Entre o cotidiano e a utopia

Um ensaio sobre espiritualidade e política

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O descontentamento com a vida é hoje algo generalizado. As cidades insanas e os trabalhos enclausurados em escritórios sem sentido angustiam a maioria de nós, levando-nos à depressão e a outras doenças.

Como chegamos a uma situação tão deplorável, de destruição do planeta, de estilos de vida baseados no consumo e de trabalhos enlouquecedores? Como encontrar sentido, tranquilidade e harmonia em nossas vidas? Essas questões, centrais a nosso tempo, assim como a pobreza que assola a milhões, são problemas ao mesmo tempo políticos e espirituais.

Não é possível sair da crise ética — referente ao nosso estilo de vida — e econômica — referente à nossa forma de produzir os itens necessários à vida — que vivenciamos sem o redescobrimento da política como a busca pelo bem comum ou o fim último do ser humano — como em Aristóteles — e da espiritualidade, isto é, a capacidade de introspecção, de viver em harmonia com a Verdade mais profunda.

Acontece, porém, que temos uma degeneração da política, tornada em fisiologismo e busca de autopromoção (o que, por definição, é uma antipolítica, visto que política é a busca pelo bem comum); e da espiritualidade, transformada em individualismo e autoajuda (mais uma vez, uma contradição, dado que espiritualidade é a superação do ego em favor do Outro).

Como podemos, então, descobrir o real significado, na prática, de política e espiritualidade?

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Antes de tudo, porém, reconheçamos que política e espiritualidade formam apenas uma distinção didática da vida, que quando saudavelmente experimentada, é indivisa. Não é possível ser político sem ser espiritual e vice-versa. A luta constante pela justiça (política) brota de um desejo profundo, escondido em todo ser humano (espiritualidade).

Isso, é claro, não exclui pessoas irreligiosas da categoria do bem viver e da política, porque é possível ser espiritual sem ser religioso.

Se a indistinguibilidade prática de política e espiritualidade exclui religiosos apolíticos é uma questão mais complicada. Ser apolítico é uma posição política porque tudo é política, tudo envolve um jogo de forças. Porém, ser apolítico, no sentido de não se importar com este mundo, num ascetismo barato, é uma postura anti-espiritual, porque a espiritualidade não é a negação do mundo, mas a comunhão com o Transcendente para melhor viver no mundo.

Voltando à questão de como pensar a prática político-espiritual em nossa América Latina no nosso século, creio que os três elementos apresentados por Julio de Santa Ana, ao falar do convite feito pela Sabedoria divina à resistir a opressão, podem nos ajudar. Esses três elementos são: metanoia, enlace orgânico e intercâmbio.

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O primeiro passo é desenvolver uma nova consciência ética, ou seja, a metanoia. Essa palavra grega, utilizada para designar conversão no Novo Testamento, significa literalmente uma expansão de consciência. O primeiro passo para viver integralmente, reconhecendo o entrelaçamento entre política e espiritualidade, é romper com o antigo estilo de vida, de reprodução mimética do estilo de vida baseado no consumo.

Deve-se, paradoxalmente, romper com o individualismo de nossa sociedade, reconhecendo que o Outro é digno dos mesmos direitos que eu, ao descobrir-se um ser humano único, desenvolvendo autenticidade, sendo quem se é, em vez de ser quem dizem que deve ser.

Em segundo lugar, deve-se viver no que Julio de Santa Ana chama de comunidade de partilha (enlace orgânico), ou seja, comunidades de resistência à dominação física e psicológica a que estamos sujeitos. Não é possível resistir sozinho. Andar sozinho só é possível no “sonho americano” (sic) e mesmo assim, não passa de uma falsa individualidade, já que por mais que o estilo de vida capitalista apenas proponha o individualismo, todos os seus súditos soam e aparentam iguais.

Por fim, e de central importância, é preciso criar redes com outras comunidades (intercâmbio). Como aponta Emanuel Lévinas, todo ser humano tem o desejo pelo infinito (espiritualidade), que se realiza, embora nunca totalmente, na abertura ao Outro (política). É necessário romper a lógica capitalista da relação Eu-Isso (relação com objeto) e redescobrir o outro como Tu (como sujeito), como nos ensina Martin Buber.

Para que um grupo não se fetichize, não se totalize, e continue alimentando sua espiritualidade, ou seja, seu desejo pelo infinito, ele precisa constantemente abrir-se àqueles que estão do lado de fora. Por isso, toda religião, quando fecha-se sobre si mesma, sem dialogar com as outras, condena sua mística ao esquecimento, ao passado.

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Redescobrindo-se um estilo de vida mais profundo, ciente de sua própria dignidade como ser humano, em contato com o Sagrado, e da necessidade do Outro para o bem viver, reconheceremos que política e espiritualidade andam sempre de mãos dadas e que qualquer separação diminui a vitalidade de cada um e cada uma de nós.

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