Nu e Cru

O interesse por tudo que é nu e cru vem de longa data, está escrito em nossas peles. Por isso, meu nome não é sem razão. Como dizia a abandonada página Sobre, Furoa significa chão.

Contra a gravidade, força de Urano, e a favor de Gaia, o ser humano é feito de barro. E como aquilo que o anima é o fôlego que vem do céu, seu corpo ama a terra.

Prova disso é que mesmo Deus, cansado das abstrações celestiais, quis se fazer criança e lambuzar-se de lama. Urano e Gaia puderam novamente fazer amor.

Assim somos nós. Animados pelo vento somos levados a abraçar a terra. Ser leve é abandonar os voos metafísicos. Leve é viver no chão.

Como nos ensinam as árvores, que deixam cair suas folhas, a única constante é a inconstância de tudo que existe.

Preparem-se que vem tempestade por aí.

O mistério da encarnação

Por uma cristologia poética

Quem é Jesus Cristo? Esta é a pergunta chave em nossos dias. Não perguntamos quem foi o Jesus do passado, mas o impacto que as narrativas de Jesus de Nazaré têm sobre nós hoje. Perguntamos por Cristo de um ponto de partida poético: quais as novas possibilidades de beleza ele cria?

Nos evangelhos, vemos Jesus como um ser humano totalmente aberto ao divino. Como diz Leonardo Boff, “humano assim só podia ser Deus mesmo”. Esse Jesus Cristo, totalmente humano e totalmente divino, subverte toda a lógica humana. Diz que o maior é o menor, que o pouco vale mais que o muito, e abre mão de toda sua glória e poder para ser fraco e desprezado.

Essa história destrói os mitos elitistas. Ela ensina que a beleza não está reservada à “alta cultura”. O mistério da encarnação aponta para a ideia de que a beleza — o divino — inunda o comum.

A antiga divisão entre o sagrado e o profano é derrubada. Deus habita seres humanos — inclusive e principalmente os oprimidos — e os move com seu Vento a uma Nova Realidade de beleza, paz e justiça.

Quando um ser humano se abre ao sopro divino que o habita, sua vida se transforma. Ele se torna pacífico, amável e sensível. Imita o Cristo, abrindo mão de tudo que tem em defesa daqueles que sofrem.

Porém, o poder religioso não aprova a leveza poética do Espírito. Pois ser tomado pelo Vento Divino leva as pessoas a um novo jeito de viver, quebrando muitas vezes as normas eclesiásticas.

A encarnação, portanto, não se resume ao passado. As escrituras cristãs dizem que o Cristo existe desde o princípio e que ele está presente nas pessoas e no próprio universo. Cristo não é uma figura do passado, é transhistórico e Cósmico. Ele nos chama à segui-lo, a sermos leves para que seu vento los leve.