Teologia e Mística: Elementos da teologia de Santo Atanásio

athanasius

Se tem algo que me encanta na teologia, não são as aulas de anatomia divina, as convicções metafísicas ou o conforto de um deus-funcionário-a-meu-serviço.

O que me faz deslumbrar nesse eterno curso é justamente o fato de tocar — mesmo que muitos ditos teólogos não percebam — a linha mais sensível do ser gente humana. E nisso, os teólogos antigos dão de dez a zero nos atuais. Como disse um deles, Evágrio do Ponto, teólogo é quem ora.

Isso não quer dizer que teólogo é aquela pessoa que mantém crenças supersticiosas, mas que é aquele que as critica justamente por buscar contato profundo com o Real. Teólogos são místicos.

Comecei a ler as entrelinhas (a mística nunca está nas linhas, está sempre além) dos teólogos antigos com mais seriedade através das letras de Santo Atanásio de Alexandria.

No início de seu livro A Encarnação do Verbo, o Pai da Igreja defende, contra a mentalidade grega dominante, que Deus não apenas organizara o que já existia, mas criara o mundo do nada. A nós, pessoas totalmente desconhecidas do mistério, isso parece sem sentido. Contudo, Atanásio reconhecia que Deus é Criador porque ele encontrava seu Ser no mundo. A própria realidade está sustentada em Deus, que é seu fundamento ontológico. Como dirá Paul Tillich quase dois milênios depois, Deus é o chão da existência.

Atanásio relembra continuamente uma afirmação das Escrituras Cristãs: o mundo foi criado por meio do Verbo. Traduzindo, poderíamos dizer que em tudo há a impressão digital, a assinatura de Cristo, porque por meio dele tudo foi criado. O mundo foi criado através do amor incondicional, do dom-de-si e do serviço e manifesta essas características em tudo que existe.

A teologia mística (com o perdão do pleonasmo), convida-nos a abraçar a realidade, a percebê-la com todos os sentidos, para além das elucubrações loucas que o ocidente nos ensinou.

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