O novo falando dentro da gente

Prédica para o Ano Novo

makoto-fujimura

Eclesiastes 3,1-13

1 Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu:
2 há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou;
3 tempo de matar e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar;
4 tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria;
5 tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar;
6 tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de deitar fora;
7 tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar;
8 tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz.
9 Que proveito tem o trabalhador naquilo com que se afadiga?
10 Vi o trabalho que Deus impôs aos filhos dos homens, para com ele os afligir.
11 Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim.
12 Sei que nada há melhor para o homem do que regozijar-se e levar vida regalada;
13 e também que é dom de Deus que possa o homem comer, beber e desfrutar o bem de todo o seu trabalho.

*

Resoluções de ano novo

Um ano começa. Estamos diante de uma tela em branco prestes a ser pintada como desejarmos. É comum, nessa época, estabelecermos metas para o novo ano, para o que faremos e compraremos. Contudo, a maioria desses objetivos e hábitos que nos comprometemos a buscar são logo abandonados.

Por que nossas resoluções não dão certo? Talvez porque estejamos olhando para nossa vida de uma maneira negativa. Buscamos, acima de tudo, ter e ser mais. Queremos sempre mais, um cargo mais alto, um carro mais novo, uma casa maior, etc. Estamos entulhados pela perniciosa lógica do crescimento infinito. Com isso, acabamos por postergar a nossa felicidade. “Serei feliz assim que…”, pensamos.

Poderíamos criticar toda a ideia de resoluções de ano novo como uma superstição. Como se a mudança de ano magicamente pudesse nos fazer pessoas melhores. Porém, o ano novo é um bom tempo para desintoxicar, repensar a nossa vida, deixar o que é supérfluo para trás e redescobrir o essencial.

*

Um caminho alternativo

Como podemos, então, pensar a nossa vida de uma maneira mais saudável? Como fazer esse detox da alma? O livro de Eclesiastes nos apresenta um caminho alternativo.

Segundo Eugene Peterson, pastor e escritor estadunidense,

Eclesiastes faz uma limpeza geral na nossa alma, removendo a espiritualidade ‘habitual’ — aí, sim, estamos prontos para a visitação de Deus, revelada em Jesus Cristo. Eclesiastes é um livro que lembra João Batista. Funciona não como uma refeição, mas como um banho. Não é alimento; é limpeza. É arrependimento. É expiação. Lemos Eclesiastes para nos lavar e ficar limpos da ilusão, das opiniões, das ideias idólatras e dos sentimentos que causam revolta. Consiste na exposição e rejeição da expectativa arrogante e equivocada de que podemos viver nossa vida por nós mesmos.

No primeiro versículo do nosso texto, o Coélet — o homem da assembleia — afirma que “há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu.” Essas duas palavras, “momento” e “tempo”, embora algumas traduções apresentem apenas a palavra “tempo”, são diferentes no original. Quando elas foram levadas para o grego, foram traduzidas como “kairós” e “chronos”, respectivamente — palavras que talvez vocês já conheçam. Enquanto o tempo, o chronos, é o tempo no sentido cronológico, que repete-se ritmicamente e incessantemente; o kairós é o tempo num sentido qualitativo, é o tempo certo em que algo acontece.

O capítulo 3 de Eclesiastes, portanto, começa afirmando a necessidade de vivermos plenamente presentes no momento presente.

Tiago 4,13-14 traz esse tema ao afirmar:

E agora, vós os que dizeis: ‘Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, passaremos ali um ano, negociando e obtendo bons lucros.’ E, no entanto, não sabeis nem mesmo o que será da vossa vida amanhã! Com efeito, não passais de vapor que se vê por alguns instantes e depois logo se desfaz.

Esses versículos de Tiago têm muito em comum com o livro de Eclesiastes. A afirmação central do Coélet é justamente que tudo é vapor — vocês provavelmente conhecem a afirmação “tudo é vaidade”, encontrada no princípio deste livro; porém, essa palavra comumente traduzida como “vaidade”, “havel” no hebraico, significa vapor —, efêmero, transitório e, portanto, precisamos viver com atenção plena ao momento presente.

Os romanos costumavam dizer “memento mori”, ou seja, “lembre-se que irá morrer”. Apesar dessa afirmação ser estranha para nós hoje, ela contém uma sabedoria fundamental. É a partir da ciência da fragilidade da vida, do fato de que em breve estaremos mortos, que podemos relativizar nossa vida, eliminar tudo que nos faz infelizes — como, por exemplo, vivermos direcionados não pelo nosso desejo mais profundo, mas seguindo as aspirações de nossa sociedade — e focarmos no que é realmente importante.

