Natal: o amor que transborda da eternidade para o tempo

Rembrandt - The Nativity (1646)

Apesar de possuirmos histórias de vida muito diferentes, é verdade que a história do Natal encanta a todos nós. Sua singela grandeza nos move a contemplarmos o mistério da vida.

A história do Natal nos mostra que Deus, a realidade última do universo, não está distante de nós, sentado num trono, ditando as regras e punindo insensivelmente aqueles que transgridem. O Natal nos faz contemplar “Deus revelando a profundidade da vida divina”, transbordando um amor que brota “da eternidade para a história”. No Natal, vemos com clareza que “a própria natureza de Deus é compartilhar a vida” e que “não há nada de Deus que não seja compartilhado, que não seja doado.” (Rowan Williams)

Ao nos mostrar Deus entrando na história humana, o Natal nos dá esperança. Nos mostra que apesar da maldade e do sofrimento que somos capazes de perpetrar, “a humanidade não é uma causa perdida”. Nós somos hóspedes da graça e do amor divinos — hospitalidade que relembramos continuamente na Eucaristia (Rowan Williams).

A história do Natal é um evento que se concretiza a cada momento e alcançou sua plenitude na ressurreição de Jesus, em que a sutileza, a suavidade, a compaixão e a simplicidade triunfam sobre a força e a ostentação do poder.

Deus veio ao nosso encontro. Essa é a mensagem do Natal, evento que nos desafia à virtude de não tentar conquistar as coisas pela força, mas aceitar com gratidão a graça da vida. O nascimento de Jesus nos convida a confiar que Deus nos conhece antes mesmo de nós o conhecermos; nos escolhe para viver uma vida diferente daquilo que a sociedade exige, uma vida única e autêntica; e nos entrega ao mundo, para espalhar a Nova Realidade, a Nova Vida, baseada na simplicidade e no amor (Eugene Peterson).

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Inspirações

Eugene Peterson. Corra com os cavalos.
Rowan Williams. A Good Christmas.
Thomas Schenk – The Tao of Christmas.

Pessoas de espírito no Antropoceno

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Uma das melhores formas, até agora desenvolvidas, de nomear nossa era, num sentido planetário, é chamando-a “antropoceno”. Pela primeira vez na história da Terra, suas condições de vida são marcadas principalmente pela ação humana. As consequências — olhe pela janela — são claramente horríveis.

Nesse contexto, o que significa sermos pessoas de espírito? Espiritualidade é um termo que vai além das tradições religiosas, porque “espírito” é vento, sopro. Espiritualidade nada mais é do que vitalidade. Ser espiritual, então, significa estar em contato íntimo e constante com o próprio fôlego, em atenção à fonte de vida.

Procuro apresentar aqui algumas chaves de leitura para avaliar a condição humana nesta era, aprendendo principalmente de seus erros.

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Cartografia

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“O inferno não tem limites”, afirma Mefistófeles, na versão de Christopher Marlowe de Fausto. Infelizmente nossa era confundiu liberdade com vida sem limites. Com base nessa lógica, explora-se o planeta sem refletir ou sentir peso na consciência. “Amarás ao Progresso teu Deus com todo o teu dinheiro, de todas as tuas forças e com todos os cálculos.”

Pensamos em liberdade como soberania pessoal. Somos nossos próprios reis e rainhas. Ser indivíduo, nesta lógica, significa ser auto-determinado e auto-afirmativo.

Contudo, como sabiamente descreve a tradição cristã, a liberdade não significa apenas liberdade de, mas também liberdade para. Segundo essa tradição, a liberdade é um dom de Deus e é exercida na comunidade de fé, onde, paradoxalmente, descobrimos nossos limites e, assim, as possibilidades da liberdade.

Não existimos sozinhos, apesar de nossa religião Progresso dizer o contrário. Só é possível existir em relação. Existir é ser ético, é responder livremente às interpelações feitas pelo outro.

As pessoas de espírito no antropoceno devem exercitar-se na descoberta de seus próprios limites, reconhecer a necessidade do outro (não só indivíduo, mas também comunidade) e amadurecer suas respostas às demandas do mundo.

