Espetáculo e Vazio

Toda a vida das sociedades em que reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo que anteriormente era vivido deslocou-se em representação.

(Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo)

O mundo resume-se em aparências. Percebemos as coisas não como elas são em si mesmas, mas como elas aparecem a nós. Interpretamos a realidade através de nossos sentidos e através das narrativas que dão sentido à vida.

Talvez a maior fonte de sofrimento humano esteja na incapacidade de perceber que tudo é transitório, impermanente.

Talvez o apego às aparências seja a fonte da incapacidade que temos de dialogar. Ninguém compreende ninguém, tudo é contemplado passivamente, como se a vida fosse um cinema. Prova disso é este blog. Escrevo as mesmas coisas das mais variadas formas e ninguém entende. Como diz o The Last Psychiatrist, se você está lendo isto, esta mensagem é para você.

Todos os fenômenos são vazios.

(Sutra Coração da Sabedoria)

Sobre o pressuposto básico de que a realidade é diferente de como ela se apresenta a nós, surgiu aquilo que Guy Debord chamou de Sociedade do Espetáculo. O espetáculo, em nosso tempo, tomou o lugar de Deus. Ele está em todo canto, sabe de tudo que acontece e é capaz de qualquer coisa.

Essa tran­si­ção estru­tu­ral para uma soci­e­dade do espe­tá­culo envolve a trans­for­ma­ção em mer­ca­do­ria de setores pre­vi­a­mente não-colonizados da vida social, e a extensão do controle buro­crá­tico aos domínios do lazer, do desejo e da vida coti­di­ana.

(Douglas Kellner: Media Culture and the Triumph of the Spec­ta­cle)

Toda a nossa vida é perdida em busca de aparências. Não nos preocupamos em viver bem, o que quer que isso signifique, mas em viver de um modo que todos os nossos conviventes aprovem.
Por isso é que somos tão produtivos. Transformamos o tempo, e com isso toda a nossa existência, em mercadoria.

Perdeu-se a capacidade de maravilhamento, de ficar à toa. Nós não conseguimos mais enxergar aquilo que nossos velhos símbolos apontavam. Somos seres irreligiosos, no pior sentido possível.

Para tentar suprir isso, o espetáculo tratou de desenvolver uma pseudo-espiritualidade. O que pode ser encontrado tanto nas igrejas tradicionais quanto nas neopentecostais e até em versões importadas do budismo.

E mesmo para quem foge a esses grupos, a lógica do espetáculo ainda é inescapável. Somos tentados a buscar a aparência de alguém calmo, fala mansa e sorridente. Embora essas sejam coisas boas, não há atalhos na espiritualidade. Não adianta querer imitar a aparência de santidade, é preciso ter a mesma disciplina que os santos. Por isso o apóstolo Paulo escreveu: “ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me valerá.” Preocupamo-nos mais com como os outros nos veem do que de fato em orar e retirar-nos em solitude.

Tudo que pode ser visto é profano.

A vontade tem a mesma deficiência que a Lei — só consegue lidar com a aparência. É incapaz de gerar a transformação de que o espírito necessita.

(Richard Foster)

Pessoas de espírito no Antropoceno

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Uma das melhores formas, até agora desenvolvidas, de nomear nossa era, num sentido planetário, é chamando-a “antropoceno”. Pela primeira vez na história da Terra, suas condições de vida são marcadas principalmente pela ação humana. As consequências — olhe pela janela — são claramente horríveis.

Nesse contexto, o que significa sermos pessoas de espírito? Espiritualidade é um termo que vai além das tradições religiosas, porque “espírito” é vento, sopro. Espiritualidade nada mais é do que vitalidade. Ser espiritual, então, significa estar em contato íntimo e constante com o próprio fôlego, em atenção à fonte de vida.

Procuro apresentar aqui algumas chaves de leitura para avaliar a condição humana nesta era, aprendendo principalmente de seus erros.