Essa é a mensagem fundamental de Eclesiastes e que é também essencial para refletirmos neste novo ano: viver totalmente presentes no momento presente, certos de que tudo é vapor.

Para vivermos essa verdade, é necessário redescobrirmos as virtudes da simplicidade e da gratuidade.

Nos versículos 12 e 13, o Coélet diz:

E compreendi que não há felicidade para ele [o ser humano] a não ser no prazer e no bem-estar durante sua vida. E, que o homem coma e beba, desfrutando do produto de todo o seu trabalho, é dom de Deus.

Ou seja, para vivermos um ano novo abençoado, é preciso não o esforço para desenvolver novos hábitos — por mais que sejam importantes — mas novos olhos: aceitar a gratuidade da vida e viver com simplicidade, contentando-nos e satisfazendo-nos com as pequenas tarefas e maravilhas do dia a dia. É preciso, como disse o Rubem Alves, nascermos de novo a cada momento, sermos crianças, sempre encantados com o que se apresenta à nossa frente.

*

Carlos Drummond de Andrade, em seu famoso poema “Receita de Ano Novo”, escreveu:

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

O meu desejo é que eu e você possamos dar ouvido ao Novo falando dentro da gente e que assim, 2017 se revele um ano cheio de surpresas e pleno da presença daquele que é Mistério e não cansa de nos encantar.

(In)satisfação

Depois da minha insatisfação com a vida de burocrata da coroa portuguesa, decidi por uma alternativa radical. Alistei-me como marinheiro para chefiar as importações de commodities nas Índias.

O embarque estava marcado para dali quinze dias. Não apareci na casa do governo durante esses dias, aproveitando o tempo para dormir as tardes e beber vinhos de despedidas com meus amigos.

Preenchi uma pequena mala de costas com duas mudas de roupa, uma bússola que recebera de presente do vice-rei, um caderno e uma edição do Quixote.

A ansiedade dissipou ao partir do navio e um sentimento de liberdade nunca antes sentido tomou conta de meu coração.

Não preocupei-me em chegar logo à Índia. Antes contentei-me com estar solto ao mar, confiante de que ele haveria de me guiar.

Deveria ter se passado mais de um mês de nossa partida quando começou a tempestade. O vento quebrou o silêncio e, junto com ele, o mar e os marinheiros começaram a gritar. Ondas assaltaram meus colegas e ventos carregaram a vela. Lutávamos, implorando pelo socorro divino, quando a onda, duas vezes maior do que nosso imponente navio, atingiu-nos em cheio. E assim, engoliu-nos o mar.

Do que se passou imediatamente depois, sei pouco. Senti a força terrível do mar, mas senti que ele me abraçava. Desde que partimos, estranhamente cria, no fundo do coração, que o mar cuidava de mim.

Passado não sei quanto tempo — desconheço o calendário ocidental desde então — acordei numa praia, cercado por homens e mulheres de pele vermelha e cabelos compridos.

Aquele povo tinha tudo em comum, vivia de hortaliças, legumes, cereais e frutas. Não havia entre eles nada de ostentoso. Não ambicionavam nada, amavam a pura vida. Naquele povo, encontrei a vida perdida, distraída, na minha terra.

Abandono agora as palavras, pois encontrei algo mais valioso do que todas elas.

Epifania da Liberdade

Epifania do dia.

Veio-me à mente a seguinte questão: o que preciso para ser feliz?

A resposta foi pronta: isto.sieger-koder-mulher-no-poco

***

Liberdade é saber que não precisamos de nada para sermos felizes.

Liberdade é saber que mesmo perdendo tudo, ainda seremos felizes.

Porque a felicidade não consiste no que temos ou somos, não está em coisas exteriores, mas dentro da gente. Porque ser feliz é estar em contato com o centro de nosso ser.

Liberdade é saber que podemos ser felizes mesmo em meio às nossas imperfeições, vulnerabilidades e fraquezas.

Liberdade é aceitar que a felicidade é gratuidade.

Essa é a lição de todos os mestres espirituais.

Só encontramos o sentido da vida, o divino, dentro da gente.

E a felicidade é sempre uma experiência de graça.

O teólogo e suas tulipas

Spring-flowers-red-tulips-garden-grass_1280x1024Durante uma pesquisa sobre a história do calvinismo no Brasil, percebi algo totalmente ignorado pela mídia e pela academia: o fim da igreja batista nestas terras.

Primeiro achei que eu tinha entendido algo errado, deixado, talvez, alguma informação passar despercebida. Fui a fundo, procurar meu erro e descobri que a igreja batista, de fato, terminara sua história em 1935.

