Entre o cotidiano e a utopia

Um ensaio sobre espiritualidade e política

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O descontentamento com a vida é hoje algo generalizado. As cidades insanas e os trabalhos enclausurados em escritórios sem sentido angustiam a maioria de nós, levando-nos à depressão e a outras doenças.

Como chegamos a uma situação tão deplorável, de destruição do planeta, de estilos de vida baseados no consumo e de trabalhos enlouquecedores? Como encontrar sentido, tranquilidade e harmonia em nossas vidas? Essas questões, centrais a nosso tempo, assim como a pobreza que assola a milhões, são problemas ao mesmo tempo políticos e espirituais.

Não é possível sair da crise ética — referente ao nosso estilo de vida — e econômica — referente à nossa forma de produzir os itens necessários à vida — que vivenciamos sem o redescobrimento da política como a busca pelo bem comum ou o fim último do ser humano — como em Aristóteles — e da espiritualidade, isto é, a capacidade de introspecção, de viver em harmonia com a Verdade mais profunda.

Acontece, porém, que temos uma degeneração da política, tornada em fisiologismo e busca de autopromoção (o que, por definição, é uma antipolítica, visto que política é a busca pelo bem comum); e da espiritualidade, transformada em individualismo e autoajuda (mais uma vez, uma contradição, dado que espiritualidade é a superação do ego em favor do Outro).

Como podemos, então, descobrir o real significado, na prática, de política e espiritualidade?

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Antes de tudo, porém, reconheçamos que política e espiritualidade formam apenas uma distinção didática da vida, que quando saudavelmente experimentada, é indivisa. Não é possível ser político sem ser espiritual e vice-versa. A luta constante pela justiça (política) brota de um desejo profundo, escondido em todo ser humano (espiritualidade).

Isso, é claro, não exclui pessoas irreligiosas da categoria do bem viver e da política, porque é possível ser espiritual sem ser religioso.

Se a indistinguibilidade prática de política e espiritualidade exclui religiosos apolíticos é uma questão mais complicada. Ser apolítico é uma posição política porque tudo é política, tudo envolve um jogo de forças. Porém, ser apolítico, no sentido de não se importar com este mundo, num ascetismo barato, é uma postura anti-espiritual, porque a espiritualidade não é a negação do mundo, mas a comunhão com o Transcendente para melhor viver no mundo.

Voltando à questão de como pensar a prática político-espiritual em nossa América Latina no nosso século, creio que os três elementos apresentados por Julio de Santa Ana, ao falar do convite feito pela Sabedoria divina à resistir a opressão, podem nos ajudar. Esses três elementos são: metanoia, enlace orgânico e intercâmbio.

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O primeiro passo é desenvolver uma nova consciência ética, ou seja, a metanoia. Essa palavra grega, utilizada para designar conversão no Novo Testamento, significa literalmente uma expansão de consciência. O primeiro passo para viver integralmente, reconhecendo o entrelaçamento entre política e espiritualidade, é romper com o antigo estilo de vida, de reprodução mimética do estilo de vida baseado no consumo.

Deve-se, paradoxalmente, romper com o individualismo de nossa sociedade, reconhecendo que o Outro é digno dos mesmos direitos que eu, ao descobrir-se um ser humano único, desenvolvendo autenticidade, sendo quem se é, em vez de ser quem dizem que deve ser.

Em segundo lugar, deve-se viver no que Julio de Santa Ana chama de comunidade de partilha (enlace orgânico), ou seja, comunidades de resistência à dominação física e psicológica a que estamos sujeitos. Não é possível resistir sozinho. Andar sozinho só é possível no “sonho americano” (sic) e mesmo assim, não passa de uma falsa individualidade, já que por mais que o estilo de vida capitalista apenas proponha o individualismo, todos os seus súditos soam e aparentam iguais.