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Poética

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As notícias e expectativas catastróficas dão-nos a ideia de que precisamos agir mais do que já fazemos (se é que fazemos) para barrar os efeitos das mudanças climáticas e de indústrias inconsequentes.

De fato é necessário agir. Mas é preciso reter a noção de que o ativismo incessante é permanecer na lógica do progresso. “Nenhum momento pode ser perdido. Tempo é dinheiro.” Precisamos, mais do que nunca, de uma ruptura com essa lógica.

Como já afirmei em outro lugar, a primeira ação de resistência é parar, silenciar. A não-ação, numa era onde um dos dogmas é “age!”, é subversiva.

Precisamos redescobrir o mistério da vida e do mundo, abraçar — literalmente — a vida. Se é que há redenção, ela está além de nossa mente e toma conta de todo o ser. Precisamos ser criativos — dom do espírito — e descobrir formas novas de viver, além das 8h de escritório, da televisão e do fast-food.

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“Não à revolução!”

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Assim como o progresso é o mote de nossa era, também o é a revolução. Negamos o passado, a tradição e esquecemos — numa linguagem cristã, que o/a leitor/a deve traduzir — que somos criatura e não Criador.

Nossa arrogância é tão grande, que pensamos que nada que foi feito antes e não por nós não vale a pena ser observado e o que fazemos é suficiente para tudo.

Contudo — sinto em lhe dizer — nada criamos do nada e nada somos sem os outros. A tradição não é morta, porque o passado é a fonte de todas as possibilidades do agora e do porvir.

Os gênios do passado não foram inovadores e empreendedores de sucesso, mas intérpretes da tradição. Averróis foi gênio porque intérprete de Aristóteles, Lutero foi gênio porque intérprete de Paulo, etc.

Querer ser um gênio, independente do passado (o que, como vimos, é uma contradição) é querer usurpar o posto divino. Humilde é aquele que por amor a Deus, submete-se ao passado em fiel interpretação e reforma.

Como está escrito em O profeta e a Revolução, do Paulo Brabo, “Para fazer violência contra a revolução do capitalismo é preciso abrir mão da revolução. É preciso escolher as margens. É preciso pisar para fora do sistema.”

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Em suma, o não-dualismo

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Sintetizando o que já foi dito, romper com a lógica do progresso é romper com a mentalidade dualista que ela nos apresenta.

Necessitamos, acima de tudo, ir além da razão e ser pessoas inteiras (com emoção, desejos, doenças, limites); ir além do discurso e  gesticular um novo-velho mundo, através novos-velhos rituais.

Temos que ir além da mentalidade universalista/realista (como, por exemplo, do catolicismo medieval) e do individualismo (este que vivemos). Só é possível abranger o todo quando se é único. A isso, roubando o termo da antropologia, podemos chamar “perspectivismo”.

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(Algumas das) Inspirações

Eduardo Viveiros de Castro. A inconstância da alma selvagem.

Jürgen Moltmann. O Espírito da Vida: Uma Pneumatologia Integral.

Paulo Brabo, O Profeta e a Revolução.

Rui de Souza Josgrilberg. Eclipse de Deus – Intérpretes de Deus.

Wendell Berry. Faustian Economics.

Espadas e Arados

Prédica para o Primeiro Domingo do Advento

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    Visão que teve Isaías, filho de Amós, a respeito de Judá e de Jerusalém.
Dias virão em que o monte da casa de Iahweh
será estabelecido no mais alto das montanhas
e se alçará acima de todos os outeiros.
A ele afluirão todas as nações,
muitos povos virão, dizendo:
“Vinde, subamos ao monte de Iahweh,
à casa do Deus de Jacó,
para que ele nos instrua a respeito dos seus caminhos
e assim andemos nas suas veredas.”
Com efeito, de Sião sairá a Lei,
e de Jerusalém, a palavra de Iahweh.
Ele julgará as nações,
corrigirá muitos povos.
Estes quebrarão as suas espadas, transformando-as em relhas,
e suas lanças, a fim de fazerem podadeiras.
Uma nação não levantará a espada contra a outra,
e nem se aprenderá mais a fazer guerra.
Casa de Jacó, vinde, andemos na luz de Iahweh!