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Cartografia

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“O inferno não tem limites”, afirma Mefistófeles, na versão de Christopher Marlowe de Fausto. Infelizmente nossa era confundiu liberdade com vida sem limites. Com base nessa lógica, explora-se o planeta sem refletir ou sentir peso na consciência. “Amarás ao Progresso teu Deus com todo o teu dinheiro, de todas as tuas forças e com todos os cálculos.”

Pensamos em liberdade como soberania pessoal. Somos nossos próprios reis e rainhas. Ser indivíduo, nesta lógica, significa ser auto-determinado e auto-afirmativo.

Contudo, como sabiamente descreve a tradição cristã, a liberdade não significa apenas liberdade de, mas também liberdade para. Segundo essa tradição, a liberdade é um dom de Deus e é exercida na comunidade de fé, onde, paradoxalmente, descobrimos nossos limites e, assim, as possibilidades da liberdade.

Não existimos sozinhos, apesar de nossa religião Progresso dizer o contrário. Só é possível existir em relação. Existir é ser ético, é responder livremente às interpelações feitas pelo outro.

As pessoas de espírito no antropoceno devem exercitar-se na descoberta de seus próprios limites, reconhecer a necessidade do outro (não só indivíduo, mas também comunidade) e amadurecer suas respostas às demandas do mundo.

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Poética

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As notícias e expectativas catastróficas dão-nos a ideia de que precisamos agir mais do que já fazemos (se é que fazemos) para barrar os efeitos das mudanças climáticas e de indústrias inconsequentes.

De fato é necessário agir. Mas é preciso reter a noção de que o ativismo incessante é permanecer na lógica do progresso. “Nenhum momento pode ser perdido. Tempo é dinheiro.” Precisamos, mais do que nunca, de uma ruptura com essa lógica.

Como já afirmei em outro lugar, a primeira ação de resistência é parar, silenciar. A não-ação, numa era onde um dos dogmas é “age!”, é subversiva.

Precisamos redescobrir o mistério da vida e do mundo, abraçar — literalmente — a vida. Se é que há redenção, ela está além de nossa mente e toma conta de todo o ser. Precisamos ser criativos — dom do espírito — e descobrir formas novas de viver, além das 8h de escritório, da televisão e do fast-food.

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“Não à revolução!”

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Assim como o progresso é o mote de nossa era, também o é a revolução. Negamos o passado, a tradição e esquecemos — numa linguagem cristã, que o/a leitor/a deve traduzir — que somos criatura e não Criador.

Nossa arrogância é tão grande, que pensamos que nada que foi feito antes e não por nós não vale a pena ser observado e o que fazemos é suficiente para tudo.

Contudo — sinto em lhe dizer — nada criamos do nada e nada somos sem os outros. A tradição não é morta, porque o passado é a fonte de todas as possibilidades do agora e do porvir.

Os gênios do passado não foram inovadores e empreendedores de sucesso, mas intérpretes da tradição. Averróis foi gênio porque intérprete de Aristóteles, Lutero foi gênio porque intérprete de Paulo, etc.

Querer ser um gênio, independente do passado (o que, como vimos, é uma contradição) é querer usurpar o posto divino. Humilde é aquele que por amor a Deus, submete-se ao passado em fiel interpretação e reforma.

Como está escrito em O profeta e a Revolução, do Paulo Brabo, “Para fazer violência contra a revolução do capitalismo é preciso abrir mão da revolução. É preciso escolher as margens. É preciso pisar para fora do sistema.”

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Em suma, o não-dualismo

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Sintetizando o que já foi dito, romper com a lógica do progresso é romper com a mentalidade dualista que ela nos apresenta.

Necessitamos, acima de tudo, ir além da razão e ser pessoas inteiras (com emoção, desejos, doenças, limites); ir além do discurso e  gesticular um novo-velho mundo, através novos-velhos rituais.

Temos que ir além da mentalidade universalista/realista (como, por exemplo, do catolicismo medieval) e do individualismo (este que vivemos). Só é possível abranger o todo quando se é único. A isso, roubando o termo da antropologia, podemos chamar “perspectivismo”.

*

(Algumas das) Inspirações

Eduardo Viveiros de Castro. A inconstância da alma selvagem.