Por fim, e de central importância, é preciso criar redes com outras comunidades (intercâmbio). Como aponta Emanuel Lévinas, todo ser humano tem o desejo pelo infinito (espiritualidade), que se realiza, embora nunca totalmente, na abertura ao Outro (política). É necessário romper a lógica capitalista da relação Eu-Isso (relação com objeto) e redescobrir o outro como Tu (como sujeito), como nos ensina Martin Buber.

Para que um grupo não se fetichize, não se totalize, e continue alimentando sua espiritualidade, ou seja, seu desejo pelo infinito, ele precisa constantemente abrir-se àqueles que estão do lado de fora. Por isso, toda religião, quando fecha-se sobre si mesma, sem dialogar com as outras, condena sua mística ao esquecimento, ao passado.

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Redescobrindo-se um estilo de vida mais profundo, ciente de sua própria dignidade como ser humano, em contato com o Sagrado, e da necessidade do Outro para o bem viver, reconheceremos que política e espiritualidade andam sempre de mãos dadas e que qualquer separação diminui a vitalidade de cada um e cada uma de nós.

Quem queria ver acabou sendo visto

Prédica para o Vigésimo Quarto Domingo Após Pentecostes

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Questão

Nós vamos ouvir hoje a história de uma pessoa que queria ver Jesus e acabou sendo vista por ele. Vocês sabem quem é?

Essa definição bem que poderia se encaixar na vida de muitas pessoas (ou todas?) que se encontraram com Jesus, e pode ser a descrição da salvação de todos nós: queremos ver Jesus, mas é sempre ele quem nos vê primeiro.

Mas um personagem bíblico em que percebemos esse movimento com clareza é na história de Zaqueu.

Lucas 19,1-10

1 Entrando em Jericó, atravessava Jesus a cidade.
2 Eis que um homem, chamado Zaqueu, maioral dos publicanos e rico,
3 procurava ver quem era Jesus, mas não podia, por causa da multidão, por ser ele de pequena estatura.
4 Então, correndo adiante, subiu a um sicômoro a fim de vê-lo, porque por ali havia de passar.
5 Quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa.
6 Ele desceu a toda a pressa e o recebeu com alegria.
7 Todos os que viram isto murmuravam, dizendo que ele se hospedara com homem pecador.
8 Entrementes, Zaqueu se levantou e disse ao Senhor: Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais.
9 Então, Jesus lhe disse: Hoje, houve salvação nesta casa, pois que também este é filho de Abraão.
10 Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido.

Para entender o texto

Jesus está viajando para Jerusalém e, no caminho, ele passa por Jericó.

Jericó não é seu destino final, mas faz parte do caminho que ele precisava percorrer. É interessante que no texto anterior, Jesus cura um cego na entrada de Jericó. Esses dois textos têm paralelos importantes para entendermos a história de Zaqueu, que depois comentaremos.

Lucas afirma que Zaqueu era rico e chefe dos publicanos. Ele não caracteriza Zaqueu de um ponto de vista religioso (não diz que é pecador) nem político, dá apenas uma descrição econômica e social.

Os publicanos eram mal quistos pelos judeus. Eles coletavam impostos para o império romano. Os impostos eram exorbitantes, levavam muitos à falência e os publicanos extorquiam o povo para enriquecerem. Por isso, os judeus os consideravam como traidores.

Ver

Jesus disse que os olhos são a lâmpada do corpo. Isso tem a ver com o texto de hoje, que enfatiza o modo como cada personagem vê a outra e como Jesus transforma nosso jeito de ver o mundo.

Tudo começa com o desejo de Zaqueu de ver quem era Jesus. Percebemos aqui que Zaqueu não queria apenas ver Jesus, mas queria ver quem ele era, ou seja, conhecê-lo com mais profundidade.

Mas seria isso possível? É possível conhecer alguém apenas olhando, de longe? Se já lhe era difícil ver fisicamente Jesus, dada sua baixa estatura física, “quanto mais difícil seria ver a interioridade de Jesus, dada sua baixa estatura moral”. Sem a abertura e reposta de Jesus, seu desejo não poderia ser realizado.