(Isaías 2,1-5)

Hoje é o primeiro domingo do Advento, que marca o início do ano litúrgico. Mas, é sempre bom lembrar, o que é o Advento e o que é o ano litúrgico?

O calendário conta anualmente a história da salvação. Ele começa com o Ciclo do Natal (Advento, Natal, Epifania e Batismo do Senhor), segue-se o chamado Tempo Comum, em que somos convidados/as a perceber a presença divina naquilo que é ordinário, depois o Ciclo da Páscoa, centro do ano litúrgico, que compreende a Quaresma, Semana Santa, Páscoa e Pentecostes. Segue-se novamente outro Tempo Comum, mais longo, até o Domingo de Cristo Rei, que encerra o ano.

O objetivo do Ano Litúrgico é centrar as nossas vidas em Jesus Cristo, formando a nossa espiritualidade, criando espaço para que seu Espírito nos molde e nos conectando ao Corpo de Cristo. Como disse o pastor e escritor estadunidense Rob Bell, “o que o calendário da igreja faz é criar espaço para que Jesus nos encontre em toda a gama da experiência humana, para que Deus fale conosco através de todo o espectro, no bom e no mau, na alegria e nas lágrimas”.

O Advento, período em que estamos, compreende os quatro domingos antes do Natal. É um tempo de preparação para a vinda de Jesus. É um tempo de expectativa da chegada do Reino, que já está presente entre nós, mas ainda não em plenitude. O Advento nos ensina que Deus não abandonou o mundo, nossa esperança é real e algo diferente está para acontecer.

O Advento nos convida ao silêncio, para eliminarmos aquilo que nos distrai do que é essencial e focarmos no que é importante. Com isso, certamente perceberemos as dores e a angústia que tentamos esconder de nós mesmos, mas também encontraremos Deus em nosso silêncio, dentro de nós, nos dando esperança.

***

O que nosso texto de hoje tem a nos ensinar sobre o Advento? Como ele pode formar a nossa espiritualidade?

Essa bela poesia do profeta Isaías nos leva a questionar o que nós esperamos. Quais são nossos sonhos? Quais são nossas utopias, ou seja, nossos horizontes? O texto nos ensina a corrigir nossas utopias e, consequentemente, nossas ideias sobre Deus.

É comum pensarmos, como foi bastante divulgado nos últimos anos, que o fim da história será marcado por um Jesus guerreiro, que destruirá aqueles/as que não são como nós. Essa era a esperança que a multidão e mesmo os discípulos colocaram sobre Jesus. Porém, como vimos no domingo passado, o Domingo do Cristo Rei, o próprio Jesus frustrou essa expectativa. Ele não era o messias guerreiro, esperado pelo povo, mas o cordeiro imolado por Deus, aquele que se esvaziou de si e se doou ao mundo.

O texto do profeta Isaías nos ensina a olhar para o futuro como horizonte de esperança, de paz, a esperar um futuro aberto a todos os povos que, sem deixar de lado sua diversidade, vivem em união fraterna e, por isso, transformam as espadas em arados e as lanças em podadeiras.

A esperança de todos os povos indo à Sião, para aprenderem o caminho da paz, podemos ver cumprida já em Pentecostes, que São Pedro interpreta a partir da profecia de Joel 3,1-5, afirmando o derramamento do Espírito Santo sobre toda a carne, ou seja, sobre toda a humanidade e a consequente eliminação das diferenças entre homens e mulheres e entre senhores e servos. Se todos estamos inspirados por Deus, quem somos nós para questionar a legitimidade da experiência religiosa de uma pessoa, pelo simples fato dela não ser cristã?

A esperança de um mundo em que as armas, os instrumentos da morte, são convertidas em instrumentos de vida podemos ver cumprida já na Ressurreição, em que a maior arma do Império, a cruz, é transformada em fonte de nova vida para toda a criação.

A paz perpétua sonhada por Isaías ensina-nos a pensar a Igreja não como um grupo fechado sobre si mesmo, mas como um grupo a serviço do mundo, que demonstra sinais da ressurreição através da conversão dos instrumentos da morte em instrumentos de vida.

***

A tradição cristã nos convida a olhar para o futuro com esperança, a sonharmos com um mundo em que todas as forças da morte sejam superadas pela vida.

