discurso, mas porque é o Cristo que chama. Ao deixar tudo que tem e que é, ele está abrindo mão de suas seguranças e entregando-se ao desconhecido. Esta, aliás, é a definição de fé: abandonar a segurança do conhecido e entregar-se ao desconhecido.

É nessa atitude de renúncia que reconhecemos e aceitamos a graça divina. Somente quando reconhecemos que nada, nem bens, nem relacionamentos, nem religiões poderão nos satisfazer, que não superaremos nosso estado pecaminoso, é que estaremos prontos a aceitar a graça e abrir mão de tudo que temos para seguir Jesus. Bonhoeffer escreveu: “A única pessoa que tem o direito de dizer que é justificada pela graça somente, é aquela que deixou tudo para seguir Cristo.”

A graça verdadeira é custosa, “porque custa a vida da pessoa”, mas “é graça porque dá à pessoa a única vida verdadeira”. Embora a fala de Jesus pareça ser forte demais para nossos estômagos, ela nos traz esperança porque nos mostra que é possível viver uma fé centrada em Jesus, é possível viver como Jesus viveu e temperar o nosso mundo com justiça e amor. E assim, abrindo mão de tudo, encontraremos a vida plena e abundante. Quando deixarmos de ser quem somos, para caminhar com Cristo, tornaremo-nos livres, porque só quem não está preso aos bens, às relações sociais e a si mesmo é indomável, é guiado pelo vento, que ninguém sabe de onde vem nem para onde vai.

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