Pessoas de espírito no Antropoceno

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Uma das melhores formas, até agora desenvolvidas, de nomear nossa era, num sentido planetário, é chamando-a “antropoceno”. Pela primeira vez na história da Terra, suas condições de vida são marcadas principalmente pela ação humana. As consequências — olhe pela janela — são claramente horríveis.

Nesse contexto, o que significa sermos pessoas de espírito? Espiritualidade é um termo que vai além das tradições religiosas, porque “espírito” é vento, sopro. Espiritualidade nada mais é do que vitalidade. Ser espiritual, então, significa estar em contato íntimo e constante com o próprio fôlego, em atenção à fonte de vida.

Procuro apresentar aqui algumas chaves de leitura para avaliar a condição humana nesta era, aprendendo principalmente de seus erros.

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Cartografia

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“O inferno não tem limites”, afirma Mefistófeles, na versão de Christopher Marlowe de Fausto. Infelizmente nossa era confundiu liberdade com vida sem limites. Com base nessa lógica, explora-se o planeta sem refletir ou sentir peso na consciência. “Amarás ao Progresso teu Deus com todo o teu dinheiro, de todas as tuas forças e com todos os cálculos.”

Pensamos em liberdade como soberania pessoal. Somos nossos próprios reis e rainhas. Ser indivíduo, nesta lógica, significa ser auto-determinado e auto-afirmativo.

Contudo, como sabiamente descreve a tradição cristã, a liberdade não significa apenas liberdade de, mas também liberdade para. Segundo essa tradição, a liberdade é um dom de Deus e é exercida na comunidade de fé, onde, paradoxalmente, descobrimos nossos limites e, assim, as possibilidades da liberdade.

Não existimos sozinhos, apesar de nossa religião Progresso dizer o contrário. Só é possível existir em relação. Existir é ser ético, é responder livremente às interpelações feitas pelo outro.

As pessoas de espírito no antropoceno devem exercitar-se na descoberta de seus próprios limites, reconhecer a necessidade do outro (não só indivíduo, mas também comunidade) e amadurecer suas respostas às demandas do mundo.

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Poética

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As notícias e expectativas catastróficas dão-nos a ideia de que precisamos agir mais do que já fazemos (se é que fazemos) para barrar os efeitos das mudanças climáticas e de indústrias inconsequentes.

De fato é necessário agir. Mas é preciso reter a noção de que o ativismo incessante é permanecer na lógica do progresso. “Nenhum momento pode ser perdido. Tempo é dinheiro.” Precisamos, mais do que nunca, de uma ruptura com essa lógica.

Como já afirmei em outro lugar, a primeira ação de resistência é parar, silenciar. A não-ação, numa era onde um dos dogmas é “age!”, é subversiva.

Precisamos redescobrir o mistério da vida e do mundo, abraçar — literalmente — a vida. Se é que há redenção, ela está além de nossa mente e toma conta de todo o ser. Precisamos ser criativos — dom do espírito — e descobrir formas novas de viver, além das 8h de escritório, da televisão e do fast-food.

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“Não à revolução!”

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Assim como o progresso é o mote de nossa era, também o é a revolução. Negamos o passado, a tradição e esquecemos — numa linguagem cristã, que o/a leitor/a deve traduzir — que somos criatura e não Criador.

Nossa arrogância é tão grande, que pensamos que nada que foi feito antes e não por nós não vale a pena ser observado e o que fazemos é suficiente para tudo.

Contudo — sinto em lhe dizer — nada criamos do nada e nada somos sem os outros. A tradição não é morta, porque o passado é a fonte de todas as possibilidades do agora e do porvir.

Os gênios do passado não foram inovadores e empreendedores de sucesso, mas intérpretes da tradição. Averróis foi gênio porque intérprete de Aristóteles, Lutero foi gênio porque intérprete de Paulo, etc.

Querer ser um gênio, independente do passado (o que, como vimos, é uma contradição) é querer usurpar o posto divino. Humilde é aquele que por amor a Deus, submete-se ao passado em fiel interpretação e reforma.

Como está escrito em O profeta e a Revolução, do Paulo Brabo, “Para fazer violência contra a revolução do capitalismo é preciso abrir mão da revolução. É preciso escolher as margens. É preciso pisar para fora do sistema.”

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Em suma, o não-dualismo

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Sintetizando o que já foi dito, romper com a lógica do progresso é romper com a mentalidade dualista que ela nos apresenta.

Necessitamos, acima de tudo, ir além da razão e ser pessoas inteiras (com emoção, desejos, doenças, limites); ir além do discurso e  gesticular um novo-velho mundo, através novos-velhos rituais.

Temos que ir além da mentalidade universalista/realista (como, por exemplo, do catolicismo medieval) e do individualismo (este que vivemos). Só é possível abranger o todo quando se é único. A isso, roubando o termo da antropologia, podemos chamar “perspectivismo”.

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(Algumas das) Inspirações

Eduardo Viveiros de Castro. A inconstância da alma selvagem.

Jürgen Moltmann. O Espírito da Vida: Uma Pneumatologia Integral.

Paulo Brabo, O Profeta e a Revolução.

Rui de Souza Josgrilberg. Eclipse de Deus – Intérpretes de Deus.

Wendell Berry. Faustian Economics.

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