Espetáculo e Vazio

Toda a vida das sociedades em que reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo que anteriormente era vivido deslocou-se em representação.

(Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo)

O mundo resume-se em aparências. Percebemos as coisas não como elas são em si mesmas, mas como elas aparecem a nós. Interpretamos a realidade através de nossos sentidos e através das narrativas que dão sentido à vida.

Talvez a maior fonte de sofrimento humano esteja na incapacidade de perceber que tudo é transitório, impermanente.

Talvez o apego às aparências seja a fonte da incapacidade que temos de dialogar. Ninguém compreende ninguém, tudo é contemplado passivamente, como se a vida fosse um cinema. Prova disso é este blog. Escrevo as mesmas coisas das mais variadas formas e ninguém entende. Como diz o The Last Psychiatrist, se você está lendo isto, esta mensagem é para você.

Todos os fenômenos são vazios.

(Sutra Coração da Sabedoria)

Sobre o pressuposto básico de que a realidade é diferente de como ela se apresenta a nós, surgiu aquilo que Guy Debord chamou de Sociedade do Espetáculo. O espetáculo, em nosso tempo, tomou o lugar de Deus. Ele está em todo canto, sabe de tudo que acontece e é capaz de qualquer coisa.

Essa tran­si­ção estru­tu­ral para uma soci­e­dade do espe­tá­culo envolve a trans­for­ma­ção em mer­ca­do­ria de setores pre­vi­a­mente não-colonizados da vida social, e a extensão do controle buro­crá­tico aos domínios do lazer, do desejo e da vida coti­di­ana.

(Douglas Kellner: Media Culture and the Triumph of the Spec­ta­cle)

Toda a nossa vida é perdida em busca de aparências. Não nos preocupamos em viver bem, o que quer que isso signifique, mas em viver de um modo que todos os nossos conviventes aprovem.
Por isso é que somos tão produtivos. Transformamos o tempo, e com isso toda a nossa existência, em mercadoria.

Perdeu-se a capacidade de maravilhamento, de ficar à toa. Nós não conseguimos mais enxergar aquilo que nossos velhos símbolos apontavam. Somos seres irreligiosos, no pior sentido possível.

Para tentar suprir isso, o espetáculo tratou de desenvolver uma pseudo-espiritualidade. O que pode ser encontrado tanto nas igrejas tradicionais quanto nas neopentecostais e até em versões importadas do budismo.

E mesmo para quem foge a esses grupos, a lógica do espetáculo ainda é inescapável. Somos tentados a buscar a aparência de alguém calmo, fala mansa e sorridente. Embora essas sejam coisas boas, não há atalhos na espiritualidade. Não adianta querer imitar a aparência de santidade, é preciso ter a mesma disciplina que os santos. Por isso o apóstolo Paulo escreveu: “ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me valerá.” Preocupamo-nos mais com como os outros nos veem do que de fato em orar e retirar-nos em solitude.

Tudo que pode ser visto é profano.

A vontade tem a mesma deficiência que a Lei — só consegue lidar com a aparência. É incapaz de gerar a transformação de que o espírito necessita.

(Richard Foster)

O caminho largo é cheio de regras

procopius-the-righteous-praying

Prédica para o Quinto Domingo Após a Epifania

13 Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens.
14 Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte;
15 nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa.
16 Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.
17 Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir.
18 Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra.
19 Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus.
20 Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.

~Mateus 5,13-20

O Evangelho de Mateus, diferentemente de Marcos, que é centrado na paixão de Cristo, concentra-se no ministério de Jesus. A comunidade mateana compilou no seu evangelho cinco grandes discursos de Jesus, apresentando o seu ensino como fundamento ecumênico da Igreja.

Um de seus temas essenciais, portanto, é o senhorio de Cristo. Dada a centralidade de seus ensinamentos, o papel de cada discípula e discípulo é submeter-se exclusivamente a ele. Por negarem o senhorio do imperador, substituindo a afirmação “César é Senhor” por “Jesus é Senhor”, as/os cristãs/ãos primitivas/os foram consideradas/os uma ameaça ao Império Romano.

