Espetáculo e Vazio

Toda a vida das sociedades em que reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo que anteriormente era vivido deslocou-se em representação.

(Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo)

O mundo resume-se em aparências. Percebemos as coisas não como elas são em si mesmas, mas como elas aparecem a nós. Interpretamos a realidade através de nossos sentidos e através das narrativas que dão sentido à vida.

Talvez a maior fonte de sofrimento humano esteja na incapacidade de perceber que tudo é transitório, impermanente.

Talvez o apego às aparências seja a fonte da incapacidade que temos de dialogar. Ninguém compreende ninguém, tudo é contemplado passivamente, como se a vida fosse um cinema. Prova disso é este blog. Escrevo as mesmas coisas das mais variadas formas e ninguém entende. Como diz o The Last Psychiatrist, se você está lendo isto, esta mensagem é para você.

Todos os fenômenos são vazios.

(Sutra Coração da Sabedoria)

Sobre o pressuposto básico de que a realidade é diferente de como ela se apresenta a nós, surgiu aquilo que Guy Debord chamou de Sociedade do Espetáculo. O espetáculo, em nosso tempo, tomou o lugar de Deus. Ele está em todo canto, sabe de tudo que acontece e é capaz de qualquer coisa.

Essa tran­si­ção estru­tu­ral para uma soci­e­dade do espe­tá­culo envolve a trans­for­ma­ção em mer­ca­do­ria de setores pre­vi­a­mente não-colonizados da vida social, e a extensão do controle buro­crá­tico aos domínios do lazer, do desejo e da vida coti­di­ana.

(Douglas Kellner: Media Culture and the Triumph of the Spec­ta­cle)

Toda a nossa vida é perdida em busca de aparências. Não nos preocupamos em viver bem, o que quer que isso signifique, mas em viver de um modo que todos os nossos conviventes aprovem.
Por isso é que somos tão produtivos. Transformamos o tempo, e com isso toda a nossa existência, em mercadoria.

Perdeu-se a capacidade de maravilhamento, de ficar à toa. Nós não conseguimos mais enxergar aquilo que nossos velhos símbolos apontavam. Somos seres irreligiosos, no pior sentido possível.

Para tentar suprir isso, o espetáculo tratou de desenvolver uma pseudo-espiritualidade. O que pode ser encontrado tanto nas igrejas tradicionais quanto nas neopentecostais e até em versões importadas do budismo.

E mesmo para quem foge a esses grupos, a lógica do espetáculo ainda é inescapável. Somos tentados a buscar a aparência de alguém calmo, fala mansa e sorridente. Embora essas sejam coisas boas, não há atalhos na espiritualidade. Não adianta querer imitar a aparência de santidade, é preciso ter a mesma disciplina que os santos. Por isso o apóstolo Paulo escreveu: “ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me valerá.” Preocupamo-nos mais com como os outros nos veem do que de fato em orar e retirar-nos em solitude.

Tudo que pode ser visto é profano.

A vontade tem a mesma deficiência que a Lei — só consegue lidar com a aparência. É incapaz de gerar a transformação de que o espírito necessita.

(Richard Foster)