Jürgen Moltmann. O Espírito da Vida: Uma Pneumatologia Integral.

Paulo Brabo, O Profeta e a Revolução.

Rui de Souza Josgrilberg. Eclipse de Deus – Intérpretes de Deus.

Wendell Berry. Faustian Economics.

Ivy marãey

Adão e Eva estavam sentados no jardim, à beira da árvore, enquanto comiam. Viam à sua volta as primeiras flores da vida. Elas surgiam em meio ao lixo, vencendo-o com sua beleza. Maravilhados, deixaram sua refeição de lado e colocaram-se a contemplar as flores em reverente silêncio.

O ano era 2130 depois de Cristo, de acordo com nosso calendário. Para eles, era o centésimo ano após o colapso.

O jovem casal era a primeira geração após o catastrófico evento. As histórias do colapso, cada uma mais assombrosa que a outra, lhes foram passadas pelos seus avós e pais.

Segundo o que lhes fora contado, a humanidade havia chegado a um ponto terrível de maldade. Gaia estava sendo torturada dia e noite enquanto a humanidade se escravizava. Os sinais da destruição sempre foram claros, mas igualmente ignorados. Os poucos profetas, que não se dobraram ao pés do consumo, eram chamados de loucos e alarmistas.

Após os mares terem se tornado intocáveis, o óleo sagrado do deus Capital ter extinguido, e os espíritos das profundezas terem abandonado a Terra, todo o modo de vida se degenerou. O dinheiro daqueles que eram bilionários não valia mais nada. Estes foram os primeiros a morrer.

Subitamente, como uma tempestade após um dia de sol, a violência física tomou conta do mundo. Os poucos que não perderam a vida, morriam lentamente de desespero.

Não era a toa. Tudo que dava sentido às pessoas tinha se desintegrado. A loucura, o estado de exceção, se tornou a regra. Como viveriam as pessoas após a morte de seu deus? Seu objetivo máximo, o paraíso do status e SUVs, fora eliminado do campo de possibilidades. A imaginação da humanidade-escrava era estreita, não tinha capacidade de inventar um novo modo de vida. A violência, dos símbolos ao corpo, foi a única resposta possível.

O mundo era autorregido pelo Capital. Nem governos, nem empresas, dominavam. O Capital era fonte e ápice de toda a existência. E, de repente, o Capital abandonou o mundo direto para a terra dos deuses mortos.

Agora, cem anos depois, só restavam as ruínas e o lixo. Muitos animais foram extintos e apenas uma pequena parte da humanidade sobreviveu.

***

Após um longo tempo de procrastinação, observando as flores e se alimentando, Adão e Eva se colocaram de pé. Haviam passado seis meses naquele local e decidiram que era hora de mudar. Cada um guardou suas coisas em uma mochila, colocou-a nas costas e partiu em direção ao sul, fugindo do fortíssimo inverno que estava para chegar.

Já era tarde. O sol estava se pondo, amarelando todo o horizonte. O lixo acinzentado ganhava cor com o pouco da graça que restava no mundo.

Sentado naquilo que um dia fora uma privada, estava um homem velho, de barba e cabelo bem aparados e sem roupa nenhuma, além de um shorts rasgado.

O casal, ao vê-lo, se preparou para ouvir alguma reação. Porém, o velho não se mexeu. Parecia que eles poderiam passar por ele, fingindo não o ver, que ele não se importaria.

— Ei! — Eva chamou.

O velho virou o rosto, encarando-os.

— Tudo bem? — ela continuou.

— O que acha? — respondeu, bruscamente.

— Você não parece tão mal — interveio Adão — Está com o cabelo e a barba bem feitos.

— E de que adianta isso? Vivi até esta hoje naquela mansão — disse, apontando o dedo — mas fui assaltado. Apanhei e fui expulso de lá.

Adão e Eva chegaram mais perto dele. Sentaram-se à sua volta para escutar o relato.

