Quem queria ver acabou sendo visto

Prédica para o Vigésimo Quarto Domingo Após Pentecostes

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Questão

Nós vamos ouvir hoje a história de uma pessoa que queria ver Jesus e acabou sendo vista por ele. Vocês sabem quem é?

Essa definição bem que poderia se encaixar na vida de muitas pessoas (ou todas?) que se encontraram com Jesus, e pode ser a descrição da salvação de todos nós: queremos ver Jesus, mas é sempre ele quem nos vê primeiro.

Mas um personagem bíblico em que percebemos esse movimento com clareza é na história de Zaqueu.

Lucas 19,1-10

1 Entrando em Jericó, atravessava Jesus a cidade.
2 Eis que um homem, chamado Zaqueu, maioral dos publicanos e rico,
3 procurava ver quem era Jesus, mas não podia, por causa da multidão, por ser ele de pequena estatura.
4 Então, correndo adiante, subiu a um sicômoro a fim de vê-lo, porque por ali havia de passar.
5 Quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa.
6 Ele desceu a toda a pressa e o recebeu com alegria.
7 Todos os que viram isto murmuravam, dizendo que ele se hospedara com homem pecador.
8 Entrementes, Zaqueu se levantou e disse ao Senhor: Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais.
9 Então, Jesus lhe disse: Hoje, houve salvação nesta casa, pois que também este é filho de Abraão.
10 Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido.

Para entender o texto

Jesus está viajando para Jerusalém e, no caminho, ele passa por Jericó.

Jericó não é seu destino final, mas faz parte do caminho que ele precisava percorrer. É interessante que no texto anterior, Jesus cura um cego na entrada de Jericó. Esses dois textos têm paralelos importantes para entendermos a história de Zaqueu, que depois comentaremos.

Lucas afirma que Zaqueu era rico e chefe dos publicanos. Ele não caracteriza Zaqueu de um ponto de vista religioso (não diz que é pecador) nem político, dá apenas uma descrição econômica e social.

Os publicanos eram mal quistos pelos judeus. Eles coletavam impostos para o império romano. Os impostos eram exorbitantes, levavam muitos à falência e os publicanos extorquiam o povo para enriquecerem. Por isso, os judeus os consideravam como traidores.

Ver

Jesus disse que os olhos são a lâmpada do corpo. Isso tem a ver com o texto de hoje, que enfatiza o modo como cada personagem vê a outra e como Jesus transforma nosso jeito de ver o mundo.

Tudo começa com o desejo de Zaqueu de ver quem era Jesus. Percebemos aqui que Zaqueu não queria apenas ver Jesus, mas queria ver quem ele era, ou seja, conhecê-lo com mais profundidade.

Mas seria isso possível? É possível conhecer alguém apenas olhando, de longe? Se já lhe era difícil ver fisicamente Jesus, dada sua baixa estatura física, “quanto mais difícil seria ver a interioridade de Jesus, dada sua baixa estatura moral”. Sem a abertura e reposta de Jesus, seu desejo não poderia ser realizado.

Zaqueu corre à frente da multidão e sobe em um sicômoro, uma árvore grande e densa. Lá em cima, ele estava escondido, anônimo. Ninguém o veria ali. Zaqueu queria ver Jesus, como que espionando. Jesus, porém, olha para ele ostensivamente, chamando a atenção de todos.

Aqui, Lucas usa o mesmo verbo para ver (anablepô) que na perícope anterior (de um cego que é chamado e curado por Jesus). Tanto o cego na entrada de Jericó quanto Zaqueu passam a ver novamente. Contudo, há uma diferença: “O cego queria ver a Jesus, mas não podia por causa de sua cegueira. Zaqueu quer ver quem é Jesus, mas não pode por causa de sua baixa estatura.”  Ele era cego, não fisicamente, mas espiritualmente. Vivia num mundo fechado, sem relações fraternas com seus semelhantes. Não conseguia ver as outras pessoas como semelhantes, como pessoas nas quais Deus habita, pessoas criadas e animadas por Deus, tão dignas de direitos quanto ele. Esse é o pecado do rico e também de muitos nós: a negligência com a humanidade do outro.

O anablepô (olhar para cima) de Jesus tem sobre Zaqueu o efeito de abrir-lhe os olhos e fazê-lo ver os pobres e aqueles a quem defraudara (Lc 19,8). Quando sua cegueira é superada, o rico Zaqueu reconhece a origem de sua riqueza e escolhe uma via radical para pôr-se em dia consigo mesmo.

Pelo olhar de Jesus, que vê o interior daquele chefe de publicanos, seu ser mais profundo, Zaqueu é transformado e passa a viver como filho de Abraão, sua identidade mais profunda, esquecida até mesmo por ele.

Depois de ver Zaqueu e chamar a atenção do povo para ele, Jesus — como sempre — faz o inesperado: chama-o para descer porque ele precisava hospedar-se em sua casa. Como falamos, Jesus estava viajando para Jerusalém, de passagem por Jericó, mas o ato de ver interrompe a sua viagem.