Zaqueu corre à frente da multidão e sobe em um sicômoro, uma árvore grande e densa. Lá em cima, ele estava escondido, anônimo. Ninguém o veria ali. Zaqueu queria ver Jesus, como que espionando. Jesus, porém, olha para ele ostensivamente, chamando a atenção de todos.

Aqui, Lucas usa o mesmo verbo para ver (anablepô) que na perícope anterior (de um cego que é chamado e curado por Jesus). Tanto o cego na entrada de Jericó quanto Zaqueu passam a ver novamente. Contudo, há uma diferença: “O cego queria ver a Jesus, mas não podia por causa de sua cegueira. Zaqueu quer ver quem é Jesus, mas não pode por causa de sua baixa estatura.”  Ele era cego, não fisicamente, mas espiritualmente. Vivia num mundo fechado, sem relações fraternas com seus semelhantes. Não conseguia ver as outras pessoas como semelhantes, como pessoas nas quais Deus habita, pessoas criadas e animadas por Deus, tão dignas de direitos quanto ele. Esse é o pecado do rico e também de muitos nós: a negligência com a humanidade do outro.

O anablepô (olhar para cima) de Jesus tem sobre Zaqueu o efeito de abrir-lhe os olhos e fazê-lo ver os pobres e aqueles a quem defraudara (Lc 19,8). Quando sua cegueira é superada, o rico Zaqueu reconhece a origem de sua riqueza e escolhe uma via radical para pôr-se em dia consigo mesmo.

Pelo olhar de Jesus, que vê o interior daquele chefe de publicanos, seu ser mais profundo, Zaqueu é transformado e passa a viver como filho de Abraão, sua identidade mais profunda, esquecida até mesmo por ele.

Depois de ver Zaqueu e chamar a atenção do povo para ele, Jesus — como sempre — faz o inesperado: chama-o para descer porque ele precisava hospedar-se em sua casa. Como falamos, Jesus estava viajando para Jerusalém, de passagem por Jericó, mas o ato de ver interrompe a sua viagem.

Jesus, no final do texto, diz que naquele dia a salvação entrou naquela casa, que aquele homem também era filho de Abraão e que o filho do homem veio procurar (olhar) e salvar o perdido. Há um toque de ironia na primeira frase de Jesus porque seu nome significa salvação. Ao dizer que a salvação entrou naquela casa, ele está dizendo que ele entrara naquela casa.

O texto nos ensina a ver quem é Zaqueu, quem é Jesus e quem é a multidão. De rico, Zaqueu transforma-se em alguém que redistribui sua riqueza e restitui mais do que a lei previa aquilo que extorquira. De chefe dos publicanos, Zaqueu torna-se filho de Abraão.

Quanto mais próximo estou de Deus, mais percebo que sou pecador

Contudo, enquanto Jesus vê Zaqueu e este é curado de sua cegueira espiritual, a multidão não entende a postura de Jesus e critica Zaqueu. Esses murmuradores acreditam ser puros, separados dos pecadores, mas, curiosamente, não reconhecem a presença de Deus em Jesus Cristo. Essa mesma multidão, que glorificara a Deus na cura do cego físico, não enxergou o milagre da cura da cegueira espiritual de Zaqueu. O pecado os faz cegos para sua própria condição. Estão tão centrados em si que não enxergam o outro que carece de ajuda nem a Deus.

Contrastando com os murmuradores, está a abertura de Zaqueu a Jesus. Ele é um pecador que reconhece seu estado, reconhece que a riqueza não pode lhe dar felicidade e vida plena. Por isso, ele tem fome de Deus.

Alguém disse que devemos ler a Bíblia contra nós. Devemos nos questionar se, em vez de termos o olhar amoroso de Jesus, não somos a multidão que aponta o dedo para aqueles/as que julgamos pecadores/as. Os evangelhos sempre contrastam os pecadores e os religiosos. E, curiosamente, Jesus sempre teve problemas com os últimos.