Dentro de um cristianismo que deixou de ler o Evangelho, reduzindo a importância do Filho de Deus à sua morte e ressurreição, esquecendo-se de sua vida e ministério, e dentro de um cristianismo que se submeteu aos poderes deste mundo, ler o Evangelho de Mateus é um ato radical, de voltar às raízes de um cristianismo ético, vivenciado aqui e agora, e que demanda de nós a rejeição de todo poder constituído, afirmando que apenas Jesus Cristo é o Senhor.

*

Voltando a nossa atenção ao texto lido, apresenta-se diante de nós a seguinte questão: o que Jesus quis dizer quando afirmou que ele não veio revogar a Lei, mas para cumpri-la?

Essa pergunta fica ainda mais complicada quando olhamos para o versículo 20, em que Jesus afirma que a nossa justiça deve “exceder em muito a dos escribas e fariseus” para participarmos da Nova Realidade que ele está inaugurando.

Os escribas e fariseus eram famosos na época de Jesus por serem exímios cumpridores ipsis litteris da Lei, aqueles que mais conheciam a Lei e que mais fiel e rigidamente a cumpriam. Por isso viviam a condenar o povo, que não era capaz, dado o fardo pesado imposto pelos fariseus, de viver no mesmo nível de obediência que eles. E por isso também as sucessivas tentativas de silenciar Jesus quando o pegam relativizando a Lei, fazendo uma interpretação diferente.

O que Jesus está apresentando, portanto, é uma mudança de ponto de vista: não basta obedecer a Lei, fazer por fazer, não adianta lermos muito ou orarmos muito se isso não provocar mudança interior. É preciso ler e orar diferentemente, como forma de abrirmo-nos à presença divina. E é mais importante salvar uma vida do que obedecer às Escrituras.

Jesus, ao longo de todo o Sermão da Montanha, em que ele por vezes desdiz a Lei – “ouvistes o que foi dito, eu porém vos digo” – a radicaliza. Cumprir toda a Lei tem a ver com integridade, com dispor todo nosso ser a vive-la e, para isso, não basta apenas uma lista de regras do que podemos ou não fazer, é preciso seguir o Espírito da Lei, ou seja, ir aonde ela aponta.

E quando olhamos para a Bíblia – que não é um manual, um conjunto de regras, como os fariseus criam, mas uma coleção de poesias, histórias e críticas à sociedade vigente – percebemos que Lei foi criada com a intenção de instigar o povo ao amor, à justiça, à libertação das/os oprimidas/os e à liberdade.

Cumprir toda a lei, em resumo, é estar em comunhão com o Espírito que a inspirou e vivenciar, no cotidiano, o cuidar da terra, da gente sofrida e lutar por sua libertação.

*

É tentador reduzir a fé e a ética a uma lista de proibições. Há em toda a existência humana uma tensão entre regras (a Lei) e a liberdade. Esta abre portas, caminhos novos, de descobrimento de nós mesmos, de Deus e do mundo, mas é exigente: somos obrigados/as a assumir a responsabilidade pelo que fazemos e deixamos de fazer. As regras, por outro lado, são confortantes, fáceis e nos fazem acreditar que, se as obedecermos, seremos recompensados/as.

Contudo, Jesus nega completamente a ideia de que Deus recompensa a obediência e mostra-nos que “uma ética de conduta regida por proibições é limitada e infantilizante” (BRABO, 2015). O mestre de Nazaré nos convida a ir além da mesquinharia do medo da punição e do desejo da recompensa e abraçar a vida tal como ela é, em liberdade e com maturidade.

Como afirma a Epístola aos Colossenses, as regras do tipo “não faça isso”, “não toque naquilo”, apenas possuem “aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade”.

A mensagem de Jesus aos fariseus de seu tempo e aos fariseus presentes em nossas igrejas hoje é o desarmante reconhecimento de que o caminho largo é cheio de regras e o caminho estreito é a liberdade.

*

Quando aceitamos o convite de seguir Jesus, nos dispusemos a viver uma justiça que excede em muito a dos fariseus, a vivermos como o Filho de Deus, que é, nas palavras de São Paulo, o Novo Adão, aquele que veio restaurar a plena humanidade, nos comprometemos a sermos pessoas maduras e livres como Jesus.

Jesus nos convida a superarmos a religiosidade do medo, da proibição e da regra e descobrirmos a sua espiritualidade leve. Só assim, sendo seres humanos maduros e livres, seremos sal e luz. O mundo precisa de pessoas livres como Jesus, para lhe temperar e iluminar.