— Antes de tudo, meu nome é Sebastião. Eu vivia na mansão que era dos meus avós com minha companheira. Ela fazia tudo para mim, mas estava doente fazia tempo, não sabíamos de quê. Morreu semana passada. Fiquei na casa, sofrendo sem ela. Como podem ver pela minha barriga e pela minha barba, consigui subsistir bem. Até ser assaltado hoje. Agora não há mais nada para fazer na vida. Não tenho minha casa, nem minha mulher…

Assim que ele acabou de falar, Eva fitou-o compassivamente. Seu silêncio fez Sebastião se sentir acolhido.

— Eu e meu marido, Adão, estamos indo para o sul. Construiremos uma bela vila, plantaremos uma grande horta e passaremos o dia a contemplar a beleza escondida pela destruição. Se quiser, pode vir conosco.

— Mas e a minha casa? Preciso recuperá-la.

— Não se preocupe — Adão falou. Em nossa vila, haverá lugar para todos.

O velho ainda estava apegado ao passado, mas diante da impossibilidade de recuperar a velha casa, decidiu seguir com o casal.

***

Era noite. O vento assobiava frio. Os três — o casal e o velho — tentavam dormir numa caverna.

Sebastião, com dor nas costas pela ausência de cama, levantou-se e pôs-se a observar lá fora.

Nessa época, as estrelas já haviam caído do céu. Tudo o que ele avistava era negritude. A noite e a cegueira eram a mesma coisa.

O velho, olhando em volta, viu uma pequena luz. Com medo, chamou o casal.

Os dois se levantaram e, intrépidos, sinalizaram com luz para o longíquo viajante.

— Vocês estão loucos? — questionou Sebastião.

— Que mal pode um solitário cometer? — respondeu Adão.

Após esperarem por cerca de meia hora, um jovem de barba aparada e cabelo raspado pôde ser visto com clareza.

Ele se aproximava num misto de felicidade e incerteza quando um barulho os interrompeu. Algum animal grande vinha correndo em sua direção.

— Venha para a caverna, rápido! — gritou Eva.

— Ele vai nos matar.

— Será melhor enfrentá-lo de dentro da caverna do que ao ar livre de noite — acrescentou o velho.

Os quatro entraram na caverna. Afobado, o jovem perguntou:

— E agora?

— Agora a gente espera — respondeu Adão, tranquilo.

— Vocês não vão matá-lo?

— Por quê? Ele só quer sobreviver, como a gente.

Enquanto Adão e o jovem preparavam uma refeição, conversavam sobre quem ele era e o que ele buscava.

O jovem, chamado Américo, era um professor de história numa das poucas cidades que restavam no mundo. A cidade fora destruída por um grupo de sobreviventes nômades em busca de comida. Ele escapara e andava sem rumo desde então.

— E o que vocês pretendem fazer? — perguntou Américo.

Eva sentou-se no chão, tocou-o com as mãos abertas e fechou os olhos, sentindo com profundidade a textura da terra. Depois de um tempo, disse:

— É isto que queremos. Comunhão com o chão de onde brotamos.

***

Andaram por um tempo, que de acordo com Sebastião, parecia indeterminado, tão longo quanto a previsão de um dia ter novamente conforto. Ele já não falava muito, como era seu costume. Ficava a olhar o horizonte, imaginando quando esse pesadelo haveria de acabar.

Avistaram, ao longe, uma casa de madeira, que parecia ter apenas um cômodo. Uma fumaça saía de sua chaminé e uma mulher, com um facão na mão, havia os avistado primeiro.

— Viemos em paz — gritou Américo.

A mulher sorriu e logo apareceu ao seu lado um homem. Os dois deram as mãos.

— Desculpe se os assustei — disse a mulher — Meu nome é Sara e esse é meu marido, João. O facão não é uma arma, mas uma ferramenta, para cultivar a horta.

— Que bom que pensam assim — disse Adão — Não consertaremos este mundo cometendo os mesmos erros.

— É verdade — disse João, olhando para baixo — A centralização, o poder, o desejo de riqueza, as guerras, destruíram nosso planeta.

— Porém, não sabemos o que fazer — disse a Sara — Estamos perdidos.

