O caminho largo é cheio de regras

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Prédica para o Quinto Domingo Após a Epifania

13 Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens.
14 Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte;
15 nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa.
16 Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.
17 Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir.
18 Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra.
19 Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus.
20 Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.

~Mateus 5,13-20

O Evangelho de Mateus, diferentemente de Marcos, que é centrado na paixão de Cristo, concentra-se no ministério de Jesus. A comunidade mateana compilou no seu evangelho cinco grandes discursos de Jesus, apresentando o seu ensino como fundamento ecumênico da Igreja.

Um de seus temas essenciais, portanto, é o senhorio de Cristo. Dada a centralidade de seus ensinamentos, o papel de cada discípula e discípulo é submeter-se exclusivamente a ele. Por negarem o senhorio do imperador, substituindo a afirmação “César é Senhor” por “Jesus é Senhor”, as/os cristãs/ãos primitivas/os foram consideradas/os uma ameaça ao Império Romano.

Dentro de um cristianismo que deixou de ler o Evangelho, reduzindo a importância do Filho de Deus à sua morte e ressurreição, esquecendo-se de sua vida e ministério, e dentro de um cristianismo que se submeteu aos poderes deste mundo, ler o Evangelho de Mateus é um ato radical, de voltar às raízes de um cristianismo ético, vivenciado aqui e agora, e que demanda de nós a rejeição de todo poder constituído, afirmando que apenas Jesus Cristo é o Senhor.

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Voltando a nossa atenção ao texto lido, apresenta-se diante de nós a seguinte questão: o que Jesus quis dizer quando afirmou que ele não veio revogar a Lei, mas para cumpri-la?

Essa pergunta fica ainda mais complicada quando olhamos para o versículo 20, em que Jesus afirma que a nossa justiça deve “exceder em muito a dos escribas e fariseus” para participarmos da Nova Realidade que ele está inaugurando.

Os escribas e fariseus eram famosos na época de Jesus por serem exímios cumpridores ipsis litteris da Lei, aqueles que mais conheciam a Lei e que mais fiel e rigidamente a cumpriam. Por isso viviam a condenar o povo, que não era capaz, dado o fardo pesado imposto pelos fariseus, de viver no mesmo nível de obediência que eles. E por isso também as sucessivas tentativas de silenciar Jesus quando o pegam relativizando a Lei, fazendo uma interpretação diferente.

O que Jesus está apresentando, portanto, é uma mudança de ponto de vista: não basta obedecer a Lei, fazer por fazer, não adianta lermos muito ou orarmos muito se isso não provocar mudança interior. É preciso ler e orar diferentemente, como forma de abrirmo-nos à presença divina. E é mais importante salvar uma vida do que obedecer às Escrituras.

Jesus, ao longo de todo o Sermão da Montanha, em que ele por vezes desdiz a Lei – “ouvistes o que foi dito, eu porém vos digo” – a radicaliza. Cumprir toda a Lei tem a ver com integridade, com dispor todo nosso ser a vive-la e, para isso, não basta apenas uma lista de regras do que podemos ou não fazer, é preciso seguir o Espírito da Lei, ou seja, ir aonde ela aponta.

E quando olhamos para a Bíblia – que não é um manual, um conjunto de regras, como os fariseus criam, mas uma coleção de poesias, histórias e críticas à sociedade vigente – percebemos que Lei foi criada com a intenção de instigar o povo ao amor, à justiça, à libertação das/os oprimidas/os e à liberdade.

Cumprir toda a lei, em resumo, é estar em comunhão com o Espírito que a inspirou e vivenciar, no cotidiano, o cuidar da terra, da gente sofrida e lutar por sua libertação.

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É tentador reduzir a fé e a ética a uma lista de proibições. Há em toda a existência humana uma tensão entre regras (a Lei) e a liberdade. Esta abre portas, caminhos novos, de descobrimento de nós mesmos, de Deus e do mundo, mas é exigente: somos obrigados/as a assumir a responsabilidade pelo que fazemos e deixamos de fazer. As regras, por outro lado, são confortantes, fáceis e nos fazem acreditar que, se as obedecermos, seremos recompensados/as.

Contudo, Jesus nega completamente a ideia de que Deus recompensa a obediência e mostra-nos que “uma ética de conduta regida por proibições é limitada e infantilizante” (BRABO, 2015). O mestre de Nazaré nos convida a ir além da mesquinharia do medo da punição e do desejo da recompensa e abraçar a vida tal como ela é, em liberdade e com maturidade.

Como afirma a Epístola aos Colossenses, as regras do tipo “não faça isso”, “não toque naquilo”, apenas possuem “aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade”.

A mensagem de Jesus aos fariseus de seu tempo e aos fariseus presentes em nossas igrejas hoje é o desarmante reconhecimento de que o caminho largo é cheio de regras e o caminho estreito é a liberdade.

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Quando aceitamos o convite de seguir Jesus, nos dispusemos a viver uma justiça que excede em muito a dos fariseus, a vivermos como o Filho de Deus, que é, nas palavras de São Paulo, o Novo Adão, aquele que veio restaurar a plena humanidade, nos comprometemos a sermos pessoas maduras e livres como Jesus.

Jesus nos convida a superarmos a religiosidade do medo, da proibição e da regra e descobrirmos a sua espiritualidade leve. Só assim, sendo seres humanos maduros e livres, seremos sal e luz. O mundo precisa de pessoas livres como Jesus, para lhe temperar e iluminar.

Para sermos de fato sal e luz precisamos da contemplação, dos momentos de solitude e silêncio, para nos esvaziarmos de nossos desejos, pensamentos e preocupações e sermos preenchidos/as por Cristo. Através da contemplação, portanto, exploramos as “profundezas de Deus” (1 Co 2,10) e somos levados/as a transformar o mundo com tamanha revelação.

Porém, a vida cristã não é apenas vida contemplativa, é também vida ativa. Iluminados/as pelo amor que é Deus, somos conduzidos/as a denunciarmos as transgressões de nossa sociedade, soltarmos as ligaduras da impiedade, as ataduras da servidão, deixarmos livres os oprimidos, despedaçarmos todo jugo, repartirmos o pão com o faminto, recolhermos em casa os pobres desabrigados, cobrirmos o nu e não nos escondermos do nosso semelhante (Is 58,6-7).

Assim, vivendo como contemplativos/as e ativistas, seguindo o Espírito Libertador na labuta diária pela felicidade humana e da terra, seremos, enfim, sal da terra e luz do mundo.

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