Para sermos de fato sal e luz precisamos da contemplação, dos momentos de solitude e silêncio, para nos esvaziarmos de nossos desejos, pensamentos e preocupações e sermos preenchidos/as por Cristo. Através da contemplação, portanto, exploramos as “profundezas de Deus” (1 Co 2,10) e somos levados/as a transformar o mundo com tamanha revelação.

Porém, a vida cristã não é apenas vida contemplativa, é também vida ativa. Iluminados/as pelo amor que é Deus, somos conduzidos/as a denunciarmos as transgressões de nossa sociedade, soltarmos as ligaduras da impiedade, as ataduras da servidão, deixarmos livres os oprimidos, despedaçarmos todo jugo, repartirmos o pão com o faminto, recolhermos em casa os pobres desabrigados, cobrirmos o nu e não nos escondermos do nosso semelhante (Is 58,6-7).

Assim, vivendo como contemplativos/as e ativistas, seguindo o Espírito Libertador na labuta diária pela felicidade humana e da terra, seremos, enfim, sal da terra e luz do mundo.

light-world

Entre o cotidiano e a utopia

Um ensaio sobre espiritualidade e política

jesus-campesino-peru-1970

*

O descontentamento com a vida é hoje algo generalizado. As cidades insanas e os trabalhos enclausurados em escritórios sem sentido angustiam a maioria de nós, levando-nos à depressão e a outras doenças.

Como chegamos a uma situação tão deplorável, de destruição do planeta, de estilos de vida baseados no consumo e de trabalhos enlouquecedores? Como encontrar sentido, tranquilidade e harmonia em nossas vidas? Essas questões, centrais a nosso tempo, assim como a pobreza que assola a milhões, são problemas ao mesmo tempo políticos e espirituais.

Não é possível sair da crise ética — referente ao nosso estilo de vida — e econômica — referente à nossa forma de produzir os itens necessários à vida — que vivenciamos sem o redescobrimento da política como a busca pelo bem comum ou o fim último do ser humano — como em Aristóteles — e da espiritualidade, isto é, a capacidade de introspecção, de viver em harmonia com a Verdade mais profunda.

Acontece, porém, que temos uma degeneração da política, tornada em fisiologismo e busca de autopromoção (o que, por definição, é uma antipolítica, visto que política é a busca pelo bem comum); e da espiritualidade, transformada em individualismo e autoajuda (mais uma vez, uma contradição, dado que espiritualidade é a superação do ego em favor do Outro).

Como podemos, então, descobrir o real significado, na prática, de política e espiritualidade?

11222584_422470397942699_6261587109863156372_n

*

Antes de tudo, porém, reconheçamos que política e espiritualidade formam apenas uma distinção didática da vida, que quando saudavelmente experimentada, é indivisa. Não é possível ser político sem ser espiritual e vice-versa. A luta constante pela justiça (política) brota de um desejo profundo, escondido em todo ser humano (espiritualidade).

Isso, é claro, não exclui pessoas irreligiosas da categoria do bem viver e da política, porque é possível ser espiritual sem ser religioso.

Se a indistinguibilidade prática de política e espiritualidade exclui religiosos apolíticos é uma questão mais complicada. Ser apolítico é uma posição política porque tudo é política, tudo envolve um jogo de forças. Porém, ser apolítico, no sentido de não se importar com este mundo, num ascetismo barato, é uma postura anti-espiritual, porque a espiritualidade não é a negação do mundo, mas a comunhão com o Transcendente para melhor viver no mundo.

Voltando à questão de como pensar a prática político-espiritual em nossa América Latina no nosso século, creio que os três elementos apresentados por Julio de Santa Ana, ao falar do convite feito pela Sabedoria divina à resistir a opressão, podem nos ajudar. Esses três elementos são: metanoia, enlace orgânico e intercâmbio.

10995450_1008328629194496_6084714743704679389_n

*

O primeiro passo é desenvolver uma nova consciência ética, ou seja, a metanoia. Essa palavra grega, utilizada para designar conversão no Novo Testamento, significa literalmente uma expansão de consciência. O primeiro passo para viver integralmente, reconhecendo o entrelaçamento entre política e espiritualidade, é romper com o antigo estilo de vida, de reprodução mimética do estilo de vida baseado no consumo.