Para que a esperança do Advento crie raízes em nós, gostaria de sugerir alguns exercícios para praticarmos durante essas quatro semanas. Não precisamos fazer todos, mas podemos escolher só um e praticá-lo diligentemente.

Sugiro, primeiro, a prática tradicional do jejum, que nos ensina a concentrar nossas forças em Deus e a esperar por ele.

Sugiro, a prática, tão essencial, mas infelizmente tão negligenciada, da oração em silêncio. O Advento é um tempo de silêncio. De silêncio para que se crie em nós espaço para que Deus habite.

Sugiro, por fim, que passemos uma parte da noite, pelo menos, em vigília, aguardando pacientemente a chegada da luz divina.

Que a esperança de um mundo de paz e a certeza vista em Jesus Cristo de que nosso Deus é Deus de paz, nos dê ânimo para peregrinarmos alegres, como testemunhas da Ressurreição.

(In)satisfação

Depois da minha insatisfação com a vida de burocrata da coroa portuguesa, decidi por uma alternativa radical. Alistei-me como marinheiro para chefiar as importações de commodities nas Índias.

O embarque estava marcado para dali quinze dias. Não apareci na casa do governo durante esses dias, aproveitando o tempo para dormir as tardes e beber vinhos de despedidas com meus amigos.

Preenchi uma pequena mala de costas com duas mudas de roupa, uma bússola que recebera de presente do vice-rei, um caderno e uma edição do Quixote.

A ansiedade dissipou ao partir do navio e um sentimento de liberdade nunca antes sentido tomou conta de meu coração.

Não preocupei-me em chegar logo à Índia. Antes contentei-me com estar solto ao mar, confiante de que ele haveria de me guiar.

Deveria ter se passado mais de um mês de nossa partida quando começou a tempestade. O vento quebrou o silêncio e, junto com ele, o mar e os marinheiros começaram a gritar. Ondas assaltaram meus colegas e ventos carregaram a vela. Lutávamos, implorando pelo socorro divino, quando a onda, duas vezes maior do que nosso imponente navio, atingiu-nos em cheio. E assim, engoliu-nos o mar.

Do que se passou imediatamente depois, sei pouco. Senti a força terrível do mar, mas senti que ele me abraçava. Desde que partimos, estranhamente cria, no fundo do coração, que o mar cuidava de mim.

Passado não sei quanto tempo — desconheço o calendário ocidental desde então — acordei numa praia, cercado por homens e mulheres de pele vermelha e cabelos compridos.

Aquele povo tinha tudo em comum, vivia de hortaliças, legumes, cereais e frutas. Não havia entre eles nada de ostentoso. Não ambicionavam nada, amavam a pura vida. Naquele povo, encontrei a vida perdida, distraída, na minha terra.

Abandono agora as palavras, pois encontrei algo mais valioso do que todas elas.

Epifania da Liberdade

Epifania do dia.

Veio-me à mente a seguinte questão: o que preciso para ser feliz?

A resposta foi pronta: isto.sieger-koder-mulher-no-poco

***

Liberdade é saber que não precisamos de nada para sermos felizes.

Liberdade é saber que mesmo perdendo tudo, ainda seremos felizes.

Porque a felicidade não consiste no que temos ou somos, não está em coisas exteriores, mas dentro da gente. Porque ser feliz é estar em contato com o centro de nosso ser.

Liberdade é saber que podemos ser felizes mesmo em meio às nossas imperfeições, vulnerabilidades e fraquezas.

Liberdade é aceitar que a felicidade é gratuidade.

Essa é a lição de todos os mestres espirituais.

Só encontramos o sentido da vida, o divino, dentro da gente.

E a felicidade é sempre uma experiência de graça.

Quem queria ver acabou sendo visto

Prédica para o Vigésimo Quarto Domingo Após Pentecostes

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Questão

Nós vamos ouvir hoje a história de uma pessoa que queria ver Jesus e acabou sendo vista por ele. Vocês sabem quem é?

Essa definição bem que poderia se encaixar na vida de muitas pessoas (ou todas?) que se encontraram com Jesus, e pode ser a descrição da salvação de todos nós: queremos ver Jesus, mas é sempre ele quem nos vê primeiro.