A multidão que murmura ao ver Jesus entrando na casa de alguém que ela não imaginava é religiosa, ela acredita que precisa fazer e deixar de fazer uma lista de coisas para ser aceita por Deus. Contudo, a religiosidade é algo tóxico. Ela, por ser impossível, nos corrói a alma e nos torna cegos para as outras pessoas.

Jesus questiona esse estilo de vida, revelando-nos que não precisamos agradar a Deus, não precisamos ficar obcecados com o que fazemos ou deixamos de fazer, mas devemos reconhecer seu amor gracioso, que age primeiro em nossas vidas, nos convidando a uma vida nova. Não que ética e boa conduta sejam desnecessárias, mas elas devem brotar de um interior puro, cheio de compaixão.

Gustaf Aulén, um bispo luterano sueco, observou que quanto mais a gente se aproxima de Deus, mais a gente percebe o que nos separa dele. Deus é Santo, por isso, quando nos colocamos diante dele reconhecemos nossos pecados. Ao contemplarmos, percebemos nosso estado de pecado e finitude.

Zaqueu olhou para Jesus, buscando saber quem ele era. Isso me leva a questionar o que que acontece quando a gente olha para Deus e o que nos impede de olhar para ele.

Justificação pela fé

Amanhã, dia 31 de outubro, comemoramos os 499 anos da Reforma Protestante. E o texto de hoje trata de um tema essencial, redescoberto pela Reforma: a justificação pela fé.

Vemos que Zaqueu foi salvo não por ter mudado de atitude, mas por reconhecer-se pecador e necessitado da ação divina. A reconciliação com Deus nos transforma de dentro para fora, por isso, Zaqueu passou a viver diferentemente.

Conversão concreta

O olhar cuidadoso de Jesus sobre Zaqueu levou-o a uma conversão concreta, integral. Sua decisão de caminhar com Cristo transformou suas atitudes, a olhar para o outro com novos olhos, a buscar um mundo onde reine a justiça e a igualdade.

Como ele, existem muitas pessoas deixadas à margem. Que querem ver Jesus, mas são impedidas pelas multidões de nossos dias. O que temos feito para levar essas pessoas a uma nova vida? Temos agido como a multidão, murmurando e acusando, ou como Jesus, que com um olhar diferente, transforma essas pessoas?

Energia

Eu acredito que ser cristão não tem a ver com o que acreditamos, mas com o modo pelo qual enxergamos as coisas. Ser cristão é enxergar-se como filho amado graciosamente de Deus. É enxergar o outro, o diferente, como ser animado pelo Espírito de Deus. É enxergar o mundo como Criação, em que nossa tarefa é cuidar dele, mantendo sua beleza original. É enxergar a Deus não como guerreiro, bravo ou punitivo, mas como Pai e Amor.

Inspirações

http://www.workingpreacher.org/preaching.aspx?commentary_id=2968

http://www.cebi.org.br/noticias.php?noticiaId=7465

http://www.luizcarlosramos.net/foi-buscar-la-e-saiu-tosquiado/

http://www.faculdadejesuita.edu.br/documentos/091111-Lc19110Zaqueu.pdf

Imagens de Jesus

Tornou-se comum atualmente o uso de imagens guerreiras e violentas de Deus. Fala-se de Deus não como aquele que age pela graça e cuja justiça é a misericórdia, como falava Lutero, mas como o Imperador que está do nosso lado e aniquilará todos que não estão conosco.

É preciso, pois, recuperar a imagem de Jesus Cristo vivenciada pelos primeiros cristãos, baseada no amor, na paz e na justiça. Para isso, é interessante analisar o desenrolar das concepções sobre Jesus. Sirvo-me aqui de um artigo do professor Helmut Renders, extraindo dele duas imagens e parte dos seus comentários.