Deve-se, paradoxalmente, romper com o individualismo de nossa sociedade, reconhecendo que o Outro é digno dos mesmos direitos que eu, ao descobrir-se um ser humano único, desenvolvendo autenticidade, sendo quem se é, em vez de ser quem dizem que deve ser.

Em segundo lugar, deve-se viver no que Julio de Santa Ana chama de comunidade de partilha (enlace orgânico), ou seja, comunidades de resistência à dominação física e psicológica a que estamos sujeitos. Não é possível resistir sozinho. Andar sozinho só é possível no “sonho americano” (sic) e mesmo assim, não passa de uma falsa individualidade, já que por mais que o estilo de vida capitalista apenas proponha o individualismo, todos os seus súditos soam e aparentam iguais.

Por fim, e de central importância, é preciso criar redes com outras comunidades (intercâmbio). Como aponta Emanuel Lévinas, todo ser humano tem o desejo pelo infinito (espiritualidade), que se realiza, embora nunca totalmente, na abertura ao Outro (política). É necessário romper a lógica capitalista da relação Eu-Isso (relação com objeto) e redescobrir o outro como Tu (como sujeito), como nos ensina Martin Buber.

Para que um grupo não se fetichize, não se totalize, e continue alimentando sua espiritualidade, ou seja, seu desejo pelo infinito, ele precisa constantemente abrir-se àqueles que estão do lado de fora. Por isso, toda religião, quando fecha-se sobre si mesma, sem dialogar com as outras, condena sua mística ao esquecimento, ao passado.

*

Redescobrindo-se um estilo de vida mais profundo, ciente de sua própria dignidade como ser humano, em contato com o Sagrado, e da necessidade do Outro para o bem viver, reconheceremos que política e espiritualidade andam sempre de mãos dadas e que qualquer separação diminui a vitalidade de cada um e cada uma de nós.

O novo falando dentro da gente

Prédica para o Ano Novo

makoto-fujimura

Eclesiastes 3,1-13

1 Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu:
2 há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou;
3 tempo de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar;
4 tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria;
5 tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar;
6 tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora;
7 tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar;
8 tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz.
9 Que proveito tem o trabalhador naquilo com que se afadiga?
10 Vi o trabalho que Deus impôs aos filhos dos homens, para com ele os afligir.
11 Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim.
12 Sei que nada há melhor para o homem do que regozijar-se e levar vida regalada;
13 e também que é dom de Deus que possa o homem comer, beber e desfrutar o bem de todo o seu trabalho.

*

Resoluções de ano novo

Um ano começa. Estamos diante de uma tela em branco prestes a ser pintada como desejarmos. É comum, nessa época, estabelecermos metas para o novo ano, para o que faremos e compraremos. Contudo, a maioria desses objetivos e hábitos que nos comprometemos a buscar são logo abandonados.

Por que nossas resoluções não dão certo? Talvez porque estejamos olhando para nossa vida de uma maneira negativa. Buscamos, acima de tudo, ter e ser mais. Queremos sempre mais, um cargo mais alto, um carro mais novo, uma casa maior, etc. Estamos entulhados pela perniciosa lógica do crescimento infinito. Com isso, acabamos por postergar a nossa felicidade. “Serei feliz assim que…”, pensamos.

Poderíamos criticar toda a ideia de resoluções de ano novo como uma superstição. Como se a mudança de ano magicamente pudesse nos fazer pessoas melhores. Porém, o ano novo é um bom tempo para desintoxicar, repensar a nossa vida, deixar o que é supérfluo para trás e redescobrir o essencial.

*

Um caminho alternativo

Como podemos, então, pensar a nossa vida de uma maneira mais saudável? Como fazer esse detox da alma? O livro de Eclesiastes nos apresenta um caminho alternativo.

Segundo Eugene Peterson, pastor e escritor estadunidense,

Eclesiastes faz uma limpeza geral na nossa alma, removendo a espiritualidade ‘habitual’ — aí, sim, estamos prontos para a visitação de Deus, revelada em Jesus Cristo. Eclesiastes é um livro que lembra João Batista. Funciona não como uma refeição, mas como um banho. Não é alimento; é limpeza. É arrependimento. É expiação. Lemos Eclesiastes para nos lavar e ficar limpos da ilusão, das opiniões, das ideias idólatras e dos sentimentos que causam revolta. Consiste na exposição e rejeição da expectativa arrogante e equivocada de que podemos viver nossa vida por nós mesmos.