Mas um personagem bíblico em que percebemos esse movimento com clareza é na história de Zaqueu.

Lucas 19,1-10

1 Entrando em Jericó, atravessava Jesus a cidade.
2 Eis que um homem, chamado Zaqueu, maioral dos publicanos e rico,
3 procurava ver quem era Jesus, mas não podia, por causa da multidão, por ser ele de pequena estatura.
4 Então, correndo adiante, subiu a um sicômoro a fim de vê-lo, porque por ali havia de passar.
5 Quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa.
6 Ele desceu a toda a pressa e o recebeu com alegria.
7 Todos os que viram isto murmuravam, dizendo que ele se hospedara com homem pecador.
8 Entrementes, Zaqueu se levantou e disse ao Senhor: Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais.
9 Então, Jesus lhe disse: Hoje, houve salvação nesta casa, pois que também este é filho de Abraão.
10 Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido.

Para entender o texto

Jesus está viajando para Jerusalém e, no caminho, ele passa por Jericó.

Jericó não é seu destino final, mas faz parte do caminho que ele precisava percorrer. É interessante que no texto anterior, Jesus cura um cego na entrada de Jericó. Esses dois textos têm paralelos importantes para entendermos a história de Zaqueu, que depois comentaremos.

Lucas afirma que Zaqueu era rico e chefe dos publicanos. Ele não caracteriza Zaqueu de um ponto de vista religioso (não diz que é pecador) nem político, dá apenas uma descrição econômica e social.

Os publicanos eram mal quistos pelos judeus. Eles coletavam impostos para o império romano. Os impostos eram exorbitantes, levavam muitos à falência e os publicanos extorquiam o povo para enriquecerem. Por isso, os judeus os consideravam como traidores.

Ver

Jesus disse que os olhos são a lâmpada do corpo. Isso tem a ver com o texto de hoje, que enfatiza o modo como cada personagem vê a outra e como Jesus transforma nosso jeito de ver o mundo.

Tudo começa com o desejo de Zaqueu de ver quem era Jesus. Percebemos aqui que Zaqueu não queria apenas ver Jesus, mas queria ver quem ele era, ou seja, conhecê-lo com mais profundidade.

Mas seria isso possível? É possível conhecer alguém apenas olhando, de longe? Se já lhe era difícil ver fisicamente Jesus, dada sua baixa estatura física, “quanto mais difícil seria ver a interioridade de Jesus, dada sua baixa estatura moral”. Sem a abertura e reposta de Jesus, seu desejo não poderia ser realizado.

Zaqueu corre à frente da multidão e sobe em um sicômoro, uma árvore grande e densa. Lá em cima, ele estava escondido, anônimo. Ninguém o veria ali. Zaqueu queria ver Jesus, como que espionando. Jesus, porém, olha para ele ostensivamente, chamando a atenção de todos.

Aqui, Lucas usa o mesmo verbo para ver (anablepô) que na perícope anterior (de um cego que é chamado e curado por Jesus). Tanto o cego na entrada de Jericó quanto Zaqueu passam a ver novamente. Contudo, há uma diferença: “O cego queria ver a Jesus, mas não podia por causa de sua cegueira. Zaqueu quer ver quem é Jesus, mas não pode por causa de sua baixa estatura.”  Ele era cego, não fisicamente, mas espiritualmente. Vivia num mundo fechado, sem relações fraternas com seus semelhantes. Não conseguia ver as outras pessoas como semelhantes, como pessoas nas quais Deus habita, pessoas criadas e animadas por Deus, tão dignas de direitos quanto ele. Esse é o pecado do rico e também de muitos nós: a negligência com a humanidade do outro.

O anablepô (olhar para cima) de Jesus tem sobre Zaqueu o efeito de abrir-lhe os olhos e fazê-lo ver os pobres e aqueles a quem defraudara (Lc 19,8). Quando sua cegueira é superada, o rico Zaqueu reconhece a origem de sua riqueza e escolhe uma via radical para pôr-se em dia consigo mesmo.

Pelo olhar de Jesus, que vê o interior daquele chefe de publicanos, seu ser mais profundo, Zaqueu é transformado e passa a viver como filho de Abraão, sua identidade mais profunda, esquecida até mesmo por ele.