Bom Pastor

Jesus, o bom pastor - Catacumba de Priscila, Roma, 250

Jesus, o bom pastor – Catacumba de Priscila, Roma, 250

Jesus, o bom pastor, é o motivo mais antigo encontrado na história nos artefatos. A localização, a catacumba de Priscila, um lugar de sepultamento, remete-nos, primeiro, a uma época onde não se era permitido erguer publicamente representações da fé cristã. Segundo, ele nos explica a provável escolha do motivo. Por um lado, a imagem do bom pastor possibilitou a identificação com ele por parte de pessoas marginalizadas na sociedade, tendo o pastor uma fama de não pertencer a um lugar fixo, de não se submeter às ordens estabelecidas, de viver, muitas vezes, uma vida mais solitária, longe do ambiente de uma família constituída. Por outro lado, a imagem do pastor articula também um Deus que não exclui este grupo social.

A composição destaca o aspecto do cuidado, sinalizado pelo balde com água na mão direita e pela ovelha carregada nos ombros, ao redor do pescoço. Ao lado do aspecto do cuidado, há uma interessante dinâmica relacional. Enquanto as três ovelhas olham para o pastor, o pastor olha para os observadores e observadoras da pintura. Assim, forma-se uma unidade aberta em Cristo. As ovelhas estão em comunhão, e a figura de Jesus, o bom pastor, transcende esta comunhão, ou abre esta comunhão, para o/a espectador/a.

Sobre o artista, não sabemos nada, senão da sua classe social: o artista visual e plástico pertencia, na antiguidade, ao grupo dos que trabalhavam com as suas mãos, o que era especialmente comum entre os/as escravos/as e artesãos/ãs. A arte não sinaliza aqui erudição, mas um estado mais humilde de origem. O motivo, entretanto, é uma adaptação da cultura Greco-Romana, mais exatamente de Figuras de Hermes (Eusébio, 2005, p. 17-19) e suas representações com uma ovelha ao redor do pescoço (um detalhe que o texto bíblico não relata). Jesus, o bom pastor, substituiu o mensageiro dos deuses, Hermes.

Pantocrator

Cristo Pantocrator, Igreja Santa Constanza, Roma, século 4

Cristo Pantocrator, Igreja Santa Constanza, Roma, século 4

Jesus Pantocrator é claramente um Cristo imperial e, consequentemente, insigne dos imperadores, cristãos, sim, mas do poder ‘cívico’. Pela presença da mesma linguagem imagética em moedas de imperadores e nos ‘céus’ das igrejas, estas esferas distintas foram interligadas, finalmente, fundidas; pareciam falar a mesma língua e pertencer ao mesmo mundo. Enquanto, por exemplo, o Cristo cósmico da epístola de Efésios servia como protetor da jovem igreja e, ao mesmo tempo, unia o mundo nele (Ef 4.6,10), o Cristo Pantocrator é patrono da ordem sociopolítica estabelecida do mundo, inclusive dos tronos.

Somos obrigados, ao analisar essas duas imagens de Jesus, a questionar: a nossa concepção de Jesus assemelha-se mais ao Jesus Bom Pastor ou ao Jesus Pantocrator?

A maioria das pessoas certamente foi formada sob a imagem do Pantocrator. Porém, a imagem que encontramos nas narrativas do Novo Testamento é a do Cristo Pobre. O Deus revelado em Jesus Cristo é humilde, servo e abriu mão de sua glória e poder, enquanto o Cristo Imperial é fruto da institucionalização e do alinhamento da igreja ao poder.

“Mas o Novo Testamento também chama Jesus de Rei”, o leitor pode alegar. De fato. Porém, ao fazer isso, os escritores bíblicos estavam subvertendo a noção de poder e de reinado. O Reino de Deus opera sob uma grande inversão: o Rei não é como o César, que impõe sua vontade pela força, mas é aquele que esvaziou-se de si mesmo, é o Crucificado; o Reino de Deus não é dos religiosos e dos conhecedores de Bíblia, mas daqueles que, como crianças, reconhecem sua incompetência e dependência total da graça divina.

Os evangelhos releram as tradições do Israel campesino, que esperavam um Messias Pastor (veja Isaías 6,1-9,7, Isaías 11,1-9, Miqueias 5,2-5 e Zacarias 9,9-10) e viram em Jesus a chegada dessa esperança.

Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas. (João 10)

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Para aprofundar-se no assunto, veja:

Jesus: messias-guerreiro ou messias-pastor?

Cristologia iconográfica: das suas linguagens imagéticas clássicas a uma expressão única latino-americana no fim do século 20

O Messianismo – Desde o Antigo Testamento Até Jesus Cristo

Para além do humano

Um posicionamento filosófico, poético e político

Nós, seres humanos ocidentais e capitalistas, só sabemos pensar em nós mesmos. Tudo que fazemos é apenas para o nosso benefício. Em uma palavra, somos antropocêntricos. E esse ponto de vista invade todas as áreas do indivíduo e da sociedade. Construímos uma economia que só leva em conta os desejos da humanidade — de uma pequena elite humana, devo acrescentar –; uma religião que tem como alvo salvar seres humanos; e nos pensamos o suprassumo de toda a natureza, superiores às árvores e aos animais.

É claro que só podemos enxergar o mundo através de nossos olhos humanos. Nós não temos acesso à realidade em si, vemos tudo mediado pela nossa subjetividade (linguagem, cultura, religião, traumas, etc.). Mas fomos longe de mais.

Prova disso é que estamos destruindo o planeta. Em nosso ideal antropocêntrico, criamos o capitalismo, a forja universal que invadiu cada centímetro deste planeta e além. Graças a esse sistema econômico, levamos a Terra a uma nova época geológica: o antropoceno, uma era na qual as mudanças do planeta são geradas pela atividade humana; um feito inédito, mas não menos lamentável. Essas mudanças fazem do planeta uma casa cada vez menos acolhedora.

Foto de S. Zuther, retirado de phys.org

Sejamos mais humildes, desumanizemos o conhecimento e reconheçamos que somos apenas parte de um universo infinito.

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O poeta estadunidense Robinson Jeffers, ciente desse problema, cunhou o termo “inhumanism”. Ele acreditava que a humanidade estava tão centrada em si que perdera de vista a beleza do mundo.

Abstratos demais, sábios demais,

É tempo, para nós, de beijar novamente a terra,

É tempo de deixar que chovam desde o céu as folhas,

De deixar a rica vida correr para as raízes novamente. (Retorno)

Isso me lembra da incrível sabedoria dos índios yanomamis, que dizem que nós, ocidentais, somos tão autocentrados que não conseguimos sonhar com algo que não seja nós mesmos. Esse mesmo povo fala de uma doença chamada “xawara”, a epidemia do metal que destrói as pessoas e o mundo.

Jeffers afirmava que o ser humano é parte da natureza, não um intruso ou um dominador, e que a humanidade seria mais feliz se devotasse menos atenção e paixão a si mesma e mais para a natureza não-humana.

Nós construímos nossa identidade no diálogo com as outras pessoas, com as ferramentas que criamos e com a própria natureza. É nessa relação de abertura e respeito que nos tornamos humanos. Uma pessoa que não se abre a outras é fascista, uma pessoa que não cria nem se deixa (re)criar pelos instrumentos que faz não pode viver em sociedade e uma pessoa que não se entrega à natureza é suicida.

***

Precisamos pensar novas possibilidades de se relacionar com a natureza e de viver em sociedade. Podemos começar isso nutrindo a contemplação da natureza. Silenciar-se diante das maravilhas do mundo, sem tentar explicá-lo, isto é, sem submetê-lo à nossa vontade, parece-me ser um ótimo começo.

Sound of Bamboos in the Skew Wind and Heavy Shower, 2006

Também é necessário repensar o modo como nos relacionamos com a realidade e o modo como construímos o conhecimento. É claro que não dá para sair de nossa perspectiva, mas podemos e devemos considerar em nossas investigações o lugar no qual estamos. O pluralismo ontológico — uma linha filosófica da qual pretendo falar em breve — pode ser uma boa forma de levar isso à frente, pois ele nos abre à riqueza da experiência humana e não-humana e garante um modo de vida antitotalitário.