No primeiro versículo do nosso texto, o Coélet — o homem da assembleia — afirma que “há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu.” Essas duas palavras, “momento” e “tempo”, embora algumas traduções apresentem apenas a palavra “tempo”, são diferentes no original. Quando elas foram levadas para o grego, foram traduzidas como “kairós” e “chronos”, respectivamente — palavras que talvez vocês já conheçam. Enquanto o tempo, o chronos, é o tempo no sentido cronológico, que repete-se ritmicamente e incessantemente; o kairós é o tempo num sentido qualitativo, é o tempo certo em que algo acontece.

O capítulo 3 de Eclesiastes, portanto, começa afirmando a necessidade de vivermos plenamente presentes no momento presente.

Tiago 4,13-14 traz esse tema ao afirmar:

E agora, vós os que dizeis: ‘Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, passaremos ali um ano, negociando e obtendo bons lucros.’ E, no entanto, não sabeis nem mesmo o que será da vossa vida amanhã! Com efeito, não passais de vapor que se vê por alguns instantes e depois logo se desfaz.

Esses versículos de Tiago têm muito em comum com o livro de Eclesiastes. A afirmação central do Coélet é justamente que tudo é vapor — vocês provavelmente conhecem a afirmação “tudo é vaidade”, encontrada no princípio deste livro; porém, essa palavra comumente traduzida como “vaidade”, “havel” no hebraico, significa vapor —, efêmero, transitório e, portanto, precisamos viver com atenção plena ao momento presente.

Os romanos costumavam dizer “memento mori”, ou seja, “lembre-se que irá morrer”. Apesar dessa afirmação ser estranha para nós hoje, ela contém uma sabedoria fundamental. É a partir da ciência da fragilidade da vida, do fato de que em breve estaremos mortos, que podemos relativizar nossa vida, eliminar tudo que nos faz infelizes — como, por exemplo, vivermos direcionados não pelo nosso desejo mais profundo, mas seguindo as aspirações de nossa sociedade — e focarmos no que é realmente importante.

Essa é a mensagem fundamental de Eclesiastes e que é também essencial para refletirmos neste novo ano: viver totalmente presentes no momento presente, certos de que tudo é vapor.

Para vivermos essa verdade, é necessário redescobrirmos as virtudes da simplicidade e da gratuidade.

Nos versículos 12 e 13, o Coélet diz:

E compreendi que não há felicidade para ele [o ser humano] a não ser no prazer e no bem-estar durante sua vida. E, que o homem coma e beba, desfrutando do produto de todo o seu trabalho, é dom de Deus.

Ou seja, para vivermos um ano novo abençoado, é preciso não o esforço para desenvolver novos hábitos — por mais que sejam importantes — mas novos olhos: aceitar a gratuidade da vida e viver com simplicidade, contentando-nos e satisfazendo-nos com as pequenas tarefas e maravilhas do dia a dia. É preciso, como disse o Rubem Alves, nascermos de novo a cada momento, sermos crianças, sempre encantados com o que se apresenta à nossa frente.

*

Carlos Drummond de Andrade, em seu famoso poema “Receita de Ano Novo”, escreveu:

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

O meu desejo é que eu e você possamos dar ouvido ao Novo falando dentro da gente e que assim, 2017 se revele um ano cheio de surpresas e pleno da presença daquele que é Mistério e não cansa de nos encantar.

Natal: o amor que transborda da eternidade para o tempo

Rembrandt - The Nativity (1646)

Apesar de possuirmos histórias de vida muito diferentes, é verdade que a história do Natal encanta a todos nós. Sua singela grandeza nos move a contemplarmos o mistério da vida.

A história do Natal nos mostra que Deus, a realidade última do universo, não está distante de nós, sentado num trono, ditando as regras e punindo insensivelmente aqueles que transgridem. O Natal nos faz contemplar “Deus revelando a profundidade da vida divina”, transbordando um amor que brota “da eternidade para a história”. No Natal, vemos com clareza que “a própria natureza de Deus é compartilhar a vida” e que “não há nada de Deus que não seja compartilhado, que não seja doado.” (Rowan Williams)

Ao nos mostrar Deus entrando na história humana, o Natal nos dá esperança. Nos mostra que apesar da maldade e do sofrimento que somos capazes de perpetrar, “a humanidade não é uma causa perdida”. Nós somos hóspedes da graça e do amor divinos — hospitalidade que relembramos continuamente na Eucaristia (Rowan Williams).