Adão e Eva contaram-lhes suas intenções de ir para o sul e organizar uma vila, onde ninguém teria poder sobre o outro, todos estejam conectados com a terra e vivam pacificamente.

— Isso tudo é ótimo. Podemos ir com vocês?

— Claro. Podemos partir pela manhã.

Eles se serviram de uma salada, tomaram um chá e dormiram no chão da pequena cabana.

***

No outro dia, tomaram café observando, reverentemente, o nascer do sol, colocaram tudo em suas mochilas e partiram em direção à futura vila.

Pouco após fazerem a segunda pausa do dia, Américo notou que Sebastião agia estranhamente.

— Algo errado?

— Não. É só que acho esse plano de vocês muito idealista, não acho que irá funcionar.

— Por que não irá dar certo? — perguntou o homem.

— Precisamos de um governo, de gente nos guiando, nos dizendo o que fazer e o que acreditar — falou, num misto de grito e choro — Sem isso, jamais alcançaremos o conforto que nossos antepassados tinham.

— Esse conforto é realmente desejável?

Sebastião jogou-se no chão e tampou o rosto.

— Venha — disse Adão — juntos conseguiremos viver bem.

O velho fez sinal para que fossem embora. O grupo tentou convencê-lo a levantar, mas em vão.

— Se eu sentir que não estou bem, irei atrás de vocês.

Enquanto os jovens sonhadores rumavam ao sul, o velho Sebastião andava em direção à cabana do casal.

Não demorou muito para que o grupo encontrasse um lago próximo à floresta.

Pararam por ali e começaram, aos poucos a construir a primeira cabana da vila. Nessa primeira casa, fizeram muita comida, organizaram sementes e armazenaram as ferramentas básicas para a nova vida. Oravam todo dia e comiam sempre juntos.

A crise de Israel e a busca por justiça

O antigo Israel era uma sociedade baseada em famílias de agricultores. As propriedades eram iguais, pois a terra era direito de todos. Não havia instituições políticas organizadas. As relações eram baseadas na solidariedade e ajuda mútua.

A partir do século 8 aEC, porém, a terra passou a se concentrar nas mãos de poucos. Dívidas levaram as pessoas mais fracas a entregarem suas posses e os membros da família como escravos. Assim, Israel se tornou uma sociedade de classes, onde os ricos oprimiam os mais fracos. Contra esse Israel injusto, que não protegia os pobres e os estrangeiros, os profetas levantaram continuamente sua voz. Para eles, o desenvolvimento deveria ser baseado na justiça e no acolhimento ao Outro.

Dando um salto de quase trinta séculos, a situação não é muito diferente. Os índios brasileiros viviam em harmonia com a terra, num estilo de vida sustentável. Porém, suas terras foram quase todas roubadas e as poucas que sobraram também estão sendo tiradas. Eles são violentados e mortos, enquanto os governos fingem não acontecer nada. A mesma situação acontece com as multidões de exilados.

A triste ironia nessa história é que, enquanto os profetas bíblicos arriscavam suas vidas em defesa dos estrangeiros e dos trabalhadores, da justiça social e de uma sociedade igualitária, muita gente hoje se utiliza do mesmo livro para excluir aquelas e aqueles que os profetas acolhiam.

Para além do humano

Um posicionamento filosófico, poético e político

Nós, seres humanos ocidentais e capitalistas, só sabemos pensar em nós mesmos. Tudo que fazemos é apenas para o nosso benefício. Em uma palavra, somos antropocêntricos. E esse ponto de vista invade todas as áreas do indivíduo e da sociedade. Construímos uma economia que só leva em conta os desejos da humanidade — de uma pequena elite humana, devo acrescentar –; uma religião que tem como alvo salvar seres humanos; e nos pensamos o suprassumo de toda a natureza, superiores às árvores e aos animais.

É claro que só podemos enxergar o mundo através de nossos olhos humanos. Nós não temos acesso à realidade em si, vemos tudo mediado pela nossa subjetividade (linguagem, cultura, religião, traumas, etc.). Mas fomos longe de mais.