Com a curiosidade inerente a todo protestante, folheei anais, atravessei labirinticamente bibliotecas que herdavam textos que, um dia, encheram os seminários batistas.

Nas pesquisas dos alunos desses seminários, percebi que um pastor chamado Jorge Varpa — aparentemente sem nenhum outro mérito acadêmico — enchia os títulos de numerosas pesquisas de mestrado e doutoramento. Vi esse mesmo nome citado nas atas da Convenção Batista Brasileira como o último pastor ativo da instituição.

Pesquisei registros da igreja em busca de sua última residência. Descobri-a e fui imediatamente para lá, na esperança de encontrá-lo vivo. O que transcrevo aqui foi uma entrevista negada, que fiz questão de esconder até mesmo de minha esposa até a data da morte de Jorge.

***

As paredes da casa eram todas de madeira. Havia um jardim na frente, enfeitado com tulipas, pinheiros e macieiras. A cerca era baixa. Mesmo um idoso, como deveria ser Jorge, se ainda vivesse, poderia saltá-la, o que não seria necessário, já que a porteira estava destrancada.

Abri-a sem medo e bati na porta da casa. Ouvi uma voz gasta pela idade, mas plena de espírito:

— Entre.

Jorge, já com alta idade, sentava-se numa poltrona, descalço, relendo algum trecho da Divina Comédia. Pôs o livro e os óculos na mesa ao seu lado e apontou para o sofá na sua frente.

Tudo isso me deixou desconcertado.

— O senhor não se incomoda de abrir sua casa assim, para gente desconhecida? — perguntei.

O velho olhava-me nos olhos e respondeu:

— De fato, as pessoas hoje têm medo umas das outras — e depois de um momento de silêncio, ofereceu: — Aceita um chimarrão?

Assenti e fiquei a observá-lo preparando o intróito de nossa conversa.

Assim que dei a primeira puxada, queimei a língua. Estava desacostumado àquele ritual que apenas vivenciara na infância. O velho riu.

— O que te motivou a entrar aqui, jovem?

— Uma pesquisa — respondi, acostumando-me à água quente — Vem muita gente desconhecida aqui?

— As vezes. Fale mais sobre sua pesquisa. Embora eu goste de estudar, não piso em uma universidade há muito tempo.

— E nem em uma igreja — acrescentei, provocante.

Jorge percebeu, desconcertado, de que se tratava a pesquisa. Mas sua postura aberta continuou a mesma.

— É verdade. Não entro em uma igreja faz muito tempo. Creio que até mais do que a minha última visita à universidade.

— Creio ter descoberto algo inédito — com a intrepidez e a pressa de um jovem jornalista — A igreja batista, com sua solene teologia reformada, afundou-se no mar do esquecimento. E creio que o senhor foi o elemento central dessa conspirata.

Após uma gargalhada gentil, Jorge falou:

— Seu erro, jovem, está em acreditar que houve conspiração.

Eu me constrangi, ao ver minha arrogância pega em flagrante.

— O que aconteceu, então?

— Durante o seminário, eu era um estudante promissor. Compreendia perfeitamente a doutrina batista e a teologia reformada. Meus professores estavam certos de que eu continuaria meus estudos e me dedicaria ao ensino da sã doutrina. Porém, durante meu último ano, eu reli arduamente os evangelhos, em busca do Jesus que eu não encontrava nos livros de teologia. Descobri-o totalmente despreocupado de cargos eclesiásticos e de teologias elaboradas. Jesus era um homem, acima de tudo, amigo e camarada. Andava com o povo, contava histórias, abraçava, chorava, comia junto e vivia sempre encantado com o mundo. Decidi que queria ser mais como o Jesus dos pés empoeirados do que com os engravatados do seminário. Assim, rejeitei a proposta de fazer um mestrado e fui pastorear uma igreja no interior.

— E como isso culminou no fim de sua denominação?

— Foi tudo muito natural. Tentei viver como Jesus nas comunidades que pastoreei. Minha paixão era contagiante e levou muita gente a ter um brilho nos olhos que as lideranças da igreja jamais vira. Assim, consegui um certo reconhecimento institucional. Estudantes de teologia começaram a fazer trabalhos sobre minha vida. Mas isso não durou muito. Logo viram que eu também era superficial e que aquilo a que eles deveriam se apegar não era meu estilo de vida, mas a divina abertura de Jesus ao outro. Muitos desses alunos, desistiram da carreira pastoral e se tornaram os jardineiros, músicos e poetas mais fascinantes que já pude conhecer. Com o tempo, as pessoas foram se tornando cada vez mais seduzidas por Jesus e esvaziando os bancos das igrejas.
Eu estava sem fôlego. Bebia o chimarrão, encantado pela mensagem que entrava aos poucos em meu coração.