A história do Natal é um evento que se concretiza a cada momento e alcançou sua plenitude na ressurreição de Jesus, em que a sutileza, a suavidade, a compaixão e a simplicidade triunfam sobre a força e a ostentação do poder.

Deus veio ao nosso encontro. Essa é a mensagem do Natal, evento que nos desafia à virtude de não tentar conquistar as coisas pela força, mas aceitar com gratidão a graça da vida. O nascimento de Jesus nos convida a confiar que Deus nos conhece antes mesmo de nós o conhecermos; nos escolhe para viver uma vida diferente daquilo que a sociedade exige, uma vida única e autêntica; e nos entrega ao mundo, para espalhar a Nova Realidade, a Nova Vida, baseada na simplicidade e no amor (Eugene Peterson).

*

Inspirações

Eugene Peterson. Corra com os cavalos.
Rowan Williams. A Good Christmas.
Thomas Schenk – The Tao of Christmas.

Pessoas de espírito no Antropoceno

k5

Uma das melhores formas, até agora desenvolvidas, de nomear nossa era, num sentido planetário, é chamando-a “antropoceno”. Pela primeira vez na história da Terra, suas condições de vida são marcadas principalmente pela ação humana. As consequências — olhe pela janela — são claramente horríveis.

Nesse contexto, o que significa sermos pessoas de espírito? Espiritualidade é um termo que vai além das tradições religiosas, porque “espírito” é vento, sopro. Espiritualidade nada mais é do que vitalidade. Ser espiritual, então, significa estar em contato íntimo e constante com o próprio fôlego, em atenção à fonte de vida.

Procuro apresentar aqui algumas chaves de leitura para avaliar a condição humana nesta era, aprendendo principalmente de seus erros.

*

Cartografia

k3

“O inferno não tem limites”, afirma Mefistófeles, na versão de Christopher Marlowe de Fausto. Infelizmente nossa era confundiu liberdade com vida sem limites. Com base nessa lógica, explora-se o planeta sem refletir ou sentir peso na consciência. “Amarás ao Progresso teu Deus com todo o teu dinheiro, de todas as tuas forças e com todos os cálculos.”

Pensamos em liberdade como soberania pessoal. Somos nossos próprios reis e rainhas. Ser indivíduo, nesta lógica, significa ser auto-determinado e auto-afirmativo.

Contudo, como sabiamente descreve a tradição cristã, a liberdade não significa apenas liberdade de, mas também liberdade para. Segundo essa tradição, a liberdade é um dom de Deus e é exercida na comunidade de fé, onde, paradoxalmente, descobrimos nossos limites e, assim, as possibilidades da liberdade.

Não existimos sozinhos, apesar de nossa religião Progresso dizer o contrário. Só é possível existir em relação. Existir é ser ético, é responder livremente às interpelações feitas pelo outro.

As pessoas de espírito no antropoceno devem exercitar-se na descoberta de seus próprios limites, reconhecer a necessidade do outro (não só indivíduo, mas também comunidade) e amadurecer suas respostas às demandas do mundo.

*

Poética

img-mary-mattingly_085246379353-jpg_x_325x433_c

As notícias e expectativas catastróficas dão-nos a ideia de que precisamos agir mais do que já fazemos (se é que fazemos) para barrar os efeitos das mudanças climáticas e de indústrias inconsequentes.

De fato é necessário agir. Mas é preciso reter a noção de que o ativismo incessante é permanecer na lógica do progresso. “Nenhum momento pode ser perdido. Tempo é dinheiro.” Precisamos, mais do que nunca, de uma ruptura com essa lógica.

Como já afirmei em outro lugar, a primeira ação de resistência é parar, silenciar. A não-ação, numa era onde um dos dogmas é “age!”, é subversiva.

Precisamos redescobrir o mistério da vida e do mundo, abraçar — literalmente — a vida. Se é que há redenção, ela está além de nossa mente e toma conta de todo o ser. Precisamos ser criativos — dom do espírito — e descobrir formas novas de viver, além das 8h de escritório, da televisão e do fast-food.