Depois de ver Zaqueu e chamar a atenção do povo para ele, Jesus — como sempre — faz o inesperado: chama-o para descer porque ele precisava hospedar-se em sua casa. Como falamos, Jesus estava viajando para Jerusalém, de passagem por Jericó, mas o ato de ver interrompe a sua viagem.

Jesus, no final do texto, diz que naquele dia a salvação entrou naquela casa, que aquele homem também era filho de Abraão e que o filho do homem veio procurar (olhar) e salvar o perdido. Há um toque de ironia na primeira frase de Jesus porque seu nome significa salvação. Ao dizer que a salvação entrou naquela casa, ele está dizendo que ele entrara naquela casa.

O texto nos ensina a ver quem é Zaqueu, quem é Jesus e quem é a multidão. De rico, Zaqueu transforma-se em alguém que redistribui sua riqueza e restitui mais do que a lei previa aquilo que extorquira. De chefe dos publicanos, Zaqueu torna-se filho de Abraão.

Quanto mais próximo estou de Deus, mais percebo que sou pecador

Contudo, enquanto Jesus vê Zaqueu e este é curado de sua cegueira espiritual, a multidão não entende a postura de Jesus e critica Zaqueu. Esses murmuradores acreditam ser puros, separados dos pecadores, mas, curiosamente, não reconhecem a presença de Deus em Jesus Cristo. Essa mesma multidão, que glorificara a Deus na cura do cego físico, não enxergou o milagre da cura da cegueira espiritual de Zaqueu. O pecado os faz cegos para sua própria condição. Estão tão centrados em si que não enxergam o outro que carece de ajuda nem a Deus.

Contrastando com os murmuradores, está a abertura de Zaqueu a Jesus. Ele é um pecador que reconhece seu estado, reconhece que a riqueza não pode lhe dar felicidade e vida plena. Por isso, ele tem fome de Deus.

Alguém disse que devemos ler a Bíblia contra nós. Devemos nos questionar se, em vez de termos o olhar amoroso de Jesus, não somos a multidão que aponta o dedo para aqueles/as que julgamos pecadores/as. Os evangelhos sempre contrastam os pecadores e os religiosos. E, curiosamente, Jesus sempre teve problemas com os últimos.

A multidão que murmura ao ver Jesus entrando na casa de alguém que ela não imaginava é religiosa, ela acredita que precisa fazer e deixar de fazer uma lista de coisas para ser aceita por Deus. Contudo, a religiosidade é algo tóxico. Ela, por ser impossível, nos corrói a alma e nos torna cegos para as outras pessoas.

Jesus questiona esse estilo de vida, revelando-nos que não precisamos agradar a Deus, não precisamos ficar obcecados com o que fazemos ou deixamos de fazer, mas devemos reconhecer seu amor gracioso, que age primeiro em nossas vidas, nos convidando a uma vida nova. Não que ética e boa conduta sejam desnecessárias, mas elas devem brotar de um interior puro, cheio de compaixão.

Gustaf Aulén, um bispo luterano sueco, observou que quanto mais a gente se aproxima de Deus, mais a gente percebe o que nos separa dele. Deus é Santo, por isso, quando nos colocamos diante dele reconhecemos nossos pecados. Ao contemplarmos, percebemos nosso estado de pecado e finitude.

Zaqueu olhou para Jesus, buscando saber quem ele era. Isso me leva a questionar o que que acontece quando a gente olha para Deus e o que nos impede de olhar para ele.

Justificação pela fé

Amanhã, dia 31 de outubro, comemoramos os 499 anos da Reforma Protestante. E o texto de hoje trata de um tema essencial, redescoberto pela Reforma: a justificação pela fé.

Vemos que Zaqueu foi salvo não por ter mudado de atitude, mas por reconhecer-se pecador e necessitado da ação divina. A reconciliação com Deus nos transforma de dentro para fora, por isso, Zaqueu passou a viver diferentemente.

Conversão concreta

O olhar cuidadoso de Jesus sobre Zaqueu levou-o a uma conversão concreta, integral. Sua decisão de caminhar com Cristo transformou suas atitudes, a olhar para o outro com novos olhos, a buscar um mundo onde reine a justiça e a igualdade.