Por fim, precisamos repensar o modo como nos organizamos para viver junto, pois isso tem consequências inevitáveis no planeta. É necessário abrir mão do capitalismo, pois ele é inerentemente destruidor da natureza e da própria humanidade, desejando crescimento infinito e beneficiando apenas uma minoria.

Ouso dizer que no século 21 o capitalismo irá morrer. Se a humanidade morrerá junto será escolha nossa. Temos que decidir entre o capitalismo e vida. Não dá para escolher os dois. Escolhamos a vida, construindo uma política que garanta os direitos de todos os seres humanos, e deixe espaço para as outras formas de vida.

A morte subterrânea 2

Nota: caso você não tenha lido a primeira morte subterrânea, clique aqui.

Diante da situação social, econômica e política do mundo, parece-me haver uma ansiedade que atinge a todos indiscriminadamente. A preocupação com o futuro da economia e da sociedade nos abala profundamente e tudo aquilo que nos dava suporte foi destruído.

Por isso, ouso dizer que a marca principal de nosso tempo é a angústia. Nos sentimos sufocados pelo capitalismo e a modernidade nos atormenta. Mais do que isso, a angústia é um medo que não sabe o que teme. Sentimo-nos esganados, mas não sabemos exatamente por quê.

Parece que vivemos uma constante morte. Tudo se tornou morte e tudo nos mata. É óbvio que a morte sempre foi onipresente. Freud já deixou isso claro ao tratar da pulsão de morte. Mas a modernidade é o acelerador da humanidade. Ao colocar a produção e a vida num passo acelerado, ela inevitavelmente também acelera a morte.

O trabalho, a mais banal das ações humanas, é instrumento de morte, pois só existe através da desvalorização e da desumanização do trabalhador. Este não tem condições para se exteriorizar, é escravo do capitalismo (cf. Enrique Dussel). E não se expor ao mundo é sinônimo de morte (cf. Emmanuel Lévinas e Martin Buber). O capitalismo busca amenizar a situação através de pseudo-exteriorizações, mas elas não eliminam o problema. Conforme Karl Marx, o trabalho é a causa e a consequência da angústia moderna.

Paul Ricouer, em Finitude e Culpabilidade, afirma que há uma desproporção e contradição entre o infinito da vontade e o finito da inteligência — uma situação de miséria patética. Não é essa a condição humana, mas levada à rotação máxima pelo capitalismo? Isto é, o capitalismo promete ter inteligência infinita para suprir desejos infinitos. O irônico é que a civilização é a repressão dos instintos humanos, como mostrou Freud em O mal-estar na civilização. O capitalismo promete o contrário do que cumpre.

A saída provavelmente é o reconhecimento da impermanência humana: somos nada, não podemos conter o infinito.

Diante da angústia onipresente, me questiono: o que o futuro nos guarda? Ou além: será que há um futuro à frente? Talvez a morte esteja na nossa cara, somos asfixiados por ela, mas resistimos, queremos enterrá-la. O problema é que é impossível fazê-la parar.

Talvez tudo esteja prestes a explodir, mas será que isso não é algo a ser comemorado? Não é o nosso fim algo a ser abraçado com gozo? Mesmo que a morte que se esconde no subterrâneo da consciência e da sociedade seja vencida hoje, um dia ela voltará e não será possível vencê-la.

Nesse contexto embriagado de mal-estar, renascem o fascismo, o fundamentalismo e o reacionarismo. A incerteza é grande. O Sol não é suficiente para iluminar a existência humana. As pessoas demandam certezas.

O problema aparece quando a necessidade de objetivos nos levam a abandonar a dúvida, o bem mais precioso que a modernidade nos deu. Não devemos criar um passado idealizado nem sacralizar um grupo — o erro dos reacionários e dos fascistas, respectivamente. É preciso achar uma solução nova e que inclua a todas e todos.

Não faço a menor ideia de como sair do labirinto em que estamos nem de como enfrentar o minotauro que nos aguarda. Porém, é possível questionar: quais certezas podemos ter, isto é, como construir vida no mundo atual? E como manter a sanidade apesar das incertezas?