*

“Não à revolução!”

k1

Assim como o progresso é o mote de nossa era, também o é a revolução. Negamos o passado, a tradição e esquecemos — numa linguagem cristã, que o/a leitor/a deve traduzir — que somos criatura e não Criador.

Nossa arrogância é tão grande, que pensamos que nada que foi feito antes e não por nós não vale a pena ser observado e o que fazemos é suficiente para tudo.

Contudo — sinto em lhe dizer — nada criamos do nada e nada somos sem os outros. A tradição não é morta, porque o passado é a fonte de todas as possibilidades do agora e do porvir.

Os gênios do passado não foram inovadores e empreendedores de sucesso, mas intérpretes da tradição. Averróis foi gênio porque intérprete de Aristóteles, Lutero foi gênio porque intérprete de Paulo, etc.

Querer ser um gênio, independente do passado (o que, como vimos, é uma contradição) é querer usurpar o posto divino. Humilde é aquele que por amor a Deus, submete-se ao passado em fiel interpretação e reforma.

Como está escrito em O profeta e a Revolução, do Paulo Brabo, “Para fazer violência contra a revolução do capitalismo é preciso abrir mão da revolução. É preciso escolher as margens. É preciso pisar para fora do sistema.”

*

Em suma, o não-dualismo

k4

Sintetizando o que já foi dito, romper com a lógica do progresso é romper com a mentalidade dualista que ela nos apresenta.

Necessitamos, acima de tudo, ir além da razão e ser pessoas inteiras (com emoção, desejos, doenças, limites); ir além do discurso e  gesticular um novo-velho mundo, através novos-velhos rituais.

Temos que ir além da mentalidade universalista/realista (como, por exemplo, do catolicismo medieval) e do individualismo (este que vivemos). Só é possível abranger o todo quando se é único. A isso, roubando o termo da antropologia, podemos chamar “perspectivismo”.

*

(Algumas das) Inspirações

Eduardo Viveiros de Castro. A inconstância da alma selvagem.

Jürgen Moltmann. O Espírito da Vida: Uma Pneumatologia Integral.

Paulo Brabo, O Profeta e a Revolução.

Rui de Souza Josgrilberg. Eclipse de Deus – Intérpretes de Deus.

Wendell Berry. Faustian Economics.

Espadas e Arados

Prédica para o Primeiro Domingo do Advento

10_lpk_thelittlepeacekeeper_01-035

    Visão que teve Isaías, filho de Amós, a respeito de Judá e de Jerusalém.
Dias virão em que o monte da casa de Iahweh
será estabelecido no mais alto das montanhas
e se alçará acima de todos os outeiros.
A ele afluirão todas as nações,
muitos povos virão, dizendo:
“Vinde, subamos ao monte de Iahweh,
à casa do Deus de Jacó,
para que ele nos instrua a respeito dos seus caminhos
e assim andemos nas suas veredas.”
Com efeito, de Sião sairá a Lei,
e de Jerusalém, a palavra de Iahweh.
Ele julgará as nações,
corrigirá muitos povos.
Estes quebrarão as suas espadas, transformando-as em relhas,
e suas lanças, a fim de fazerem podadeiras.
Uma nação não levantará a espada contra a outra,
e nem se aprenderá mais a fazer guerra.
Casa de Jacó, vinde, andemos na luz de Iahweh!

(Isaías 2,1-5)

Hoje é o primeiro domingo do Advento, que marca o início do ano litúrgico. Mas, é sempre bom lembrar, o que é o Advento e o que é o ano litúrgico?

O calendário conta anualmente a história da salvação. Ele começa com o Ciclo do Natal (Advento, Natal, Epifania e Batismo do Senhor), segue-se o chamado Tempo Comum, em que somos convidados/as a perceber a presença divina naquilo que é ordinário, depois o Ciclo da Páscoa, centro do ano litúrgico, que compreende a Quaresma, Semana Santa, Páscoa e Pentecostes. Segue-se novamente outro Tempo Comum, mais longo, até o Domingo de Cristo Rei, que encerra o ano.