Como ele, existem muitas pessoas deixadas à margem. Que querem ver Jesus, mas são impedidas pelas multidões de nossos dias. O que temos feito para levar essas pessoas a uma nova vida? Temos agido como a multidão, murmurando e acusando, ou como Jesus, que com um olhar diferente, transforma essas pessoas?

Energia

Eu acredito que ser cristão não tem a ver com o que acreditamos, mas com o modo pelo qual enxergamos as coisas. Ser cristão é enxergar-se como filho amado graciosamente de Deus. É enxergar o outro, o diferente, como ser animado pelo Espírito de Deus. É enxergar o mundo como Criação, em que nossa tarefa é cuidar dele, mantendo sua beleza original. É enxergar a Deus não como guerreiro, bravo ou punitivo, mas como Pai e Amor.

Inspirações

http://www.workingpreacher.org/preaching.aspx?commentary_id=2968

http://www.cebi.org.br/noticias.php?noticiaId=7465

http://www.luizcarlosramos.net/foi-buscar-la-e-saiu-tosquiado/

http://www.faculdadejesuita.edu.br/documentos/091111-Lc19110Zaqueu.pdf

O custo do discipulado

Prédica para o 16º Domingo após Pentecostes

Dietrich Bonhoeffer

Grandes multidões o acompanhavam, e ele, voltando-se, lhes disse:
Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. E qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo. Pois qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para a concluir?
Para não suceder que, tendo lançado os alicerces e não a podendo acabar, todos os que a virem zombem dele, dizendo: Este homem começou a construir e não pôde acabar.
Ou qual é o rei que, indo para combater outro rei, não se assenta primeiro para calcular se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil?
Caso contrário, estando o outro ainda longe, envia-lhe uma embaixada, pedindo condições de paz.
Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo.
~Lucas 14,25-33

Se prestarmos atenção ao nosso redor, veremos que as pessoas falam de Deus, Bíblia, Jesus e Igreja o tempo todo. Nós vivemos num país cristão e onde muita gente afirma ter se “convertido”. Porém, a situação de nosso país vai de mal a pior. A corrupção, a violência, a intolerância e muitos outros problemas têm se multiplicado.

Diante disso, sou levado a questionar: por que existem tantos cristãos e tão pouca transformação no mundo? E por que nós, cristãos, vivemos tão diferentemente de Jesus?

Essas questões não são só de nosso tempo e local. Elas podem ser encontradas, por exemplo, no pensamento de Santo Agostinho de Hipona, São Bento de Nursia, Martinho Lutero, etc. John Wesley, fundador do movimento metodista, reconheceu esse problema: “Havia um ditado comum entre os membros da Igreja primitiva: ‘A alma e o corpo formam um homem; o espírito e a disciplina formam um cristão’; queria dizer que ninguém pode ser um verdadeiro cristão sem a ajuda da disciplina cristã. No entanto, se for assim, não é de estranhar que encontremos tão poucos cristãos, pois onde está a disciplina cristã?”

Quando olhamos para o século passado, que presenciou um dos horrores mais recentes da humanidade, o holocausto, e lembramos que a Alemanha era e é um país cristão, berço da reforma protestante, devemos questionar: onde estava a igreja durante o nazismo?

Investigando esse problema, chegaremos à triste conclusão de que a igreja não estava apenas silente — o que já seria horrível — mas apoiou o regime nazista. A relação da igreja alemã com o nazismo demonstra um problema que ainda não resolvemos e assombra o Brasil: como a igreja deve se relacionar com o Estado.

Felizmente, nem todos os cristãos apoiaram o nazismo. Houve várias exceções. A mais notável delas foi Dietrich Bonhoeffer, um pastor luterano, martirizado duas semanas antes do exército estadunidense ter liberado o campo de concentração onde estava.

Bonhoeffer debruçou-se sobre o mesmo problema. Diante do sofrimento de tantos judeus, da opressão perpetuada pelo governo, ele questionou o que aconteceu com o evangelho.