— Então — disse, buscando palavras para ver se eu havia entendido — quando Jesus falava de comunidade, ele estava se referindo a algo espontâneo e amistoso como uma roda de chimarrão.

— Sim. Jesus queria ver um novo mundo, isto é, um novo modelo de relacionamento, embasado no amor e na simplicidade (com o perdão da redundância).

Quando mencionei que precisava ir embora (essa foi a última vez que me peguei com a agenda cheia), Jorge se levantou, presenteou-me com uma cuia, uma bomba e um pouco erva-mate e me deu um longo abraço. Depois disso, abandonei a pesquisa e voltei para casa.

Puro e Simples

Minha espiritualidade é o mero fato de estar vivo,

com os bolsos vazios

e o coração aberto.

Desapegado de qualquer convicção,

descalço,

em contato direto com o chão.

Meu ritual é a mera vida,

é o ato de dormir, comer, abraçar,

chorar, ser machucado e frustrado.

Espiritualidade é viver a realidade

sem identificá-la com nada além dela mesma.

A Ceia e a Trindade

Quando eu era mais novo, visitei com meus pais a casa de uns familiares no Paraná. Nós não tínhamos muito contato, mas a mesa farta logo nos fez amigos. Pelo que me lembro passamos apenas um dia lá.

Mesmo que o tempo que passamos tenha sido curto, o ato de comermos juntos e comermos tão bem, marcou minha memória.

Vincent Van Gogh - Die Kartoffelesser

A comida une as pessoas de maneira profunda. Não é a toa que a palavra “comunhão” quer dizer “comer junto”.

Jesus não educava seus seguidores por meio de discursos, distante e com retórica apurada. Ele comia junto com as pessoas, ensinando-as pela convivência.

Otto Dix - From Das Evangelium nach Matthaeus (Kaethe Vogt Verlag, Berlin: 1960)

A igreja, atenta à ideia de um Deus feito carne, não copiou o culto judaico, focado na prédica, mas centrou-o no partir do pão.

Ser cristão é mais do que assinar embaixo de um conjunto de crenças, é tomar parte na mesa de Cristo, que acolhe todas as pessoas.

A mesa de Jesus convida a humanidade, mostrando seu verdadeiro sentido de ser. Não existimos para possuir bens materiais, mas para viver em relação com o divino e com o outro.

A Eucaristia expressa, em gestos e sabores, que o pão e o vinho deste mundo — o apego às riquezas, ao status — são transitórios e não podem ser o alvo de nossa vida. Apenas o pão vivo descido do céu merece nossa devoção.

Para achegar-se à Mesa de Cristo é necessário, como fez o negociante que vendeu tudo que tinha para adquirir uma bela pérola, abandonar tudo aquilo que a sociedade valoriza e encontrar refúgio no Eterno sem-valor.

Na mesa, Jesus nos revela que Deus não é absolutista, Deus não está voltado sobre si mesmo. Deus é “em si relacional” (nas palavras de Leonardo Boff), é a alteridade que possibilita a nossa existência.

Só conhecemos a Deus na abertura ao Outro, no diálogo e na relação com os outros seres humanos e com o cosmos.

Andrey Rublev

Quando ouvi a voz de Deus

Beto era um pastor famoso, dono de mansões e monopolizador de igrejas. Aos domingos, pregava milagres e sucesso instantâneo. E no resto da semana, ninguém sabia o que Beto fazia.

Num desses dias, ele ia para um motel com sua amante favorita. Bêbado, ele bateu o carro. O acidente destruiu seu carro de luxo e ela faleceu.

O pastor milionário não sabia mais o que fazer da vida. Não tinha condições emocionais de aparecer em público. Abandonou sua mansão e foi morar na rua.

Após uma, duas, várias noites de choro e muitas garrafas de pinga, Beto começou a notar pessoas a sua volta. Havia ali moradores de rua como ele, que provavelmente também viram-se na beira de um abismo.

Pela primeira vez em dias, ele falou. E fez, pela primeira na vida, algo que muitos morrem sem fazer: ouviu. Em vários rostos diferentes, Beto descobriu o Cristo que tanto pregara. Não o Cristo Rei, que promete prosperidade e plena satisfação, mas o Cristo Pobre, que abriu mão de tudo para viver entre a gente excluída.

Após encontrar-se com Cristo, Beto parou de desejar as alturas. Libertou-se do vício no álcool, tirou os sapatos e decidiu viver com os fragmentos divinos que a providência lhe deu a graça de contemplar.

O nome de Beto sumiu das televisões e outdoors. Apareceu escrito no Livro da Vida.

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