Jesus, no final do texto, diz que naquele dia a salvação entrou naquela casa, que aquele homem também era filho de Abraão e que o filho do homem veio procurar (olhar) e salvar o perdido. Há um toque de ironia na primeira frase de Jesus porque seu nome significa salvação. Ao dizer que a salvação entrou naquela casa, ele está dizendo que ele entrara naquela casa.

O texto nos ensina a ver quem é Zaqueu, quem é Jesus e quem é a multidão. De rico, Zaqueu transforma-se em alguém que redistribui sua riqueza e restitui mais do que a lei previa aquilo que extorquira. De chefe dos publicanos, Zaqueu torna-se filho de Abraão.

Quanto mais próximo estou de Deus, mais percebo que sou pecador

Contudo, enquanto Jesus vê Zaqueu e este é curado de sua cegueira espiritual, a multidão não entende a postura de Jesus e critica Zaqueu. Esses murmuradores acreditam ser puros, separados dos pecadores, mas, curiosamente, não reconhecem a presença de Deus em Jesus Cristo. Essa mesma multidão, que glorificara a Deus na cura do cego físico, não enxergou o milagre da cura da cegueira espiritual de Zaqueu. O pecado os faz cegos para sua própria condição. Estão tão centrados em si que não enxergam o outro que carece de ajuda nem a Deus.

Contrastando com os murmuradores, está a abertura de Zaqueu a Jesus. Ele é um pecador que reconhece seu estado, reconhece que a riqueza não pode lhe dar felicidade e vida plena. Por isso, ele tem fome de Deus.

Alguém disse que devemos ler a Bíblia contra nós. Devemos nos questionar se, em vez de termos o olhar amoroso de Jesus, não somos a multidão que aponta o dedo para aqueles/as que julgamos pecadores/as. Os evangelhos sempre contrastam os pecadores e os religiosos. E, curiosamente, Jesus sempre teve problemas com os últimos.

A multidão que murmura ao ver Jesus entrando na casa de alguém que ela não imaginava é religiosa, ela acredita que precisa fazer e deixar de fazer uma lista de coisas para ser aceita por Deus. Contudo, a religiosidade é algo tóxico. Ela, por ser impossível, nos corrói a alma e nos torna cegos para as outras pessoas.

Jesus questiona esse estilo de vida, revelando-nos que não precisamos agradar a Deus, não precisamos ficar obcecados com o que fazemos ou deixamos de fazer, mas devemos reconhecer seu amor gracioso, que age primeiro em nossas vidas, nos convidando a uma vida nova. Não que ética e boa conduta sejam desnecessárias, mas elas devem brotar de um interior puro, cheio de compaixão.

Gustaf Aulén, um bispo luterano sueco, observou que quanto mais a gente se aproxima de Deus, mais a gente percebe o que nos separa dele. Deus é Santo, por isso, quando nos colocamos diante dele reconhecemos nossos pecados. Ao contemplarmos, percebemos nosso estado de pecado e finitude.

Zaqueu olhou para Jesus, buscando saber quem ele era. Isso me leva a questionar o que que acontece quando a gente olha para Deus e o que nos impede de olhar para ele.

Justificação pela fé

Amanhã, dia 31 de outubro, comemoramos os 499 anos da Reforma Protestante. E o texto de hoje trata de um tema essencial, redescoberto pela Reforma: a justificação pela fé.

Vemos que Zaqueu foi salvo não por ter mudado de atitude, mas por reconhecer-se pecador e necessitado da ação divina. A reconciliação com Deus nos transforma de dentro para fora, por isso, Zaqueu passou a viver diferentemente.

Conversão concreta

O olhar cuidadoso de Jesus sobre Zaqueu levou-o a uma conversão concreta, integral. Sua decisão de caminhar com Cristo transformou suas atitudes, a olhar para o outro com novos olhos, a buscar um mundo onde reine a justiça e a igualdade.

Como ele, existem muitas pessoas deixadas à margem. Que querem ver Jesus, mas são impedidas pelas multidões de nossos dias. O que temos feito para levar essas pessoas a uma nova vida? Temos agido como a multidão, murmurando e acusando, ou como Jesus, que com um olhar diferente, transforma essas pessoas?

Energia

Eu acredito que ser cristão não tem a ver com o que acreditamos, mas com o modo pelo qual enxergamos as coisas. Ser cristão é enxergar-se como filho amado graciosamente de Deus. É enxergar o outro, o diferente, como ser animado pelo Espírito de Deus. É enxergar o mundo como Criação, em que nossa tarefa é cuidar dele, mantendo sua beleza original. É enxergar a Deus não como guerreiro, bravo ou punitivo, mas como Pai e Amor.

Inspirações

http://www.workingpreacher.org/preaching.aspx?commentary_id=2968

http://www.cebi.org.br/noticias.php?noticiaId=7465

http://www.luizcarlosramos.net/foi-buscar-la-e-saiu-tosquiado/

http://www.faculdadejesuita.edu.br/documentos/091111-Lc19110Zaqueu.pdf

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