A igreja, no tempo dele, assim como no nosso, transformou o evangelho em algo inofensivo. Em algo que não confronta as estruturas pecaminosas, isto é, injustas e opressoras, do mundo. Diferentemente de nosso tempo, a igreja primitiva era vista como uma ameaça à ordem vigente e o próprio Cristo foi morto como um terrorista, um criminoso político.

A questão, essencial para aqueles/as que querem seguir a Jesus, é: como a igreja domesticou o evangelho e como recuperar a radicalidade da mensagem de Jesus?

Bonhoeffer, para entender esse problema, cunhou o termo “graça barata”. Segundo ele, a igreja utilizou sua doutrina principal para eximir-se dos compromissos que o seguimento de Jesus acarreta. Ele escreveu: “Graça barata é a pregação do perdão sem requerer arrependimento, batismo sem disciplina eclesiástica, Comunhão sem confissão, absolvição sem confissão pessoal. Graça barata é graça sem discipulado, graça sem a cruz, graça sem Jesus Cristo, vivo e encarnado.”

O Paulo Brabo descrevendo a mesma realidade, disse: “Anos de prática capacitaram-nos a racionalizar cuidadosamente o que Jesus disse e fez, até o ponto em que o que ele disse e fez não represente qualquer interferência na nossa pretensão de sermos seguidores dele.”

Com a ideia de “graça barata”, de graça sem discipulado, em mente, voltemos ao texto de hoje. O que estava acontecendo nesse trecho do evangelho de Lucas?

Na narrativa de Lucas, Jesus está viajando a Jerusalém e é apresentado pelo evangelista como exemplo concreto de como devemos agir. Grandes multidões estão seguindo, empolgadas com Jesus. E é interessante que Lucas insere esse texto logo após a parábola do banquete, onde as pessoas que estão nas ruas são obrigadas a entrar e participar do grande jantar.

Apesar de muitos de nós querermos as igrejas lotadas e fazermos de tudo para trazer gente para os cultos, Jesus adverte severamente as multidões. Quem quiser seguir a Jesus deve agir como ele: desapego total de sua família, de seus bens e de si mesmo. O discipulado exige responsabilidade e decisão, não é um “algo a mais” na nossa vida, uma “melhoradinha”. Seguir a Jesus requer uma transformação radical. O texto que lemos nos convida à solitude, convoca-nos ao isolamento e fixar nossos olhos apenas em Cristo (Bonhoeffer).

Os chamados dos discípulos nos evangelhos são bastante interessantes e estão relacionados ao nosso texto do evangelho. Neles, Jesus está de passagem, vê alguém, chama a pessoa e ela imediatamente deixa tudo e o segue. Bonhoeffer, comentando essa fórmula neotestamentária, diz que não há definição para o discipulado, é apenas o seguimento de Jesus. E o discípulo abandona tudo não por ter presenciado algum milagre ou ouvido algum discurso, mas porque é o Cristo que chama. Ao deixar tudo que tem e que é, ele está abrindo mão de suas seguranças e entregando-se ao desconhecido. Esta, aliás, é a definição de fé: abandonar a segurança do conhecido e entregar-se ao desconhecido.

É nessa atitude de renúncia que reconhecemos e aceitamos a graça divina. Somente quando reconhecemos que nada, nem bens, nem relacionamentos, nem religiões poderão nos satisfazer, que não superaremos nosso estado pecaminoso, é que estaremos prontos a aceitar a graça e abrir mão de tudo que temos para seguir Jesus. Bonhoeffer escreveu: “A única pessoa que tem o direito de dizer que é justificada pela graça somente, é aquela que deixou tudo para seguir Cristo.”

A graça verdadeira é custosa, “porque custa a vida da pessoa”, mas “é graça porque dá à pessoa a única vida verdadeira”. Embora a fala de Jesus pareça ser forte demais para nossos estômagos, ela nos traz esperança porque nos mostra que é possível viver uma fé centrada em Jesus, é possível viver como Jesus viveu e temperar o nosso mundo com justiça e amor. E assim, abrindo mão de tudo, encontraremos a vida plena e abundante. Quando deixarmos de ser quem somos, para caminhar com Cristo, tornaremo-nos livres, porque só quem não está preso aos bens, às relações sociais e a si mesmo é indomável, é guiado pelo vento, que ninguém sabe de onde vem nem para onde vai.