(In)satisfação

Depois da minha insatisfação com a vida de burocrata da coroa portuguesa, decidi por uma alternativa radical. Alistei-me como marinheiro para chefiar as importações de commodities nas Índias.

O embarque estava marcado para dali quinze dias. Não apareci na casa do governo durante esses dias, aproveitando o tempo para dormir as tardes e beber vinhos de despedidas com meus amigos.

Preenchi uma pequena mala de costas com duas mudas de roupa, uma bússola que recebera de presente do vice-rei, um caderno e uma edição do Quixote.

A ansiedade dissipou ao partir do navio e um sentimento de liberdade nunca antes sentido tomou conta de meu coração.

Não preocupei-me em chegar logo à Índia. Antes contentei-me com estar solto ao mar, confiante de que ele haveria de me guiar.

Deveria ter se passado mais de um mês de nossa partida quando começou a tempestade. O vento quebrou o silêncio e, junto com ele, o mar e os marinheiros começaram a gritar. Ondas assaltaram meus colegas e ventos carregaram a vela. Lutávamos, implorando pelo socorro divino, quando a onda, duas vezes maior do que nosso imponente navio, atingiu-nos em cheio. E assim, engoliu-nos o mar.

Do que se passou imediatamente depois, sei pouco. Senti a força terrível do mar, mas senti que ele me abraçava. Desde que partimos, estranhamente cria, no fundo do coração, que o mar cuidava de mim.

Passado não sei quanto tempo — desconheço o calendário ocidental desde então — acordei numa praia, cercado por homens e mulheres de pele vermelha e cabelos compridos.

Aquele povo tinha tudo em comum, vivia de hortaliças, legumes, cereais e frutas. Não havia entre eles nada de ostentoso. Não ambicionavam nada, amavam a pura vida. Naquele povo, encontrei a vida perdida, distraída, na minha terra.

Abandono agora as palavras, pois encontrei algo mais valioso do que todas elas.

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