Prova disso é que estamos destruindo o planeta. Em nosso ideal antropocêntrico, criamos o capitalismo, a forja universal que invadiu cada centímetro deste planeta e além. Graças a esse sistema econômico, levamos a Terra a uma nova época geológica: o antropoceno, uma era na qual as mudanças do planeta são geradas pela atividade humana; um feito inédito, mas não menos lamentável. Essas mudanças fazem do planeta uma casa cada vez menos acolhedora.

Foto de S. Zuther, retirado de phys.org

Sejamos mais humildes, desumanizemos o conhecimento e reconheçamos que somos apenas parte de um universo infinito.

***

O poeta estadunidense Robinson Jeffers, ciente desse problema, cunhou o termo “inhumanism”. Ele acreditava que a humanidade estava tão centrada em si que perdera de vista a beleza do mundo.

Abstratos demais, sábios demais,

É tempo, para nós, de beijar novamente a terra,

É tempo de deixar que chovam desde o céu as folhas,

De deixar a rica vida correr para as raízes novamente. (Retorno)

Isso me lembra da incrível sabedoria dos índios yanomamis, que dizem que nós, ocidentais, somos tão autocentrados que não conseguimos sonhar com algo que não seja nós mesmos. Esse mesmo povo fala de uma doença chamada “xawara”, a epidemia do metal que destrói as pessoas e o mundo.

Jeffers afirmava que o ser humano é parte da natureza, não um intruso ou um dominador, e que a humanidade seria mais feliz se devotasse menos atenção e paixão a si mesma e mais para a natureza não-humana.

Nós construímos nossa identidade no diálogo com as outras pessoas, com as ferramentas que criamos e com a própria natureza. É nessa relação de abertura e respeito que nos tornamos humanos. Uma pessoa que não se abre a outras é fascista, uma pessoa que não cria nem se deixa (re)criar pelos instrumentos que faz não pode viver em sociedade e uma pessoa que não se entrega à natureza é suicida.

***

Precisamos pensar novas possibilidades de se relacionar com a natureza e de viver em sociedade. Podemos começar isso nutrindo a contemplação da natureza. Silenciar-se diante das maravilhas do mundo, sem tentar explicá-lo, isto é, sem submetê-lo à nossa vontade, parece-me ser um ótimo começo.

Sound of Bamboos in the Skew Wind and Heavy Shower, 2006

Também é necessário repensar o modo como nos relacionamos com a realidade e o modo como construímos o conhecimento. É claro que não dá para sair de nossa perspectiva, mas podemos e devemos considerar em nossas investigações o lugar no qual estamos. O pluralismo ontológico — uma linha filosófica da qual pretendo falar em breve — pode ser uma boa forma de levar isso à frente, pois ele nos abre à riqueza da experiência humana e não-humana e garante um modo de vida antitotalitário.

Por fim, precisamos repensar o modo como nos organizamos para viver junto, pois isso tem consequências inevitáveis no planeta. É necessário abrir mão do capitalismo, pois ele é inerentemente destruidor da natureza e da própria humanidade, desejando crescimento infinito e beneficiando apenas uma minoria.

Ouso dizer que no século 21 o capitalismo irá morrer. Se a humanidade morrerá junto será escolha nossa. Temos que decidir entre o capitalismo e vida. Não dá para escolher os dois. Escolhamos a vida, construindo uma política que garanta os direitos de todos os seres humanos, e deixe espaço para as outras formas de vida.

A morte subterrânea 2

Nota: caso você não tenha lido a primeira morte subterrânea, clique aqui.

Diante da situação social, econômica e política do mundo, parece-me haver uma ansiedade que atinge a todos indiscriminadamente. A preocupação com o futuro da economia e da sociedade nos abala profundamente e tudo aquilo que nos dava suporte foi destruído.

Por isso, ouso dizer que a marca principal de nosso tempo é a angústia. Nos sentimos sufocados pelo capitalismo e a modernidade nos atormenta. Mais do que isso, a angústia é um medo que não sabe o que teme. Sentimo-nos esganados, mas não sabemos exatamente por quê.

