Espadas e Arados

Prédica para o Primeiro Domingo do Advento

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    Visão que teve Isaías, filho de Amós, a respeito de Judá e de Jerusalém.
Dias virão em que o monte da casa de Iahweh
será estabelecido no mais alto das montanhas
e se alçará acima de todos os outeiros.
A ele afluirão todas as nações,
muitos povos virão, dizendo:
“Vinde, subamos ao monte de Iahweh,
à casa do Deus de Jacó,
para que ele nos instrua a respeito dos seus caminhos
e assim andemos nas suas veredas.”
Com efeito, de Sião sairá a Lei,
e de Jerusalém, a palavra de Iahweh.
Ele julgará as nações,
corrigirá muitos povos.
Estes quebrarão as suas espadas, transformando-as em relhas,
e suas lanças, a fim de fazerem podadeiras.
Uma nação não levantará a espada contra a outra,
e nem se aprenderá mais a fazer guerra.
Casa de Jacó, vinde, andemos na luz de Iahweh!

(Isaías 2,1-5)

Hoje é o primeiro domingo do Advento, que marca o início do ano litúrgico. Mas, é sempre bom lembrar, o que é o Advento e o que é o ano litúrgico?

O calendário conta anualmente a história da salvação. Ele começa com o Ciclo do Natal (Advento, Natal, Epifania e Batismo do Senhor), segue-se o chamado Tempo Comum, em que somos convidados/as a perceber a presença divina naquilo que é ordinário, depois o Ciclo da Páscoa, centro do ano litúrgico, que compreende a Quaresma, Semana Santa, Páscoa e Pentecostes. Segue-se novamente outro Tempo Comum, mais longo, até o Domingo de Cristo Rei, que encerra o ano.

O objetivo do Ano Litúrgico é centrar as nossas vidas em Jesus Cristo, formando a nossa espiritualidade, criando espaço para que seu Espírito nos molde e nos conectando ao Corpo de Cristo. Como disse o pastor e escritor estadunidense Rob Bell, “o que o calendário da igreja faz é criar espaço para que Jesus nos encontre em toda a gama da experiência humana, para que Deus fale conosco através de todo o espectro, no bom e no mau, na alegria e nas lágrimas”.

O Advento, período em que estamos, compreende os quatro domingos antes do Natal. É um tempo de preparação para a vinda de Jesus. É um tempo de expectativa da chegada do Reino, que já está presente entre nós, mas ainda não em plenitude. O Advento nos ensina que Deus não abandonou o mundo, nossa esperança é real e algo diferente está para acontecer.

O Advento nos convida ao silêncio, para eliminarmos aquilo que nos distrai do que é essencial e focarmos no que é importante. Com isso, certamente perceberemos as dores e a angústia que tentamos esconder de nós mesmos, mas também encontraremos Deus em nosso silêncio, dentro de nós, nos dando esperança.

***

O que nosso texto de hoje tem a nos ensinar sobre o Advento? Como ele pode formar a nossa espiritualidade?

Essa bela poesia do profeta Isaías nos leva a questionar o que nós esperamos. Quais são nossos sonhos? Quais são nossas utopias, ou seja, nossos horizontes? O texto nos ensina a corrigir nossas utopias e, consequentemente, nossas ideias sobre Deus.

É comum pensarmos, como foi bastante divulgado nos últimos anos, que o fim da história será marcado por um Jesus guerreiro, que destruirá aqueles/as que não são como nós. Essa era a esperança que a multidão e mesmo os discípulos colocaram sobre Jesus. Porém, como vimos no domingo passado, o Domingo do Cristo Rei, o próprio Jesus frustrou essa expectativa. Ele não era o messias guerreiro, esperado pelo povo, mas o cordeiro imolado por Deus, aquele que se esvaziou de si e se doou ao mundo.

O texto do profeta Isaías nos ensina a olhar para o futuro como horizonte de esperança, de paz, a esperar um futuro aberto a todos os povos que, sem deixar de lado sua diversidade, vivem em união fraterna e, por isso, transformam as espadas em arados e as lanças em podadeiras.

A esperança de todos os povos indo à Sião, para aprenderem o caminho da paz, podemos ver cumprida já em Pentecostes, que São Pedro interpreta a partir da profecia de Joel 3,1-5, afirmando o derramamento do Espírito Santo sobre toda a carne, ou seja, sobre toda a humanidade e a consequente eliminação das diferenças entre homens e mulheres e entre senhores e servos. Se todos estamos inspirados por Deus, quem somos nós para questionar a legitimidade da experiência religiosa de uma pessoa, pelo simples fato dela não ser cristã?

A esperança de um mundo em que as armas, os instrumentos da morte, são convertidas em instrumentos de vida podemos ver cumprida já na Ressurreição, em que a maior arma do Império, a cruz, é transformada em fonte de nova vida para toda a criação.

A paz perpétua sonhada por Isaías ensina-nos a pensar a Igreja não como um grupo fechado sobre si mesmo, mas como um grupo a serviço do mundo, que demonstra sinais da ressurreição através da conversão dos instrumentos da morte em instrumentos de vida.

***

A tradição cristã nos convida a olhar para o futuro com esperança, a sonharmos com um mundo em que todas as forças da morte sejam superadas pela vida.

Para que a esperança do Advento crie raízes em nós, gostaria de sugerir alguns exercícios para praticarmos durante essas quatro semanas. Não precisamos fazer todos, mas podemos escolher só um e praticá-lo diligentemente.

Sugiro, primeiro, a prática tradicional do jejum, que nos ensina a concentrar nossas forças em Deus e a esperar por ele.

Sugiro, a prática, tão essencial, mas infelizmente tão negligenciada, da oração em silêncio. O Advento é um tempo de silêncio. De silêncio para que se crie em nós espaço para que Deus habite.

Sugiro, por fim, que passemos uma parte da noite, pelo menos, em vigília, aguardando pacientemente a chegada da luz divina.

Que a esperança de um mundo de paz e a certeza vista em Jesus Cristo de que nosso Deus é Deus de paz, nos dê ânimo para peregrinarmos alegres, como testemunhas da Ressurreição.

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