Nu e Cru

O interesse por tudo que é nu e cru vem de longa data, está escrito em nossas peles. Por isso, meu nome não é sem razão. Como dizia a abandonada página Sobre, Furoa significa chão.

Contra a gravidade, força de Urano, e a favor de Gaia, o ser humano é feito de barro. E como aquilo que o anima é o fôlego que vem do céu, seu corpo ama a terra.

Prova disso é que mesmo Deus, cansado das abstrações celestiais, quis se fazer criança e lambuzar-se de lama. Urano e Gaia puderam novamente fazer amor.

Assim somos nós. Animados pelo vento somos levados a abraçar a terra. Ser leve é abandonar os voos metafísicos. Leve é viver no chão.

Como nos ensinam as árvores, que deixam cair suas folhas, a única constante é a inconstância de tudo que existe.

Preparem-se que vem tempestade por aí.

Perigos na caminhada espiritual

Otto Dix - Entry Jerusalem

Vemos atualmente muitas pessoas interessadas numa vivência espiritual mais aprofundada. Os cursos de meditação, os grupos de orientação e oração contemplativa têm felizmente se multiplicado.

Isso é positivo e sinal de esperança em tempos tão tenebrosos. Porém, o caminho da espiritualidade tem alguns buracos na pista que atrapalham e as vezes impedem de vez o nosso progresso. É sobre alguns desses perigos que conversaremos neste texto.

Desistir diante das primeiras dificuldades

Qualquer um que desejar trilhar o caminho da espiritualidade logo constatará que ele não é tão plano e tranquilo como podia parecer.

A primeira tentação, ao ver um buraco na pista — não sentir nada, não perceber a resposta de sua oração, ver-se irado ou estressado, [acrescente sua frustração aqui] — é desistir da estrada, voltar e tomar outro caminho.

Como todos os mestres da vida espiritual — com o perdão do pleonasmo — e toda pessoa já bem vivida — não só em idade — pode assegurar, caminhos que parecem muito perfeitos sempre terminam em penhascos.

Ao ver-se em dificuldade, persista, olhe para as dificuldades como sinal de progresso e da ação purificadora que está acontecendo na sua vida.

Gula espiritual

Ao me deparar com a profundidade de vida encontrada na tradição cristã, com os tantos livros sobre espiritualidade e as várias práticas espirituais, cometi o pecado da “gula espiritual”. Queria ler todos os livros, dominar todos os estágios da vida espiritual e ter todas as experiências possíveis.

Estava sedento e ao encontrar o rio, em vez de beber aos poucos, joguei-me na água e quase morri afogado.

O caminho da espiritualidade deve ser trilhado devagar. Saboreie cada livro, cada momento com profundidade. Afinal, o objetivo — se é que se pode dizer assim — das disciplinas espirituais nada mais é do que viver totalmente presente no momento presente.

Não tente pular etapas. Seja humilde e paciente. Comece com passos pequenos e singelos. Não precisa comprar todos os livros do mundo e lê-los com pressa. Antes de comprar um livro de oração, experimente orar os Salmos. Antes de tentar práticas mais avançadas de oração, experimente abrir seu coração diante de Deus.

Como diz o ditado, devagar se vai mais longe.

Caminhar sozinho

Todas as tradições religiosas do mundo afirmam a importância da comunidade, dos (con)[in]spiradores na vida espiritual. Sozinhos, conseguimos dar alguns passos, mas só é possível ir adiante com a ajuda de gente inspirada pelo mesmo Sopro que a gente.

Quando caminhamos sozinhos, logo desistimos nos momentos de desolação. Contudo, quando temos uma comunidade, amigos que são mais próximos que irmãos, conseguimos forças para continuar. As vezes não entendemos o que estamos passando, mas alguém da comunidade, ou nosso mentor na vida espiritual vai nos ajudar a compreender o que acontece ou simplesmente estará conosco em silêncio.

A comunidade nos mostra nossas falhas, nossas possibilidades e nos corrige. Quem caminha sozinho tem sempre a tentação de crer-se superior e, por estar num ponto de vista viciado, não consegue enxergar seus erros.

Que possamos caminhar juntos e juntas, resistindo às dificuldades e com paciência, inspirados pelo passado e com os olhos na utopia.

Razão versus Experiência

Desde muito tempo, a humanidade percebeu que seus sentidos poderiam enganar, ou seja, não podemos confiar neles para tudo. Disso resultou uma depreciação da experiência e valorização da razão. Isso foi muito forte até o século passado.

Porém, outro problema apareceu: a razão só existe a partir da experiência e só se concretiza na experiência. Por isso, precisamos desconfiar não só de nossos sentidos, mas também de nossa razão.

Daqui surge uma “multiepistemologia”: a experiência, a razão, a emoção, o corpo, a ciência e a espiritualidade são todas formas válidas de conhecimento, embora nunca contendo a totalidade do mundo e sempre passíveis de erro.