Parece que vivemos uma constante morte. Tudo se tornou morte e tudo nos mata. É óbvio que a morte sempre foi onipresente. Freud já deixou isso claro ao tratar da pulsão de morte. Mas a modernidade é o acelerador da humanidade. Ao colocar a produção e a vida num passo acelerado, ela inevitavelmente também acelera a morte.

O trabalho, a mais banal das ações humanas, é instrumento de morte, pois só existe através da desvalorização e da desumanização do trabalhador. Este não tem condições para se exteriorizar, é escravo do capitalismo (cf. Enrique Dussel). E não se expor ao mundo é sinônimo de morte (cf. Emmanuel Lévinas e Martin Buber). O capitalismo busca amenizar a situação através de pseudo-exteriorizações, mas elas não eliminam o problema. Conforme Karl Marx, o trabalho é a causa e a consequência da angústia moderna.

Paul Ricouer, em Finitude e Culpabilidade, afirma que há uma desproporção e contradição entre o infinito da vontade e o finito da inteligência — uma situação de miséria patética. Não é essa a condição humana, mas levada à rotação máxima pelo capitalismo? Isto é, o capitalismo promete ter inteligência infinita para suprir desejos infinitos. O irônico é que a civilização é a repressão dos instintos humanos, como mostrou Freud em O mal-estar na civilização. O capitalismo promete o contrário do que cumpre.

A saída provavelmente é o reconhecimento da impermanência humana: somos nada, não podemos conter o infinito.

Diante da angústia onipresente, me questiono: o que o futuro nos guarda? Ou além: será que há um futuro à frente? Talvez a morte esteja na nossa cara, somos asfixiados por ela, mas resistimos, queremos enterrá-la. O problema é que é impossível fazê-la parar.

Talvez tudo esteja prestes a explodir, mas será que isso não é algo a ser comemorado? Não é o nosso fim algo a ser abraçado com gozo? Mesmo que a morte que se esconde no subterrâneo da consciência e da sociedade seja vencida hoje, um dia ela voltará e não será possível vencê-la.

Nesse contexto embriagado de mal-estar, renascem o fascismo, o fundamentalismo e o reacionarismo. A incerteza é grande. O Sol não é suficiente para iluminar a existência humana. As pessoas demandam certezas.

O problema aparece quando a necessidade de objetivos nos levam a abandonar a dúvida, o bem mais precioso que a modernidade nos deu. Não devemos criar um passado idealizado nem sacralizar um grupo — o erro dos reacionários e dos fascistas, respectivamente. É preciso achar uma solução nova e que inclua a todas e todos.

Não faço a menor ideia de como sair do labirinto em que estamos nem de como enfrentar o minotauro que nos aguarda. Porém, é possível questionar: quais certezas podemos ter, isto é, como construir vida no mundo atual? E como manter a sanidade apesar das incertezas?

A morte subterrânea

A morte está na minha cara. A respiração dela me asfixia. Estamos no subsolo de meu prédio. A porta ao lado se abre, aparece uma fresta de luz. Não deixamos de nos encarar.

Chegamos aqui era de manhã. Agora, já é noite. Passamos o dia inteiro assim, um olhando a face do outro sem dizer palavra.

Eu estava indo ao trabalho quando a encontrei me esperando na frente do carro. Desde então, não abri a boca. Não precisava perguntar quem era. Quando se encontra a morte, não há dúvidas de quem ela seja.

Sinceramente, não faz muita diferença tê-la encontrado aqui. A vida se tornou sem graça. Trabalho, assisto TV, finjo me divertir com livros bobos e saio com pessoas que pensam como eu fingindo que discutimos.

Talvez ela esteja comigo o tempo todo. Só a percebi agora. Mas que ruptura acontecera na minha vida para que eu a enxergasse?

Nada. A insalubridade da existência chegou à rotação máxima. A vida se torna insuportável depois de tanto tempo vivendo sem existir. A única coisa que ainda tem sentido é a morte.

Sou como todos os outros. Não sou um ser extraordinário.

Pela primeira vez, olho para o lado. A vizinha está na frente do seu carro, encarando a própria morte.