O objetivo do Ano Litúrgico é centrar as nossas vidas em Jesus Cristo, formando a nossa espiritualidade, criando espaço para que seu Espírito nos molde e nos conectando ao Corpo de Cristo. Como disse o pastor e escritor estadunidense Rob Bell, “o que o calendário da igreja faz é criar espaço para que Jesus nos encontre em toda a gama da experiência humana, para que Deus fale conosco através de todo o espectro, no bom e no mau, na alegria e nas lágrimas”.

O Advento, período em que estamos, compreende os quatro domingos antes do Natal. É um tempo de preparação para a vinda de Jesus. É um tempo de expectativa da chegada do Reino, que já está presente entre nós, mas ainda não em plenitude. O Advento nos ensina que Deus não abandonou o mundo, nossa esperança é real e algo diferente está para acontecer.

O Advento nos convida ao silêncio, para eliminarmos aquilo que nos distrai do que é essencial e focarmos no que é importante. Com isso, certamente perceberemos as dores e a angústia que tentamos esconder de nós mesmos, mas também encontraremos Deus em nosso silêncio, dentro de nós, nos dando esperança.

***

O que nosso texto de hoje tem a nos ensinar sobre o Advento? Como ele pode formar a nossa espiritualidade?

Essa bela poesia do profeta Isaías nos leva a questionar o que nós esperamos. Quais são nossos sonhos? Quais são nossas utopias, ou seja, nossos horizontes? O texto nos ensina a corrigir nossas utopias e, consequentemente, nossas ideias sobre Deus.

É comum pensarmos, como foi bastante divulgado nos últimos anos, que o fim da história será marcado por um Jesus guerreiro, que destruirá aqueles/as que não são como nós. Essa era a esperança que a multidão e mesmo os discípulos colocaram sobre Jesus. Porém, como vimos no domingo passado, o Domingo do Cristo Rei, o próprio Jesus frustrou essa expectativa. Ele não era o messias guerreiro, esperado pelo povo, mas o cordeiro imolado por Deus, aquele que se esvaziou de si e se doou ao mundo.

O texto do profeta Isaías nos ensina a olhar para o futuro como horizonte de esperança, de paz, a esperar um futuro aberto a todos os povos que, sem deixar de lado sua diversidade, vivem em união fraterna e, por isso, transformam as espadas em arados e as lanças em podadeiras.

A esperança de todos os povos indo à Sião, para aprenderem o caminho da paz, podemos ver cumprida já em Pentecostes, que São Pedro interpreta a partir da profecia de Joel 3,1-5, afirmando o derramamento do Espírito Santo sobre toda a carne, ou seja, sobre toda a humanidade e a consequente eliminação das diferenças entre homens e mulheres e entre senhores e servos. Se todos estamos inspirados por Deus, quem somos nós para questionar a legitimidade da experiência religiosa de uma pessoa, pelo simples fato dela não ser cristã?

A esperança de um mundo em que as armas, os instrumentos da morte, são convertidas em instrumentos de vida podemos ver cumprida já na Ressurreição, em que a maior arma do Império, a cruz, é transformada em fonte de nova vida para toda a criação.

A paz perpétua sonhada por Isaías ensina-nos a pensar a Igreja não como um grupo fechado sobre si mesmo, mas como um grupo a serviço do mundo, que demonstra sinais da ressurreição através da conversão dos instrumentos da morte em instrumentos de vida.

***

A tradição cristã nos convida a olhar para o futuro com esperança, a sonharmos com um mundo em que todas as forças da morte sejam superadas pela vida.

Para que a esperança do Advento crie raízes em nós, gostaria de sugerir alguns exercícios para praticarmos durante essas quatro semanas. Não precisamos fazer todos, mas podemos escolher só um e praticá-lo diligentemente.

Sugiro, primeiro, a prática tradicional do jejum, que nos ensina a concentrar nossas forças em Deus e a esperar por ele.

Sugiro, a prática, tão essencial, mas infelizmente tão negligenciada, da oração em silêncio. O Advento é um tempo de silêncio. De silêncio para que se crie em nós espaço para que Deus habite.

Sugiro, por fim, que passemos uma parte da noite, pelo menos, em vigília, aguardando pacientemente a chegada da luz divina.

Que a esperança de um mundo de paz e a certeza vista em Jesus Cristo de que nosso Deus é Deus de paz, nos dê ânimo para peregrinarmos alegres, como testemunhas da Ressurreição.