Mas retornemos à questão da razão e da experiência. Creio que a desconfiança da experiência e a valorização da razão decorrem de um erro básico: dicotomizar razão e experiência. Explico-me.

1. Toda experiência envolve a razão. Enquanto experienciamos algo, a razão está presente, independentemente de sua forma de atuação. A mística nos ajuda a perceber isso. Teresa d’Ávila, por exemplo, diz sobre suas experiências religiosas: “O entendimento não discorre, a meu parecer, mas não se perde. Mas, como digo, não opera, antes fica como espantado com o muito que entende.” (Livro da Vida, 10)

2. Todo raciocínio envolve a experiência. Isso se dá pelo fato de que não podemos raciocinar nos abstraindo de nossa experiência de vida, isto é, de nosso passado, de nosso conhecimento, etc. Além disso, a razão envolve a experiência porque acontece dentro dos limites da vida vivida (perdoem-me o pleonasmo), daquilo que experienciamos enquanto raciocinamos. Não há razão fora da experiência, racionalizar é experienciar.

Para finalizar, pensemos numa dialética. A tese é a experiência religiosa, digamos. Esta experiência será racionalizada e gerará sua antítese: a razão dogmática. Disso resultará uma nova forma de experiência religiosa, como síntese. E assim ao infinito.

Aquilo que busco

A confusão da estética com a riqueza transformou a obra de arte em objeto de mercadoria e nos fez pensar que a beleza estava na ostentação e no esplendor.

(Jaci Maraschin, A Estética dos Pobres)

Aquilo que busco não pode ser encontrado em blogues, livros e redes sociais. Não é um estilo de vida passível de ser copiado ou comprado.

Eu almejo o Sagrado. E como este é disforme, vivo na incompletude, buscando palavras e histórias que possam, talvez, apontar para ele.

Não tenho o que dizer. Busco a arte e o silêncio, que tornam a vida tão profunda quanto um abraço apertado. Ando descalço, em busca de uma religação com a terra.

Estou cansado, física e existencialmente. Busco refúgio, consolo. Sou miserável e sei que o pão do qual tenho fome não pode ser comprado.

Me conforto sabendo que não há resposta. Talvez até haja, mas ninguém saiba a pergunta.

O gesto de dançar

Gesto, segundo o filósofo Giorgo Agamben, é um meio sem fim. Ou seja, o gesto não aponta para nada fora de si, ele torna ele mesmo visível. O gesto é a manifestação daquilo que não pode ser dito na linguagem.

Dançar, portanto, é um gesto e, como tal, é um absurdo. É algo sem sentido, sem metas. Porém, o absurdo é extremamente necessário em nossos dias.

Passamos o tempo todo preocupados em cumprir os nossos deveres e em produzir cada vez mais. Contudo, a vida é mais que tempo cronológico, é também tempo imensurável — kairós — que enche a vida de sentido.

É preciso reaprender a dançar, a sermos simples e leves, despreocupados dos nossos deveres e abraçar com força total o momento presente. Tempus fugit.

O ato de dançar, além de celebrar o inútil, nos leva de volta à dimensão irracional e misteriosa da vida. Nem tudo cabe em palavras. A vida não pode ser engaiolada na razão. Dançar é, antes de tudo, uma ação mística.

O Rubem Alves contava a história de uma menina que vivia saudosa e chorosa pelo pássaro encantado. Não aguentando mais a saudade, ela o prendeu numa gaiola de prata. Mas lá o pássaro murchou, seus olhos se entristeceram e suas cores se apagaram. A menina entendeu que é melhor a saudade encantada à tristeza presente. Ela então abriu a porta da gaiola e o pássaro voou para a saudade crescer.

Talvez devêssemos abrir a porta de nossa razão e deixar a vida fluir, enchendo a existência de uma beleza encantadora.

Nietzsche disse que só podia acreditar num Deus que soubesse dançar. Para Deus ser Deus é preciso que Deus se liberte do peso da gravidade, viva em movimento. Assim devemos ser também, desincomodados com a existência, livres para desafiar a gravidade que nos é imposta.

Viver, ao contrário do que pretendem certos religiosos, é ser corpo. O corpo não é um objeto, é antes o que possibilita a existência dos objetos. Ele é o único ponto de vista possível sobre tudo que existe. O corpo não pode ser reduzido a um conceito, não pode ser analisado anatomicamente. Ele é mais e está em fluxo constante nos convidando a ser mais.

O corpo, Deus e a vida são ótimos dançarinos. Infelizmente desaprendemos a capacidade de dançar. Vivemos presos ao chão, sem capacidade de imaginar, ir além dos passos secos e ser livres.

***

Quando a vida te invade,
com intensidade incapaz
de caber em palavras.

Deus se faz carne
para dançar conosco.
A vida transcende
em sua própria imanência.

Tudo que precisamos está aqui,
nada do que precisamos está aqui.